A castidade do coração

Ó Senhor, ensinai-me como deve ser puro o meu coração para ser admitido à Vossa intimidade.

1 – O coração da pessoa consagrada a Deus deve ser “um jardim fechado, uma fonte selada” (Cant. 4, 12) porque não deve admitir afeto algum que não seja de Deus ou ordenado a Deus. É evidente que isto não exclui nem o amor do próximo em geral, nem o afeto devido à própria família, mas sim tudo quanto é amor puramente natural. Por outras palavras, os afetos de uma alma consagrada a Deus devem ser todos sobrenaturalizados, ou seja, deve amar as criaturas por Deus, porque são Suas e Lhe pertencem. Quando, pelo contrário, nos seus afetos se deixa guiar por motivos humanos: simpatia, interesse, desejo de saciar o coração com alguma gota de amor sensível, então não ama as criaturas em ordem a Deus, mas por si mesma, pela satisfação que encontra nelas; o seu amor não é sobrenatural, mas humano. E os afetos humanos devastam o coração consagrado a Deus como as pequenas raposas de que fala o Cântico devastam os vinhedos.

Depois de ter quebrado, por amor de Deus, os vínculos sagrados do sangue, depois de ter renunciado a uma família própria, é grande insensatez deixar prender o coração por criaturas que não têm sobre ele direito algum, por afetos que nada têm de sagrado. Perante eles é preciso responder com a fortaleza de Inês: “Deus pôs um sinal na minha face para que não admita outro amor fora do Seu. Só nEle tenho a minha fé” (BR.).

“É para lastimar – escreve S. João da Cruz – ver como algumas almas… carregadas de riquezas… espirituais… por não terem ânimo para acabar com algum gostinho, ou apego, ou afeições, nunca adiantam nem chegam ao porto da perfeição… Farta razão de dor é que lhes haja Deus feito quebrar outras cordas mais grossas de afetos… e porque se não desprenderam duma ninharia… deixam de caminhar a tanto bem” (S. I. 11, 4 e 5).

2 – Deus é cioso do coração que Lhe e consagrado, e não o admite à Sua intimidade enquanto o achar ocupado por qualquer afeto que o impeça de concentrar nEle todo o amor de que o tornou capaz. “Deus – diz Santa Teresa de Jesus – não quer forçar a nossa vontade, toma o que Lhe damos, mas não Se dá a Si de todo, até que de todo nos demos a Ele” (Cam. 28, 12). “Deus não quer um coração dividido: quer tudo ou nada” (T.M. Sp. pg. 187).

Enquanto nãos e chega ao dom total do coração, será impossível gozar da intimidade divina.

“Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus” (Mt. 5, 8), disse Jesus. Esta visão, este gozo de Deus é de certo modo antecipado cá na terra, para aqueles que sabem reservar para Ele a integridade, a pureza do coração. S. Tomás escreve: “Um coração livre de pensamentos e afetos alheios a Deus, é como um templo consagrado ao Senhor, onde já neste mundo O podemos contemplar” (Coment. a S. Mt). O coração puro é semelhante ao olhar limpo e claro que sabe compreender a Deus e penetrar na profundidade dos Seus infinitos mistérios. Por isso os teólogos ensinam que `”bem-aventurança dos limpos de coração” corresponde o dom do entendimento, por meio do qual o Espírito Santo torna a alma capaz de “intus legere“, de ler dentro, isto é, de penetrar na Divindade. Quem mais ama, mais deseja conhecer a pessoa amada, não só exteriormente, mas também intimamente, até ter entrada nos seus pensamentos, nos seus segredos, renunciando gostosamente a qualquer outra satisfação para conseguir o seu fim.

Se queres conhecer a Deus, se queres entrar na Sua amizade íntima e profunda, deves oferecer-Lhe um coração puro, vazio de todo o afeto humano. “Não tenhas presente em ti as criaturas se queres guardar na tua alma clara e simples a imagem de Deus, mas esvazia e alheia delas o espírito… e andarás na luz divina” (J.C. AM. I, 25).

Colóquio – Ó Jesus, doçura inefável, convertei-me em amargura todas as consolações da terra, porque não quero que as criaturas tenham sequer um átomo do meu coração. Se soubesse que uma só fibra do meu ser vibrava por uma feto humano, estaria pronto a arrancá-la e a lançá-la para longe de mim a preço de qualquer sofrimento.

Mas Vós sabeis como é grande a minha fraqueza e como nos momentos de desânimo, de solidão e de abandono, sinto a tentação de ir procurar um pouco de afeto, de compreensão, nas criaturas. “Oh! então, eu Vos peço, fazei que só encontre amargura nas minhas amizades da terra, de outra forma, com um coração como o meu, deixar-me-ei prender e cortar as asas” (cfr. T>M>J> M.A> pg. 91).

Ó Senhor iluminai o meu coração nas suas pregas mais recônditas, nos seus mais íntimos esconderijos, e se neles encontrardes algum fio de afeto que não seja para Vós, mostrai-me e dai-me a graça de o quebrar para sempre.

Vós quereis tudo e eu quero dar-Vos tudo. De resto, ao dar-Vos todo o meu coração, não faço mais do que devolver-Vos o que é Vosso, porque de Vós o recebi, e porque não seria capaz de amar se não tivésseis infundido em mim uma centelha da Vossa caridade infinita. Ó Senhor, é muito justo que esta centelha volte para Vós e seja empregada em amar-Vos, amor infinito, que me tirastes do nada e me fizestes capaz de corresponder ao Vosso amor. O meu amor insignificante, elevando-me até Vós e pondo-me em contato com a fornalha imensa da Vossa caridade, crescerá desmedidamente e poderá espalhar-se pela terra, abraçando, na benevolência de um amor puro e sobrenatural, todas as criaturas, para s conduzir a Vós, seu princípio e seu fim.

Ó Jesus, guarda das virgens, guardai o meu coração e tornai-o tão puro e transparente, que seja digno de ver o esplendor da Vossa face.

Não Vos conheço ainda, Senhor meu, porque querendo ainda amar e gozar as criaturas, o meu olhar interior não tem a limpidez necessária para Vos contemplar. E porque não Vos conheço, não Vos amo quanto deveria e pouco gozo de Vós. Vede, pois, como é grande a minha necessidade! Vinde Vós purificar o meu coração a fim de que possa conhecer-Vos plenamente e, conhecendo-Vos, verdadeiramente Vos possa amar com todas as minhas forças.

Intimidade Divina, Meditações Sobre a Vida Interior Para Todos os Dias do Ano, P. Gabriel de Sta M. Madalena O.C.D. 1952.

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