A livre imolação da liberdade

Ó Jesus, Cordeiro divino imolado voluntariamente pela glória do Pai, fazei-me compreender o grande valor da imolação voluntária.

1 – O voto de obediência foi magnificamente definido como sendo “a livre imolação da liberdade” (Pio XII Congr. de Relig. Dez. 1950). Esta definição põe em evidência o conceito de imolação livre, o que bem mais que uma passividade, supõe uma intensa e nobre atividade, que consiste na renúncia voluntária da própria vontade, para se submeter voluntariamente à vontade de Deus, expressa nas ordens dos superiores. Estamos, pois, bem longe do conceito duma obediência mecânica, material, talvez forçada, suportada necessariamente, pela qual o homem age como uma máquina, ou como um criado que se sujeita ao patrão, só porque não pode deixar de o fazer. Neste caso tem só o nome e a aparência externa de obediência, mas na realidade falta-lhe o conceito interior, o ato formal que consiste na renúncia livre do próprio querer, para aderir à vontade de Deus, manifestada nas ordens dos superiores. Só em virtude deste duplo elemento: livre renúncia de si e livre adesão à vontade divina, a obediência é um perfeito holocausto, tão agradável e preciosos aos olhos de Deus, que “vale mais que as vítimas” (I Re. 15, 22). Se este duplo elemento interior vier a faltar, o ato externo de obediência, poderá ser suficiente para não faltar ao voto ou à promessa feita, mas perde o seu profundo valor e não será nunca um meio para desprender o homem da sua vontade e para o lançar na vontade de Deus.

Quando te contentas com uma obediência material, forçada, não realizas o ato interno de renúncia a ti mesmo; ainda que exteriormente te conformes com a ordem recebida, conservas porém interiormente a tua vontade, nem sequer que abraçaste livremente a vontade divina. Uma tal obediência é contrassenso para uma alma que aspira à união com Deus, é pretender chegar ao fim sem empregar os meios, é trocar a moeda preciosa da verdadeira obediência por uma vil moeda de estanho. Sta Teresa de Jesus ensina: “a obediência é o caminho mais breve e o meio mais eficaz para chegar ao ditoso estado de união com Deus” (Fd. 5, 11). Trata-se apenas da obediência que é “livre imolação da liberdade”, para não querer outra liberdade senão a de fazer a vontade de Deus.

2 – Uma “livre imolação” exige sempre consciência e conhecimento claro da parte de quem a realiza; assim deve ser também o ato de obediência. Se fizeste voto ou promessa de obediência, deves procurar manter sempre vivo em ti, o sentido da responsabilidade do compromisso tomado.

Ao pronunciares a fórmula da tua profissão, tiveste a intenção de oferecer a tua vontade em holocausto ao Senhor, para te deixares guiar por aquele que O representa; por isso, em presença das diversas ordens da obediência – principalmente diante daquelas que mais se opõe à tua maneira de ver ou que, por qualquer motivo, te são mais difíceis – deves vigiar para que não te aconteça retomar na prática, o que ofereceste com voto; seria cometer uma rapina no holocausto. A tua vontade está consagrada e sacrificada no altar do Senhor, já não é tua, portanto não tens a liberdade de a retomar. Pelo contrário, deves usar dela para viveres, para atualizares dia a dia a tua oferenda, ou seja, para renovares continuamente, perante qualquer disposição da obediência, a imolação da tua liberdade. Bendita obediência, que te permite realizar o teu holocausto! “Porque se de outra maneira dais ao Senhor a vossa vontade – escreve Sta Teresa de Jesus às suas filhas – é mostrar-Lhe a jóia, ir-Lha a dar e rogar-Lhe que a tome, e quanto estende a mão para nela pegar, torná-la a guardar muito bem guardada” (Cam. 32, 7). Infelizmente isto é sempre possível; mesmo tendo sacrificado com voto a tua vontade, esta permanece todavia nas tuas mãos, e depende da tua própria vontade seres fiel ao voto feito. Portanto é necessário que estejas bem decidido a vencer as tuas repugnâncias para abraçares a vontade de Deus expressa nas ordens dos superiores.

“A obediência é o peso dos fortes” (Pio XII, aos Carm. Desc. Set. 1951), porque requer força para se renunciar a si mesmo; ,as este peso, esta renúncia, é suave para a alma enamorada da vontade de Deus que sempre encontrará nos Seu amor, a força para se negar.

Colóquio – Ó Senhor, poderá haver ideal maior e mais belo do que chegar a conformar totalmente a minha vontade com a Vossa de modo que não seja a minha, mas a Vossa vontade que me dirija, guie e governe em todos os meus movimentos, em todas as minhas ações?

Oh! como é sublime o estado de perfeita conformidade coma Vossa vontade divina! Mais uma vez me repetis que “para adquirir este tesouro não há melhor meio de cavar na mina da obediência e extraí-lo à viva força. Quanto mais cavar, mais acharei; quanto mais me sujeitar aos homens por Vosso amor, não querendo outra vontade senão a dos superiores, mais me farei senhora da minha, a fim de a conformar com a Vossa. Esta é a verdadeira união conVosco, meu Deus, esta é a união que desejo, e não uns embevecimentos muito regalados a que se dá o nome de união e não são união, senão quando procedem desta. Vós fazeis-me compreender bem que, se eu tiver pouca obediência e muita vontade própria, a união não será com a Vossa vontade, mas com o meu amor próprio. Praz a a Vós, Senhor, que eu ponha em prática o que me fazeis a graça de entender” (cfr. T.J. Fd. 5, 13).

Ó Senhor, Vós sabeis muito bem desagrada à minha vontade submeter-se, renunciar a si mesma para se sujeitar à vontade alheia; existe em mim um amor tão forte à liberdade, à independência, que me inclina a procurar mil pretextos e maneiras para fugir à necessidade de obedecer. Contudo, Vós sabeis também que não há coisa no mundo que mais ame, procure e deseje do que a Vossa vontade. E para viver segundo a Vossa vontade, para ter a certeza e a alegria de agir sempre em conformidade coma Vossa vontade divina, estou pronto a fazer, com o Vosso auxílio, qualquer sacrifício, a imolar inteiramente a minha liberdade. Ó Senhor, aumentai o meu amor à Vossa santa vontade, acendei em mim a paixão da Vossa vontade, e então crescerá na minha alma o amor à obediência, canal de ouro através do qual chega até mim o tesouro preciosíssimo da Vossa vontade.

Intimidade Divina, Meditações Sobre a Vida Interior Para Todos os Dias do Ano, P. Gabriel de Sta M. Madalena O.C.D. 1952.

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