A Mãe de Deus

Santa Mãe do meu Deus, fazei-me sentir as palpitações do vosso coração que bateu em uníssono com o coração de Deus!

1 – A maternidade divina é a fonte de todos os privilégios de Maria; é a filha dileta do Pai, preservada da culpa original, é a esposa do Espírito Santo, cuja virtude a cobriu com a Sua sombra, precisamente porque foi escolhida para Mãe do Verbo Incarnado. Todas as grandezas e glórias de Maria se explicam em vista da sua maternidade divina; assim, a sua própria existência explica-se em vista da predestinação para tão alto ofício. Se Deus não tivesse determinado a Incarnação do Seu Filho no seio de uma virgem, não teríamos tido esta obra prima de graça e amabilidade que é Maria Santíssima, não teríamos tido o seu sorriso e os seus carinhos maternais. Nós, pois, honramos e amamos Nossa Senhora porque é Mãe de Deus, é Mãe de Jesus, e amando-a assim em relação a Deus, a nossa devoção para com Ela não faz senão tornar mais profundo e mais delicado o nosso amor para com Deus, para com Jesus. “Mater Dei, Mater Creatoris“; assim invocamos Maria nas ladainhas: dois títulos que parecem contraditórios nos seus termos e que, no entanto, exprimem uma grande realidade, porque Maria, sendo criatura, é verdadeiramente a Mãe do seu Criador, Mãe do Filho de Deus a quem deu um corpo humano, fruto das suas entranhas e do seu sangue. Nisto se vê ainda melhor como a dignidade de Maria toca o limiar do infinito: “Deus pode fazer um mundo maior, um céu mais vasto, mas não pode fazer uma pura criatura mais excelsa que Maria, pois que, ser Mãe de Deus é a máxima dignidade que pode ser concedida a uma simples criatura” (S. Boaventura).

A quem se admira de que o Evangelho diga tão pouco sobre Maria, S. Tomás de Vilanova responde: “Que procuras mais? Basta-te saber que é a Mãe de Deus. Foi suficiente dizer dEla: de qua natus est Jesus, dEla nasceu Jesus”. Sim, ó Maria, para me enamorar de vós, basta-me saber que sois a Mãe do meu Deus.

2 – Se bem que desde a eternidade Deus tenha predestinado Maria para ser Mãe do Seu Filho, não quis que o fosse inconscientemente, mas, chegada a hora de realizar o Seu plano, pediu o consentimento da humilde Virgem. A anunciação do Anjo revela a Maria a altíssima vocação que Deus lhe reserva: “Eis que conceberás no teu ventre e darás à luz um filho e pôr-lhe-ás o nome de Jesus” (Lc. 1, 31). Maria interroga, e o Anjo explica o mistério da maternidade divina que se operará nEla, sem lesar a sua virgindade. Que pode então fazer Maria senão aceitar? Não é a primeira vez que a sua vontade se perde na do Senhor; desde o princípio da sua existência Ela viveu no esta de perfeita união com Deus, cuja característica é exatamente a plena conformidade da vontade humana com a vontade divina. Por isso Maria, com todo o amor da sua alma, dá o seu consentimento, diz o seu fiat; aceita voluntariamente o convite e voluntariamente se abandona à ação de Deus. No mesmo instante o mistério realiza-se e a Virgem torna-se portadora de Deus, presente nEla não só espiritualmente – como em todas as almas em graça – mas também fisicamente. O Verbo de Deus, diz S. Pedro Damião, está presente em Maria “por identidade” de natureza, pois que é uma só coisa com Ela, como o filho é uma só coisa com a sua mãe. Identidade de natureza pela carne e pelo sangue, pela vida do corpo que Maria comunica ao Filho; identidade de graça pela superabundância de vida sobrenatural que o Filho comunica à Mãe; identidade de afetos, de desejos, de sentimentos que o coração de Cristo imprime no coração de Maria. Tão plenamente como a Virgem ninguém pode dizer: “Vivo, já não eu, é Cristo que vive em mim” (Gál. 2, 20).

Imenso, maravilhoso mistério! E no fundo deste mistério encontramos o sim de uma simples criatura humana! Deus criou o homem livre e por isso, embora desejando operar nele grandes coisas, não o quer fazer sem o seu consentimento. Deus quer transformar-nos, quer santificar-nos com a sua graça, mas, para o fazer, espera o nosso sim. Que ele seja pleno e total como o de Maria, e Deus realizará em nós a Sua obra.

Colóquio – “A Vós, Senhor Deus, rendo graças do mais íntimo do coração, porque por nós, tão indignos, Vos dignastes tomar a nossa natureza e, nascendo da Virgem, quisestes ser alimentado com leite, ser acolhido no seu regaço e estar-lhe sujeito, Vós que tudo conservais e regeis. E dignastes-Vos iluminar-me, a mim miserável, de modo que eu saiba que tendes uma Mãe, e me concedestes, indigníssima criatura, que eu possa e ouse saudá-la… Oh! com quanta devoção deveria o meu coração expandir-se diante de vós, Virgem Maria! A minha boca deveria estar cheia de uma admirável doçura quando vos saúdo, doce e benigna Senhora, e bendigo o fruto do vosso ventre. Oh! Como é possível que, ao saudar-vos, não me deleite tanto que chegue a esquecer todas as coisas por vós e pelo vosso Fruto? E que podeis ouvir com mais agrado do que a saudação na qual sois reconhecida como Mãe de Deus? Vós quereis que os homens se alegrem em vós para que o seu afeto se dirija para Aquele de quem sois Mãe, pois que não quereis outra coisa senão ser reconhecida e saudada como Mãe de Deus. Ave, portanto, ó Maria! Verdadeiramente Ave! Ó admirável Ave, pelo qual os demônios são postos em fuga, são libertados os pecadores, são regenerados os filhos; o Anjo congratula-se convosco, ó Virgem, o Verbo incarna no vosso seio e vós tornais-vos Mãe de Deus. A vós, pois, cante Ave sem fim toda a criatura… Com toda a reverência, honra e devoção devemos saudar-vos, ó bem-aventurada Virgem pois vós procurais quem se aproxima de vós com reverência e devoção. A estes amais, alimentais e tomais por filhos. Oh! feliz aquele que tem a alegria de vos ter por Mãe, que vos abraça coma feto, que vos imita nas obras! Oh! feliz aquele que faz todo o possível por se conformar convosco, Mãe de Deus! Este é certamente o que, desprezando toda a criatura, só a Deus se une com singular amor e, crucificado com Cristo, anseia pela salvação das almas” (cfr. S. Boaventura).

Intimidade Divina, Meditações Sobre a Vida Interior Para Todos os Dias do Ano, P. Gabriel de Sta M. Madalena O.C.D. 1952.

Este texto foi útil para você? Compartilhe!

Deixe um comentário