A misericórdia divina

Fazei-me compreender, Senhor, os segredos da Vossa misericórdia, para que possa aproveitar dela plenamente.

1 – O amor de Deus para conosco assume um caráter particularíssimo, adaptado à nossa natureza de criaturas frágeis e débeis: a misericórdia. A misericórdia é o amor que se inclina sobre a miséria para a aliviar, remir, elevar para si. Parece que Deus nos ama atraído pela nossa fraqueza, não porque ela seja amável, mas porque Ele, bondade infinita, tem compaixão dela e quer supri-la com a Sua misericórdia. Com a Sua perfeição infinita quer curar a nossa imperfeição, com a Sua pureza a nossa impureza, com a Sua sabedoria a nossa loucura, com a Sua bondade o nosso egoísmo, com a Sua fortaleza a nossa fragilidade. Deus, bem supremo e terno, quer ser o remédio para todos os nossos males “porque ele sabe bem de que fomos formados e lembra-se de que somos pó” (Sal. 102, 14).

E como o nosso maior mal – ou antes, o único verdadeiro mal – é o pecado, a misericórdia infinita quer ser também o remédio para este mal extremo. É certo que Deus odeia o pecado, mas enquanto que por esse motivo, é obrigado a retirar a Sua amizade, ou sejam a Sua graça, da alma do pecador, a Sua misericórdia sabe encontrar ainda maneira de continuar a amá-lo; efetivamente, se já não pode amá-lo como amigo, ama-o sempre como criatura, como obra das Suas mãos, ama-o pelo bem que ainda há nele e que dá esperança de conversão. A misericórdia de Deus é tão grande que nenhuma miséria, por profunda que sejam a pode esgotar e que nenhum pecado, nem sequer o mais ignominioso, desde que seja chorado, a pode deter. Uma única coisa tem este triste poder: a vontade soberba do homem que se encerra desdenhosamente na sua miséria, não querendo reconhecer a necessidade que tem da misericórdia infinita. Neste caso, se bem que seja imensa a misericórdia divina, cumprem-se as graves palavras do Evangelho: “Deus dissipa aqueles que se orgulham nos pensamentos do seu coração, depõe do trono os poderosos… e despede vazios os ricos” (cfr. Lc. 1, 51-53).

2 – A misericórdia de Deus não tem limites: nunca nos rejeita por causa dos pecados, nunca se cansa das nossas infidelidades, nunca nos recusa o perdão, mas está sempre pronta a esquecer qualquer ofensa, a apagar com a Sua graça as nossas ingratidões. Nunca nos lança em rosto as nossas faltas, nem mesmo quando recaímos subitamente depois de ter recebido o perdão; nem sequer se indigna pela nossa obstinação no mal e pela nossa inconstância no bem, mas sempre nos estende a mão, desejando socorrer-nos. Mesmo quando os homens nos condenam, Deus usa conosco de misericórdia, absolve-nos, despede-nos justificados, como Jesus despediu justificada a mulher adúltera: “Vai, e não peques mais” (Jo. 8, 11). Com o Seu exemplo e com as Suas palavras, Jesus mostrou-nos a inexaurível grandeza da misericórdia de Deus: pensemos no filho pródigo, na ovelha perdida, em Madalena, no bom ladrão. Mas Ele disse-nos também: “Sede misericordiosos com também vosso Pai é misericordioso” (Lc. 6, 36). Até onde chega a nossa misericórdia? Até que ponto sabemos compadecer-nos dos defeitos alheios? A medida da nossa misericórdia para com o próximo será a medida da misericórdia de Deus para conosco, porque Jesus disse: “Com a medida com que tiverdes medido, Vos medirão também a vós” (Mt. 7, 2).

Para derramar sobre nós a plenitude das suas misericórdias, Deus não exige que sejamos impecáveis, mas que sejamos misericordiosos para com os nossos irmãos e também que sejamos humildes. Com efeito, não basta ser miserável para atrair sobre si a divina misericórdia, é preciso reconhecer humildemente a própria miséria e voltar-se para Deus com plena confiança: “O que agrada a Jesus – dizia Teresa de Lisieux – é ver-me amar a minha pequenez e a minha pobreza, é a esperança cega que tenho na Sua misericórdia… Eis o meu tesouro” (Cart. 176). Este é o tesouro que supre todas as nossas misérias, fraquezas, recaídas, infidelidades, porque, mediante esta humildade e esta confiança, apoderamo-nos da misericórdia infinita. E tendo esta à nossa disposição, como poderemos desanimar por causa da nossa miséria?

Colóquio – “Bendiz, ó minha alma, o Senhor e não esqueças nenhum dos Sues benefícios. Não, não esquecerei que Vós perdoastes todas as minhas culpas, curastes todos os meus males, que me cumulastes de ternura e de favores, que saciais de bens os meus desejos.

“Vós sois misericordioso e compassivo, ó Senhor, paciente e cheio de bondade; não estais sempre a contender, nem guardais ressentimento para sempre. Não me tratastes segundo os meus pecados, nem me retribuístes segundo as minhas culpas; porque, quanto o céu está elevado acima da terra, tanto prevalece a Vossa misericórdia sobre os meus méritos. Como um pai se compadece dos seus filhos, assim, ó Senhor, Vos compadeceis dos que Vos temem, porque sabeis bem de que somos formados e lembrais-Vos de que somos pó. Tudo passa, mas a Vossa misericórdia, ó Deus, estende-se desde a eternidade e para sempre e exerce-se de geração em geração” (Sal. 102).

“Ó Senhor, desde que me foi dado compreender o amor do Vosso Coração, ele expulsou do meu coração todo o temor. A lembrança das minhas faltas humilha-me, leva-me a nunca me apoiar sobre a minha força que não é senão fraqueza; mas esta lembrança, ó Senhor, fala-me sobretudo da Vossa misericórdia e do Vosso amor. E como poderiam as minhas faltas não ser consumidas para sempre, se as laço com uma confiança toda fialia no braseiro devorador do Vosso amor?

“Ó Senhor, ainda que eu tivesse cometido todos os crimes possíveis, teria sempre a mesma confiança; estaria segura de que – tendo um sincero arrependimento – toda esta multidão de ofensas seria como uma gota de água lançada num braseiro ardente.

“Ó Jesus, porque não posso dizer a todas as almas quanto a Vossa condescendência é inefável? Sinto que se, por impossível, encontrásseis uma alma mais fraca, mais pequena do que a minha, Vos deliciaríeis a cumulá-la de favores ainda maiores, se ela se abandonasse com inteira confiança à Vossa misericórdia infinita” (T.M.J. Cart. 220; NV. 11-VII; M.B. pg. 241).

Intimidade Divina, Meditações Sobre a Vida Interior Para Todos os Dias do Ano, P. Gabriel de Sta M. Madalena O.C.D. 1952.

Este texto foi útil para você? Compartilhe!

Deixe um comentário