A pobreza voluntária

A POBREZA VOLUNTÁRIA

Dignai-Vos, Senhor, mostrar-me os tesouros escondidos na pobreza voluntária e os deveres que dela derivam.

1 – S. Tomás diz que, para chegar à perfeição da caridade, é necessário desapegar o mais possível o coração das coisas do mundo, a fim de concentrar em Deus todos os nossos afetos. “Assim, quem possui as coisas temporais é atraído a amá-las pelo fato de as possuir… Eis porque o primeiro requisito para adquirir a caridade perfeita é a pobreza voluntária, quer dizer, viver sem possuir nada como próprio, segundo o que o Mestre diz em S. Mateus: ‘Se queres ser perfeito vai, vende o que tens, dá-os aos pobres, vem e segue-me’” (IIª IIª q. 186, a. 3).

Isso excita-se de modo particular na vida religiosa pelo voto de pobreza. Mas as almas consagradas a Deus que vivem no mundo, se querem tender à perfeição, devem  também abraçar a pobreza voluntária. A Igreja impõe-na como obrigação a todos os Institutos seculares; visto que o estado de perfeição requer um sério compromisso de pobreza, os membros de tais Institutos devem emitir “um voto ou promessa de pobreza, pela qual não podem usar livremente dos bens temporais” (Const. Apost. Provida Mater Ecclesia). A essência da pobreza voluntária consiste exatamente nesta renúncia ao uso livre e independente dos bens temporais. Com efeito, só quem renuncia a usar livremente dos bens terrenos pode, como diz S. Tomás, viver “sem possuir nada como próprio”, e deste modo alcançar a liberdade necessária para seguir a Jesus no caminho da perfeição.

2 – Se fizeste profissão de pobreza voluntária, reflete que perdeste a liberdade de usar a teu gosto das coisas temporais. Mesmo que as Regras do teu Instituto permitam possuir determinados bens, não podes usar deles como dono: o voto de pobreza tirou-te esse poder. Por teu arbítrio não podes, portanto, dispor de nada, nem sequer das coisas necessárias à vida, mas deves em tudo regular-te pelas normas das tuas Constituições e depender dos teus superiores.

Nem todas as regras das várias Ordens, Institutos religiosos ou Institutos seculares são igualmente severas acerca do uso dos bens temporais: algumas, muito rigorosas, proíbem o uso livre até das coisas mais pequenas de valor apreciável: outras, não tão severas, dão mais liberdade. Mas se queres praticar o teu voto com perfeição, adota a regra de não usar nem dispor nunca de nada com espírito de propriedade. Quanto mais souberes viver realmente como se nada possuísses, nem sequer um livro, um vestido, ou um pedaço de pão, mais te assemelharás a Jesus e mais livre te sentirás para O seguir até seres admitido entre os Seus íntimos.

Outra consequência que deriva do voto ou da promessa de pobreza voluntária, é a de abraçar espontaneamente, por amor de Deus, condições de vida semelhantes à dos verdadeiros pobres. O pobre vê-se obrigado a prescindir das comodidades, deve poupar, tem de trabalhar para viver. Tu, por exercício de virtude, deves renunciar espontaneamente e de boa vontade ao supérfluo e às comodidades, não deves desperdiçar nada, e deves além disso sujeitar-te a uma vida de trabalho contínuo. E isto não por puro exercício de virtude. Se, pois, alguma vez te vier a faltar alguma coisa necessária, dá graças a Deus que assim te oferece uma bela ocasião de viveres como verdadeiro pobre.

Colóquio – Ó Senhor, como são grandes os tesouros encerrados na santa pobreza!

“A pobreza é um bem que encerra em si todos os bens do mundo; é grande senhorio. É assenhorearmo-nos outra vez de todos os bens do mundo porque nada se nos dá deles. Que se me dá a mim dos reis e senhores, se não quero as suas riquezas, se para os contentar posso vir a descontentar-Vos nalguma coisa, ó meu Deus? E que se me dá das suas honras, se tenho entendido que, para um pobre, o ser muito honrado está em ser verdadeiramente pobre?… A verdadeira pobreza, aquela que é abraçada por Vosso amor. Ó Senhor, traz consigo uma honra que não há quem lhe resista, porque não cuida senão de Vos contentar a Vós” (T.J. Cam. 2, 5 e 6).

Bendito sejais, senhor, por me terdes concedido abraçar a santa pobreza que me livre de todo o cuidado material e me liberta de toda a escravidão terrena! Desta maneira poderei eu, miserável criatura, ter a grande honra de só a Vós servir, Rei do céu e da terra.

Fazei, Senhor, que guarde intactos os doces laços da santa pobreza, que me arrancam da terra para me ligar a Vós. Fazei que, segundo os compromissos abraçados na minha profissão, a pobreza seja realmente “o escudo da minha bandeira que de todas as maneiras quero guardar: na casa, no vestido, nas palavras e muito mais no pensamento” (ib. 8). Sim, também no pensamento, para que os meus desejos não voltem, nem por um instante ao que deixei por Vosso amor.

Compreendo e confesso, meu Deus, que todas as vezes que me queixei de alguma privação ou incômodo, que lamentei não ser melhor tratado, que desejei uma vida mais cômoda, todas as vezes que fui exigente, me afastei do ideal e da prática efetiva da pobreza voluntária. E assim me afastei também de Vós e voltei à escravidão das coisas materiais. Que loucura, Senhor, dividir o coração entre Vós, riqueza infinita, e as miseráveis nulidades das coisas terrenas!

Intimidade Divina, Meditações Sobre a Vida Interior Para Todos os Dias do Ano, P. Gabriel de Sta M. Madalena O.C.D. 1952.

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