A presença real

“Adoro-Vos devotamente, ó Deus oculto sob as espécies eucarísticas. O meu coração abandona-se todo a Vós porque, ao contemplar-Vos, desfalece” (Cfr. Adoro Te devote).

1 – “Verbum caro factum est” (Jo. 1, 14): A Incarnação do Verbo, o inefável mistério do amor misericordioso de Deus que amou o homem até Se fazer “carne” para sua Salvação, é, de certo modo, continuado e amplificado através dos séculos por meio da Eucaristia, que será até ao fim dos tempos, o sacramento pelo qual o Verbo Incarnado Se torna para nós “alimento”. Deus não Se contentou com nos ter dado, de uma vez para sempre, o Seu Unigênito, querendo que Ele tomasse carne no seio da uma Virgem, carne semelhante à nossa, a fim de que pudesse sofrer e morrer por nós sobre a cruz, mas quis que ficasse para sempre conosco perpetuando na Eucaristia a Sua presença real, o Seu sacrifício. Através da narrativa dos Evangelistas, podemos reconstituir e reviver no nosso coração, os doces mistérios da vida de Jesus; mas, se possuíssemos somente o Evangelho, teríamos de nos limitar a recordações cheias de nostalgia: Jesus não estaria já conosco, mas só no céu À direita do Pai, depois de ter deixado definitivamente a terra no dia da Ascenção. Com que saudade volveríamos o olhar para os trinta e três anos de vida terrena do Salvador decorridos há séculos. Porém, não é assim. A Eucaristia torna permanente no meio de nós a presença de Jesus. Na hóstia consagrada encontramos aquele Jesus que Maria deu à luz; que os pastores encontraram envolto em pobre panos, reclinado num presépio; que Maria e José alimentaram, guardaram e viram crescer sob o seu olhar; aquele Jesus que chamou a Si os Apóstolos, que fascinava e instruía as turbas; que realizava os milagres mais estrondosos, Se declarou a “luz” e a “vida” do mundo, perdoou a Madalena, ressuscitou Lázaro; que, por nosso amor, suou Sangue, aceitou o beijo traidor, foi reduzido a uma chaga, morreu na cruz. Aquele Jesus que, depois de ressuscitado apareceu aos Apóstolos e em cujas chagas Tomé meteu o dedo, que subiu ao céu e agora está sentado glorioso à direita do Pai e que, juntamente com o Pai, nos envia o Espírito Santo. Ó Jesus, Vós estais sempre conosco! Sois sempre o mesmo, “ontem e hoje e por todos os séculos” (Hebr. 13, 8). Permaneceis sempre o mesmo na eternidade pela imutabilidade da Vossa Pessoa divina e no tempo pelo Sacramento eucarístico.

2 – Jesus está presente na Eucaristia com toda a Sua divindade e com toda a Sua humanidade. Também a humanidade, ainda que presente “per modum substantiae” – ou seja, a modo de substância e não corporalmente extensa – está toda inteira na hóstia consagrada: Corpo e Alma e esta última com as suas faculdades de inteligência e vontade. Por isso Jesus, na Eucaristia, conhece-nos e ama-nos como Deus e como homem; não é um objeto passivo da nossa adoração, mas está vivo: vê-nos, ouve-nos, responde às nossas preces com as Suas graças de modo que podemos ter com o doce Mestre de que fala o Evangelho, relações vivas, concretas e, embora não sensíveis, semelhantes Às que tinham com Ele os Sues contemporâneos. É verdade que na Eucaristia está velada não só a divindade, mas também a humanidade: contudo, a fé substitui vantajosamente os sentidos, substitui o que não vemos nem apalpamos. Sola fides sufficit, “para convencer um coração sincero – canta S. Tomás – basta só a fé” (Pange lingua). Como Jesus outrora, oculto sob a figura de peregrino, instruía e afervorava o coração dos discípulos de Emaús, assim hoje, oculto sob as espécies eucarísticas, ilumina as nossas almas, inflama-as com o Seu amor e dirige-as para o bem com uma eficácia cada vez maior.

Jesus está ali, na Hóstia consagrada, está ali como verdadeiro Deus e verdadeiro homem e, como por nós incarnou, também por nós Se ocultou sob as sagradas espécies; ali nos espera, nos deseja, sempre pronto para nos acolher e ouvir. E nós precisamos tanto dEle! É certo que Deus, Espírito puríssimo, está presente em toda a parte, mais ainda, Ele — uno e trino – digna-Se habitar na nossa alma vivificada pela graça; todavia temos sempre necessidade de nos encontrarmos com Jesus, o Verbo feito carne, o Deus feito homem, o nosso Mediador, o nosso Salvador, o nosso Irmão, e encontramo-lO precisamente na Eucaristia. Nunca estamos tão perto dEle como quando nos achamos junto do Santíssimo Sacramento do altar.

Colóquio – “Ó Senhor, riqueza dos pobres, como sabeis admiravelmente sustentar as almas! Em lugar de descobrirdes os Vossos tesouros de uma só vez, pouco a pouco os ides mostrando, para que eu, ao ver uma Majestade tão grande, escondida em tão pouca coisa como é uma hóstia, não possa deixar de admirar a Vossa tão grande sabedoria.

“Ó Senhor meu, se não encobrísseis assim a Vossa grandeza, quem ousaria unir tantas vezes com a Vossa Majestade, uma alma tão suja e miserável? Bendito sejais, Senhor! Louvem-Vos os anjos e todas as criaturas pois que assim acomodais as coisas à nossa fraqueza para que, gozando de tão soberanas mercês, não nos espante o Vosso grande poder. Como fracos e miseráveis que somos, se Vós não tivésseis recorrido a este meio, não teríamos ousado gozá-las.

“Como poderia eu, Senhor, pobre pecadora que tanto Vos ofendeu ter a ousadia de estar tão perto de Vós, se visse toda a Vossa Majestade? Sob os acidentes do pão, ao contrário, estais muito mais acessível; do mesmo modo que, quando um rei se disfarça, nada se nos daria de conversar com ele sem tantas atenções e respeitos. Se Vós, ó Senhor, não Vos tivésseis assim disfarçado, quem de nós ousaria chegar-se a Vós com tanta tibieza, tão indignamente, com tantas imperfeições?

“De resto, não posso duvidar, de forma alguma, da Vossa presença real na Eucaristia. Destes-me uma fé tão viva que quando ouço algumas pessoas dizer que quereriam ter vivido no tempo em que Vós andáveis no mundo, rio-me comigo mesma, parecendo-me que, tendo-Vos no Santíssimo Sacramento, nada mais deveriam desejar!” (T. J. Vi. 38, 20 e 19; cfr. Cam. 34, 9 e 6).

Intimidade Divina, Meditações Sobre a Vida Interior Para Todos os Dias do Ano, P. Gabriel de Sta M. Madalena O.C.D. 1952.

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