A Religião Católica, em vez de falar tanto da outra vida, devia antes ocupar-se desta, e nela destruir a miséria?

RESPOSTA – A Religião fala muito da outra vida porque a outra vida, sendo eterna, é de imensa importância, e por conseguinte merece que dela se ocupe de preferência. E, com efeito, é lá que para sempre se decide a grande questão da ventura ou da desgraça; nós, sobre a terra, não fazemos mais que prepara esta solução.

Se, porém, a Religião fala muito da vida eterna, nem por isso deixa de atender à vida transitória. Todos os interesses do homem lhe são presentes: a sua alma, o seu corpo, a sua vida passageira, a sua vida futura e imutável; ela nada esquece.

Se não destrói inteiramente a miséria, é porque a miséria NÃO PODE ser destruída; – e a miséria não pode ser destruída, porque as causas que a produzem não podem ser suprimidas.

A primeira é a desigualdade das forças físicas, das saúdes, dos talentos, da inteligência, da atividade entre os homens. Se, em virtude de qualquer acidente, ou simplesmente pelo fato da velhice, eu vier a perder a força necessária para desempenhar o meu ofício, não cairei na miséria? – Se, a despeito de meus esforços, eu for de tal modo inepto, que trabalhe muito pior que os meus colegas, não irão os meus fregueses de preferência aos artistas mais hábeis; e não cairei eu na miséria? – E todavia, que nos pode preservar da doença, de qualquer acidente, e da velhice? Quem pode dar inteligência Àquele que a não tem? Quem pode tornar todos os homens iguais em forças, em engenho, em boa vontade?… Eis aqui pois uma causa bem fecunda da miséria, e que é impossível, mesmo à Religião destruir.

A segunda causa da miséria, não menos profunda que a primeira, são os vícios da nossa própria natureza corrompida pelo pecado: a preguiça, a vingança, o orgulho, etc. Quantos desgraçados há entre os pobres, que o são por sua própria culpa? Dezenove em cada vinte. Estes acusam a Deus do seu mal, quando só deveriam queixar-se de si mesmos. os pobres bons encontram prontamente socorro; Deus e os amigos de Deus jamais os abandonam!

A pobreza é, bem como a doença e a morte, a punição do pecado. É impossível destruí-la, porque é impossível destruir o pecado original, que é um fato consumado, e tornar o homem impecável. – Mas o que é possível, e que a Religião admiravelmente faz, é diminuir a miséria, aliviá-la, adoçá-la, a torná-la suportável e, enfim, santificá-la.

Ela industria-se a curá-lo, mesmo a evitar-lhe todas as dores, por meio dessas mil instituições de caridade, mediante esses hospícios de todo o gênero, que cobrem o mundo cristão.

Em toda a parte, em que a sua voz é atendida, o rico converte-se em amigo, irmão, e às vezes servo do pobre. Este deposita de boa vontade o seu supérfluo nas mãos dos desgraçados. o pobre, por seu turno, aprende a ter esperança; aprende, na escola de Jesus Cristo, a sofrer com paciência, e algumas vezes até a amar os seus próprios padecimentos, os quais conhece serem destinados, nos desígnios adoráveis de seu Pai celeste, a experimentar a sua fidelidade, a purificá-lo das suas faltas, a torná-lo mais semelhante ao seu Salvador, pobre e crucificado, e a fazer-lhe acumular inefáveis tesouros de ventura na pátria eterna!… Quantos bons pobres não tenho eu visto agradecerem a Deus suas desditas, e alegrarem-se no meio de suas privações?

A Religião faz portanto o que deve, ocupando-se de nós nesta vida, e ocupando-se ainda mais em relação à nossa vida futura.

Ninguém pode justamente queixar-se dela. Sejam os ricos bons cristãos, e para logo serão caridosos; sejam os pobres bons cristãos, e para logo serão pacientes: nisto é que se cifra todo o mistério.

Perguntas e Respostas Concisas e Familiares às Objeções Mais Vulgares Contra a Religião, Monsenhor de Ségur, 1946.

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