As humilhações

AS HUMILHAÇÕES

Ó Jesus que Vos humilhastes por mim até à abjeção, ensinai-me a humilhar-me por Vosso amor.

1 – São muitos os que querem ser humildes, mas a poucos agrada serem humilhados; muitos pedem a Deus, com fervorosas orações, a humilde, mas bem poucos pedem a humilhação, e no entanto sem humilhação é impossível conseguir a humildade, porque assim como o estudo é o meio para adquirir a ciência, a humilhação é o meio para adquirir a humildade.

Enquanto desejares a humildade sem saberes aceitar as humilhações, não podes pensar que estás no caminho da verdadeira humildade; mesmo que sejas capaz de te portares humildemente em certas ocasiões, no fundo será mais uma humildade superficial e aparente do que real e profunda. A humildade é a verdade; portanto convence-te de que, não tendo de teu senão o pecado, por direito de justiça apenas te pertence a humilhação e o desprezo. Se realmente estivesses convencido disto, acharias muito justo que todos te humilhassem, te maltratassem, te desprezassem. E de fato que honra e atenções merece quem ofendeu o seu Criador, se um só pecado, embora venial, é mais deplorável e merece maior desprezo do que a maior miséria humana?

Profundamente persuadidos disto, os santos nunca achavam duras demais as humilhações que padeciam, mas sempre as achavam muito inferiores às que verdadeiramente julgavam merecer. “nunca ouvi dizer mal de mim – dizia Sta Teresa de Jesus – que não visse que ficavam aquém; porque ainda que não fosse nas mesmas coisas, tinha ofendido a Deus em muitas outras e parecia-me que tinham feito muito em deixar aquelas” (Cam. 15, 3).

“Tem, pois, paciência nas tuas humilhações, porque como com o fogo se prova o ouro, assim se prova o homem no crisol da humilhação” (cfr. Ecli. 2, 4 e 5). Se sentes o peso da tua soberba e desejas sinceramente livrar-te dele, aceita em paz as humilhações e por meio delas o Senhor esmagará o teu orgulho.

2 – Em vez de procurares humilhações por iniciativa própria, dispõe-te a aceitar bem as que te são impostas contra o teu gosto. Porque nas humilhações impostas por ti mesmo, facilmente se pode mesclar um orgulho sutil, como seria, por exemplo, o de querer ser tido por humilde. Tal perigo não existe nas humilhações que, contra a tua vontade, te vêm dos outros. Também neste caso é necessário aceitar voluntariamente a humilhação a fim de produzir o seu fruto. Com efeito, não é a humilhação em si mesma que te faz humilde, mas o ato de vontade com que a aceitas. Diz S. Bernardo que há muita diferença entre ser humilhado e ser humilde. Pode-se afirmar que todos, de um ou outro modo, encontram humilhações na vida, porém poucos são os que se tornam humildes, precisamente porque são poucos os que aceitam a humilhação e se lhe submetem com paciência.

De que te serve receber humilhações, se em lugar de as aceitar, reages contra elas, repelindo-as com ressentimento e com despeito, e te irritas contra quem te as proporciona?

A humilhação não pode ser agradável à nossa natureza orgulhosa e suscetível e, todavia, apesar de sentires o seu amargor, deves esforçar-te por aceitá-la de boa vontade, repetindo no teu coração: foi bom para mim, Senhor, teres-me humilhado. Se, não obstante todas as repugnâncias e ressentimentos da tua natureza, te sujeitas à humilhação por um ato de vontade e protestas a Deus que queres estar contente e saboreá-la até ao fundo, chegarás pouco a pouco a ser humilde. O pão duro e amargo das humilhações tornar-se-á doce e suave, mas só se alcança esta suavidade depois de um longo exercício. De resto, o que importa não é a suavidade, mas sim a vontade de aceitar tudo quanto nos humilha. “Deixa-te ensinar, deixa-te mandar, deixa-te sujeitar e desprezar e serás perfeito” (J.C. AM. II, 33).

Colóquio – “Ó Senhor, que injúria se poderá fazer a uma pessoa como eu que mereci ser atormentada pelo demônio por toda a eternidade? Se me tratam mal neste mundo, não é porventura com justiça? Verdadeiramente, ó Senhor, destas pequenezas nada tenho a oferecer-Vos… Reconheço-me tão culpada diante de Vós, que vejo que me tratam ainda bem demais aqueles que me injuriam, quando por não conhecerem quem sou, como Vós me conheceis, julgam ofender-me” (cfr. T.J. Cam. 36, 2).

Meu Deus, é bem verdade que eu, pecador, só tenho direito à humilhação, à injúria, ao desprezo e, todavia, como sou renitente e exageradamente sensível a tudo quanto fere o meu orgulho! Vós sabeis, ó meu Deus, como desejo ser despojado da minha soberba; sim, posso dizer que, com a ajuda da Vossa graça, a detesto e nada em mim me parece mais odioso. Contudo ainda não sei aceitar o remédio que Vós me ofereceis. Como terei a coragem, Senhor, de Vos pedir humilhações, quando tantas vezes as rejeitei, transformando este remédio em ocasiões de novos atos de orgulho?

Quantas vezes, em lugar de ver nas humilhações um remédio oferecido por Vós para curar a minha soberba, o meu olhar se deteve nas criaturas de que Vos servistes para me humilhar e me irritei contra elas, indignando-me e revoltando-me como se se tratasse duma injustiça! Como sou cego, Senhor, como estou longe dos Vossos caminhos! Vinde encher de luz a minha alam, vinde introduzir-me na verdade, vinde reconduzir-me ao bom e seguro caminho das humilhações.

Não Vos peço humilhações especiais, mas pelo-Vos que disponhais o meu coração para aceitar bem aquelas que no Vosso amor e na Vossa misericórdia infinita, desde toda a eternidade pusestes no meu caminho. Preparastes o remédio apropriado à minha soberba; se até hoje tantas vezes recusei aproximá-lo dos lábios, ajudai-me agora a não deixar escapar a mínima gota. Estou doente, Senhor, e como o doente deseja o remédio que o cura e o toma ainda que seja amargo, assim eu, amparado pela Vossa graça, quero aceitar, quero sorver até à última gota cada humilhação. Mas ajudai-me Vós, ó dulcíssimo Jesus que quisestes conhecer a humilhação, pois sem Vós não sei senão aos meus propósitos.

Intimidade Divina, Meditações Sobre a Vida Interior Para Todos os Dias do Ano, P. Gabriel de Sta M. Madalena O.C.D. 1952.

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