As paixões

As Paixões

Não te deixes levar da concupiscência, e refreia os desejos da tua vontade. Ecl. XVIII, 30.

Assim como a vontade dirigida pela razão procura o bem e evita o mal, assim o apetite sensitivo, isto é, as paixões dirigidas pela fantasia; aspiram ao bem sensível, e fogem do mal sensível.

O amor, o desejo, a alegria, o ódio, a aversão, a tristeza, a cólera, o valor, o medo, a esperança e o desespero são manifestações do apetite sensitivo nos seus diferentes graus.

As paixões, quando dirigidas e moderadas pela razão, não são más em si; pelo contrário, podem muitas vezes servir-nos como poderosos auxiliares do livre arbítrio, tornando-o capaz das mais difíceis empresas.

Assim acontecia no feliz estado da inocência, em que no coração dos nossos primeiros pais reinava uma harmonia celestial, porque todas as suas faculdades estavam sujeitas ao império da razão.

Mas em consequência do pecado, esta ordem transtornou-se e as paixões revoltaram-se. Em castigo da desobediência, o homem perdeu o domínio sobre a sua natureza sensitiva, e desde então as faculdades inferiores, já rebeldes, são um perigo permanente e um estímulo muito poderoso ao pecado.

As paixões estão ao serviço do mundo e do demônio, como suas aliadas; e se tiverem por companheira uma educação mal orientada, más companhias e circunstâncias funestas que as favoreçam e lhes dêem força, não há mal a que não sejam capazes de impelir o homem.

Na verdade, um jugo muito pesado carrega sobre os filhos de Adão desde o primeiro dia do seu nascimento até ao da sepultura, no qual voltam de novo ao seio da mãe comum de todos (1).

A corrupção do corpo pesa sobre a alma (2). Sinto nos seus membros uma lei que repugna à lei do espírito (3), diz o Apóstolo.

O nosso trabalho nesta vida deve ser refrear as paixões. Devemos procurar submetê-las à vontade racional, afim de que não nos levem a fazer alguma coisa ilícita, nem a passar do justo limite nas lícitas. Tal é o nosso combate sobre a terra (4).

A sua necessidade é evidente. Ainda que o homem tivesse só uma paixão, seria mister vigiar e lutar contra ela. Com quanta maior razão nos devemos pois acautelar, havendo tantas que se disputam como feras a presa da nossa alma!

O homem que não sabe refrear as suas paixões, não é homem.

Quando elas não estão sujeitas á razão, não há paz no coração, nem tranquilidade e equilíbrio na alma.

O homem que não sabe dominar as paixões, não pode ser semelhante a Deus, nem conhecer as coisas elevadas (5), nem ter uma vontade fecunda em boas obras.

Por isso diz expressamente o Altíssimo: Não te deixes arrastar pela concupiscência e refreia os desejos da vontade (6).

Quem não tem ódio à própria alma não pode ser meu discípulo (7).

E havemos de travar este combate contra todas as paixões em geral, e contra cada uma em particular.

Cada uma delas é como uma faísca: se não for vigiada atentamente pode transformar num montão de cinzas os mais esplêndidos palácios, e em desertos as cidades mais florescentes.

Cada uma delas é semelhante a uma bola de neve, que, desprendendo-se da montanha, engrossa e aumenta de volume á medida que vai avançando, para deixar sepultados debaixo do seu peso homens e animais.

E este combate há de durar a vida inteira.

Enquanto vivo sobre a terra tenho dentro de mim o gérmen do mal, que deve ser vigiado, sufocado e extinto.

Mas é sobretudo no tempo da juventude que esta luta se torna mais necessária e de mais graves consequências: é então que se excitam mais as paixões, e que o encanto da novidade, a viveza da imaginação, a inexperiência e a fraqueza as tornam extremamente perigosas.

Arma-te pois, jovem cristã, para o combate.

A tua alma vive rodeada de inimigos (8), que andam rugindo em volta de ti como touros furiosos, com leões vorazes, com as fauces hiantes para te devorarem (9).

Começa sem demora e com denodo a luta, porque o combate é decisivo.

A casa do teu coração ainda te pertence: não deixes que o inimigo se aposse dela.

O combate agora é fácil; mais fácil do que quando as paixões se tiverem fortificado e convertido pelo costume numa segunda natureza.

Senão, dize-me: O que é que se desenraiza mais facilmente: a tenra planta ou a árvore robusta? O que é que se extingue com mais facilidade: a faísca, ou o grande incêndio?

A Virgem Prudente, Pensamentos e Conselhos acomodados às Jovens Cristãs, por A. De Doss, S.J. versão de A. Cardoso, 1933.

(1) Ecl. XI., 1.
(2) Sab. IX, 15.
(3) Rom. VII, 23.
(4) Job VIII, 1.
(5) Cor, II, 14.
(6) Ecl. XVIII< 30.
(7) Luc. XIV, 26.
(8) Salm. XVI, 9.
(9) Salm. XXI, 13-14.

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