Catecismo do Matrimônio (Parte 2) – Capítulo 1: Exame preliminar do casamento

EXAME PRELIMINAR DO CASAMENTO

P. – Antes de alguém se casar, que é que deve fazer?

R. – Antes de mais nada, saber se realmente lhe convém o estado de casado.

P. – É muito necessário esse exame?

R. – Sim, aliás arrisca-se a enganar-se sobre o caminho a seguir, com grande prejuízo para a sua alma.

P. – É bem verdade que todo o homem tem um destino a cumprir neste mundo?

R. – Sim. Deus, depois de o ter criado, vela pelo homem por meio da sua Providencia, e, com esse título, reserva-se o direito de orientar a vida da sua criatura. Por seu lado, o homem tem o dever de procurar saber, orando, qual seja essa orientação.

P. – Compreendo a necessidade de semelhante exame quando se trate de abraçar o estado religioso, que impõe grandes sacrifícios. Mas será ele também preciso para o estado de casado, que tanto agrada á natureza?

R. – Sim. Impõe-se semelhante reflexão antes de se aceitar o matrimônio, porque o laço que vai contrair-se é um laço indissolúvel, e o compromisso a tomar é um compromisso irrevogável. De resto, não é verdade que tudo satisfaça à natureza no matrimônio. As separações, e os divórcios que se multiplicam constantemente falam bem alto dos atributos, das decepções, dos choques das misérias e torturas dessa existência de dois seres, quando se entra nela imprudentemente e sem vocação, sem aptidões para a vida de família, e não se possuindo as qualidades requeridas para se criar um lar como Deus o quer.

José de Maistre disse: “Se os homens fizessem o seu noviciado antes de casarem… a metade deles não professaria.”

Façamos, pois, em vez dum noviciado, um exame sério antes de nos decidirmos.

P. – Como deve fazer-se esse exame?

R. – Na oração, sob o olhar de Deus e perante a nossa eternidade feliz ou desgraçada, conforme esse exame for sério ou superficial.

P. – Visto ser tão importante esse exame, não deveriam recolher-se a um retiro, durante alguns dias, aqueles que têm de fazê-lo?

R. – Sim, esse retiro é de aconselhar a todos os que, por ocupações absorventes, não estejam impedidos de fazê-lo.

P. – Que farão eles nesse retiro?

R. – Um estudo e uma promessa.

P. – Em que consiste esse estudo?

R. – O jovem e a donzela pedirão a Deus, nesses dias de recolhimento, que lhes dê a conhecer qual o estado que devem abraçar; perguntarão a eles próprios se Deus os escolheu para a vida comum, par ao casamento, se, por um benefício absolutamente gratuito, os convida a entrar no caminho mais glorioso do sacerdócio, da vida religiosa.

Durante esses dias da graça, o jovem e a donzela pesarão os prós e os contras desses dois gêneros de vida que se lhes oferecem. Antes de tomarem um partido, considerarão alternadamente a virgindade, com as suas glórias e sacrifícios, e o casamento, com a sua grandeza e os seus encargos, não esquecendo as suas tribulações que S. Paulo prediz aos casados.

P. – Reconhecendo nesse retiro, pela prece e reflexão, que os atrai o casamento, qual é a promessa que o jovem e a donzela devem fazer a Deus?

R. – A promessa solene de serem fiéis às obrigações do estado que vão abraçar. Devem tomar a resolução enérgica de aceitar os encargos do matrimônio, por pesados que sejam, de cumprir os seus deveres, ainda que heróicos por vezes, e sofrer pacientemente as tribulações, sem recorrer jamais ao divórcio, proibido pela Igreja e por Deus.

P. – Resolvendo-se pelo casamento, e estando firmemente decididos a cumprir as suas obrigações, que farão os jovens?

R. – À luz dos princípios que vamos indicar no capítulo seguinte, farão a escolha do companheiro ou companheira da sua vida.

EXTRATO

Uma página que faz refletir. – O casamento é um compromisso sagrado: “Isto mesmo, diz Bourdaloue, é que o tornar uma servidão; liga-vos a um outro, e não a vós; esse vosso compromisso é perpétuo; mas se este marido não agrada a esta mulher, se esta mulher não agrada a este marido, nem por isso estão menos ligados uma ao outro, e que suplício não será essa união!

Há um noviciado e um tempo de provas para o estado religioso; não o há para o estado do matrimônio. Tomais um compromisso, mas não sabeis com quem, pois não conheceis o espírito, a índole, as qualidades da pessoa com quem ides fazer uma aliança tão íntima, que, uma vez dada a vossa palavra, não mais a podereis reaver.

De tais consequências se afigurou esse compromisso aos próprios apóstolos, que, só por esse fato, concluíram eles ser preferível a permanência no celibato.

E que lhes respondeu o Filho de Deus? Condenou Ele esse sentimento, tão pouco favorável ao matrimônio? Confirmou-o, aprovou-o, e felicitou-o por haverem compreendido o que tantos outros não compreendem.

Houvera apenas diversidade de gênios: que provação e que cruz! Que motivo de mortificação! De tantos casamentos que se contraem todos os dias, em quantos se vê a simpatia dos corações? Mas, se, pelo contrário; existir a antipatia, haverá porventura martírio mais cruel? O que há de mais deplorável, é que estes desgostos domésticos afastem de Deus. Quantas animosidades e questões! Vive-se nestas disposições até á morte, e passa-se, diz S. Bernardo, do inferno do casamento ao verdadeiro inferno dos demônios.” (BOURDALOUE, Sermão do II Domingo depois da Epifania, sobre o Estado do matrimônio, 2ª parte.).

Catecismo do Matrimônio por P. Joseph Hoppenot, S. J., Obra aprovada por 48 cardeais, arcebispos e bispos de França e Bélgica, 1928.

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