Como devemos ler a Bíblia

Há um livro que nos revela a presença de Jesus Cristo na história; um livro inspirado por Deus, que até “ao espírito cético e agudo de Henrique Heine, como observa João Rosadi, pareceu o livro mais digno de leitura; um livro grande e vasto como o mundo, com as raízes nos abismos da Criação, e a copa nos segredos azuis do céu; aurora e ocaso, promessa e seu cumprimento, nascimento e morte, todo o drama da humanidade acha-se neste livro, que é o livro dos livros”: a Bíblia.

Não é este o lugar para catalogar toda a enorme e vastíssima literatura dedicada à explicação, ao comentário e à discussão da Sagrada Escritura. Só lembramos que a Bíblia em suas duas partes – o Antigo e o Novo Testamento – tem Deus por autor, tendo sido escrita sob a inspiração do Espírito Santo.

Sumário

  1. A Inspiração
  2. A leitura da Bíblia
  3. Os protestantes e a Bíblia
  4. O sobrenatural e a Bíblia
  5. Métodos errados ou incompletos
  6. Recapitulação

1. A inspiração

A inspiração consiste nisto: os escritores humanos, denominados hagiógrafos, contribuíram de fato para escrever os diversos livros (tanto assim que se fala do Pentateuco de Moisés, das Profecias de Isaías, dos Salmos de Davi, do Evangelho de São João), mas cooperaram só como instrumentos nas mãos de Deus. Atenágoras os compara à cítara que difunde harmonias tocada pela mão do artista. Clemente Romano os assemelha ao embaixador que fala em nome do Rei. São Jerônimo os iguala à pena que escreve movida pelo autor. Deus é a causa principal dos livros sagrados. Os hagiógrafos são a causa secundária. São “movidos e agitados” por Deus, como se expressa o apóstolo São Pedro. Monsenhor José Nogara, em suas “Noções Bíblicas”, ao resumir admira­velmente o que dissemos sobre este assunto, diz que nos escritores sagrados a ação divina compreende três coisas:

a) Antes de tudo, o influxo de Deus sôbre a inteligência do hagiógrafo, para que conceba com retidão a verdade a ensinar;

b) um influxo sôbre a vontade, para que queira escrever fielmente;

c) uma assistência especial para que convenientemente exprima com infalível veracidade o que Deus quer.

Jesus convidava os Judeus a aprofundar as Escrituras, apelava para elas como para o testemunho de Deus em seu favor, e asseverava que “a Escritura não pode ser anulada”, e que, ao invés, devia se cumprir tudo o que sôbre Ele estava escrito na lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos”. “Enquanto não passarem o céu e a terra, não cairá um “i” nem um ápice sequer da Escritura”. São Paulo escrevia a Timóteo que “toda a Escritura é inspirada por Deus e é útil para ensinar, para refutar os erros, para corrigir os costumes e instruir na santidade”. São Pedro recomenda que se lhe preste “atenção, como a uma lâmpada que brilha em lugar escuro, até que desponte o dia, e a estrela da manhã nasça em nossos corações”, pois “aqueles santos homens de Deus falaram inspirados pelo Espírito Santo”.

Infelizmente são muitos os que não usam esta lâmpada, e a colocam debaixo do alqueire. Outros abusam dela com leviandade e usam mal do seu conteúdo. O dever de ler a Bíblia, o modo de a ler, são dois pontos que merecem ser estudados. Todos devemos recorrer a este facho que ilumina, aceso pela bondade de Deus, e transmitido através dos séculos, de uma a outra geração, para que nos conforte e nos indique o caminho da salvação.

2. A leitura da Bíblia

A Bíblia, proclama São Gregório, é a carta que Deus envia à sua criatura. É preciso ler, pois, esta carta divina, na qual, no dizer de Santo Ambrósio, encontramos nossas vitórias e nossas alegrias.

Coisa estranha! Devoram-se àvidamente as coisas antigas, lançam-se olhares apaixonados aos grandes monumentos da literatura e da história. Basta a notícia da descoberta de algumas Décadas de Tito Lívio para que se alvoroce, não só o mundo dos doutores, mas até os jornais. O delírio de alegria do século XV, quando os Humanistas desenterravam das Bibliotecas os códigos poeirentos e os escritos da antiguidade pagã, tem ainda um forte eco no coração de todas as pessoas medianamente cultas. Um filósofo se envergonharia se não conhecesse as obras de Platão, Aristóteles, Descartes, Kant e Hegel. Um literato se envergonharia de si mesmo, se não tivesse meditado Homero e ,Virgílio, Petrarca e Dante. Os cristãos, ao invés, não se preocupam em absoluto em ler a Bíblia, em ler, ainda que uma só vez, a carta de Deus à humanidade, em tomar conhecimento desta palavra escrita que, com a tradição oral, constitui a fonte puríssima da Revelação Divina.

Nós, os modernos, substituímos “o livro” por excelência pelos nossos opúsculos e nossos pequenos manuais. Os homenzinhos de hoje, queixava-se Antônio Rosmini, querem os pequenos livros, ao contrário dos grandes Padres da Igreja e dos primeiros prosélitos fervorosos do Cristianismo nascente, que amavam a Sagrada Escritura.

A leitura e o comentário da Bíblia faziam parte da Missa dos catecúmenos; os trechos das lições, das Epístolas, dos Evangelhos que ainda se lêem no Sacrifício Eucarístico, são vestígios do antigo uso. Então a Bíblia era tão venerada e meditada, que os perseguidores tomavam isto como motivo para combater e perseguir-os cristãos. No ano de 303, Diocleciano publicava um edito pelo qual obrigava os cristãos a fazerem entrega dos livros sagrados. O próprio Eusébio de Cesaréia refere como “uma grande multidão de mártires” sofreu gravíssimos tormentos e a morte pela Escritura. Santa Irene foi queimada viva por não ter querido obedecer a esta ordem do tirano; muitos crentes traziam sôbre o peito o santo Evangelho.

É magnífica a cena que se narra nos Atos dos Mártires a respeito de Santo Eúplio. Levado à presença do juiz Calvisiano, por ter sido encontrado com os Evangelhos, respondeu à pergunta do juiz:

– Sim, encontraram-me com eles.

Calvisiano ordenou-lhe que os lesse. Eúplio, abrindo o livro, leu:

“Bem-aventurados os que sofrem perseguição”.

Depois de longo interrogatório, amarraram-lhe ao pescoço o Evangelho, que estava em seu poder quando o prenderam. Ele, tendo dado graças ao Senhor, inclinou a cabeça, que foi logo decepada pelo verdugo.

Todos os Padres, como o demonstram suas obras que nos ficaram, nada mais fizeram que comentar a Escritura. Nela se baseava a sua pregação, pois não queriam que ecoasse a sua palavra, mas a palavra de Deus.

São João Crisóstomo não passava uma semana sem ler as epístolas de São Paulo. Bastaria, para não ,multiplicar as citações, o nome de São Jerônimo, para lembrar o que para ele significava este livro. Lá, no alto do Aventino de então, sôbre a colina envolta como em um manto de mística beleza e de históricas recordações, reunia-se o casto cenáculo constituído por Marcela, Asela, Paula, Blesila, Paulina, Eustáquio, Leta, Fabíola e outras nobilíssimas virgens e matronas. São Jerônimo iluminava as piedosas e doutas discípulas, nas mais árduas questões do Antigo e Novo Testamento. Uma biblioteca apropriada servia àquelas almas ardentes de amor pela divina Escritura. O latim, o grego, o hebraico soavam em seus lábios. E, à imitação das outras irmãs em Cristo, Blesila não abandonou jamais nem os Profetas nem o Evangelho durante a longa enfermidade que a devia levar à sepultura. Daquela escola, onde florescia a cultura e um sistema de pedagogia bíblica, Jerônimo passou a Belém. É sabido como, na solidão de Belém e à sombra dos mosteiros que se multiplicavam na terra de Jesus, coroou a sua obra de tradutor e cultor dos Livros sagrados.

“Oh! volte pois, deve exclamar hoje o cristão com as palavras do cardeal Maffi, volte a Sagrada Escritura a ser o meu livro, e não caia jamais de minhas mãos! Conforte-me Jó com seu exemplo, abalem-me com suas palavras os Profetas, atraia-me São Paulo com seu zêlo, comova-me Israel com a sua história de dores e de bênçãos, alicie-me São João com suas esperanças, sustentem-me os Macabeus com sua intrepidez, inspire-me Davi o gemido da oração, e sobretudo atraia-me Jesus no Evangelho. Nada nos deve impedir de fazermos cada dia nossa leitura de uma página, ainda que seja uma só, da sagrada missiva que Deus se dignou enviar-nos.”

3. Os protestantes e a Bíblia

Tal exortação não deixará de espantar a algumas pessoas. Isto pelo simples fato de serem, hoje em dia, quase completamente ignorados os princípios fundamentais da religião. Como? – dirão – porventura não é a Igreja Católica inimiga da leitura da Bíblia? A quem devemos, senão aos protestantes, uma verdadeira aluvião de Bíblias, difundidas com abundância em todos os recantos do mundo e do nosso país? Não receio responder, ainda mesmo que aumente o espanto dos que fazem estas objeções: O verdadeiro inimigo da Bíblia é o protestantismo e não a Igreja Católica, pois que, se não ficamos apenas nas aparências, é fácil verificar os seguintes fatos:

a) O Protestantismo traduz à sua maneira a Sagrada Escritura, introduzindo erros e heresias em sua versão. É claro, então, que a Igreja proíbe a leitura de tais Bíblias. Se é necessário beber água, é também necessária a proibição de bebê-la envenenada.

b) O Protestantismo se ilude, quando julga que favorece o conhecimento da Bíblia, distribuindo edições dela a torto e a direito. Este método é semelhante à tentativa de fazer apreciar e conhecer a Dante, distribuindo gratuitamente a “Divina Comédia”. Um livro, – e também o Livro dos livros – é uma coisa morta, se não o vivifica a interpretação. Para um analfabeto, um livro só serve para papel de embrulho. O mesmo volume pode ser ininteligível para um homem de pouca cultura, podendo, o que é pior, ocasionar falsas interpretações. Pois bem: na Escritura, como nos adverte o Apóstolo São Pedro, “há cousas difíceis de entender”. Por isto a Igreja quer que as edições da Bíblia, em língua vulgar, não só sejam bem e fielmente traduzidas, mas exige ainda as indispensáveis notas explicativas acompanhando o texto. Isto, que à primeira vista parece uma restrição, é uma defesa da Bíblia, proveniente do respeito que devemos à palavra de Deus.

Aos protestantes seria preciso dirigir o convite para meditarem estas palavras de São Jerônimo: “Os agricultores, os pedreiros, os ferreiros, os entalhadores, até mesmo os tecelões e todos os que trabalham os diversos materiais e fabricam coisas de pouca importância, não chegam a ser tais sem um mestre que os instrua. Os médicos fazem o que se relaciona com a medicina; os ferreiros tratam das coisas concernentes ao seu ofício. Só nas questões concernentes às Escrituras todos se julgam competentes. . . Pensam conhecê-las a mulher tagarela, o velho abobado, o sofista charlatão e todos os demais. Assim as maltratam e pretendem ensiná-las aos outros sem as haverem eles mesmos aprendido”.

c) Os protestantes são os maiores inimigos da Bíblia, pois entregam-na a cada indivíduo e lhe deixam liberdade de interpretá-la. Os resultados são conhecidos: cada seita protestante e, freqüentemente, cada pessoa, adota uma interpretação pessoal em contradição com as outras.

Lutero interpretou a Bíblia de um modo; Calvino de outro; os Anabatistas, certos de serem inspirados diretamente por Deus, na leitura dos Livros Sagrados, lhes dão os mais desconexos sentidos. Alguns ao lerem na Bíblia que são “bem-aventurados os que choram”, choramingavam o dia inteiro. Outros, em obediência ao elogio bíblico da alegria, andavam sempre rindo. Para outros o conselho de Cristo: “Tornai-vos semelhantes às crianças'”, era uma ordem para proceder como crianças, jogar bola, correr, saltar, e fazer-se lavar o rosto. Não faltavam também os que, tomando ao pé da letra a exortação da Escritura: “Pregai sôbre os telhados”, em vez de professarem publicamente a sua fé, subiam aos telhados, pregando dali, em altas vozes, aos transeuntes. Os teólogos protestantes assassinaram pouco a pouco a Bíblia. Muitos deles, hoje em dia, nem crêem sequer na divindade de Jesus Cristo e nos milagres. O racionalismo tem feito estragos em suas fileiras. Aos que reprovam seus erros, respondem indiferentes:

“Perdão! Não ensinou Lutero o livre exame da Bíblia? Leio e interpreto livremente. Por que devo me prender à interpretação de Lutero? Se assim fosse, não teríamos outro remédio senão voltar ao seio da Igreja Católica”.

É inútil: é preciso convencer-nos de que precisamente porque a Bíblia não é a palavra do homem, mas a palavra de Deus, ela não deve ser arrebatada à vida divina que palpita na Igreja de Cristo. Os protestantes que dizem amar a Bíblia, e, entretanto, a separam da tradição e da Igreja, única depositária e intérprete autorizada por Jesus Cristo, assemelham-se a quem afirmasse gostar de minha cabeça e por isso a separasse do tronco. Semelhante separação traz consigo a morte. Por isto, é estranhável que na Igreja do Castelo de Wittenberg, onde em 31 de outubro de 1517 Lutero afixou suas teses e onde descansa hoje em seu sepulcro, se haja colocado no altar, em lugar do tabernáculo, uma Bíblia. Oh! não! O Livro sagrado deve ser posto em conexão orgânica com a Igreja vivente, com a Tradição perene, com a história. Quem o separa de tudo isto, o destrói.

4. O sobrenatural e a Bíblia

Como devemos, portanto, ler a Biblia, para não desvirtuar o seu significado, para não limitar-nos a um trabalho superficial, para aprofundar o seu sentido? De que modo, em uma palavra, poderemos atingir o seu pensamento íntimo e vivificante?

Ninguém ignora que os livros que compõem a Biblía são 73, comumente divididos em duas classes: 46 livros do Antigo Testamento e 27 livros do Novo Testamento. Não iremos, neste tratado elementar de religião, enumerá-los nem distingui-los em livros históricos, didáticos e proféticos. O que importa advertir é que todos estes livros, obra de perto de 4000 anos e escritos por diversas pessoas, oferecem uma unidade admirável. Um encadeamento maravilhoso, um progresso lento e contínuo, – onde, no dizer de Lacordaire, toda onda impele a que antecede e arrasta a que segue – fazem destes 73 livros um só livro, que se vai formando, dia a dia, e cresce como uma árvore de diversos ramos, animado por uma só idéia e semelhante à unidade de um poema, não obstante a multiplicidade dos seus cantos.

Esta idéia única e fundamental é a união sobrenatural do homem com Deus, mediante Jesus Cristo e a sua graça. Desde as primeiras palavras do Gênesis: “Deus criou o céu e a terra”, até as últimas do Apocalipse: “a graça de Nosso Senhor Jesus Cristo esteja com todos vós”, esta idéia palpita sempre em todos os versículos, em cada palavra, nas vicissitudes históricas referidas, nas predições dos videntes e nos ensinamentos relativos à vida prática. Deus de um lado: do outro o homem, que se afasta de Deus e do seu fim sobrenatural e pela graça a Deus retorna e com ele se une. E, entre Deus e homem, Jesus Cristo, o Homem-Deus, que une o céu e a terra: eis aí toda a Bíblia.

“A Sagrada Escritura – são palavras de Lacordaire, numa carta sôbre “Jesus Cristo nas Sagradas Escrituras” – revela ao mesmo tempo Deus no homem e o homem em Deus. Esta revelação não se faz sentir só nos grandes momentos da Bíblia: encontra-se em toda parte. Deus não se ausenta nunca de sua obra. Encontramo-lo tanto no campo de Boós, com a nora de Noêmi, como em Babilônia no festim de Baltazar. Assenta-se sob a tenda de Abraão, como exausto viajante cansado pela longa caminhada, e repousa no alto do Sinai, entre os raios que anunciam sua presença. Assiste José em sua prisão e coroa a Daniel em seu cativeiro. Os menores detalhes da família ou do deserto; os nomes, os lugares, as coisas, tudo está cheio de Deus. E, do Éden ao Calvário, da justiça perdida à justiça recuperada, seguimos passo a passo todos os movimentos de sua ternura e de sba força”, e em germe se prepara todo o porvir da humanidade.

Aí está descrito o homem na sua história: história de miséria e de sangue, de quedas, de esforços, de impotência. Precipitado das alturas do sobrenatural, a que Deus o havia elevado benignamente, o homem jaz na Iama e suspira pelo Redentor.

Desde a primeira página da Bíblia é prometido o Salvador. A promessa “transmitida aos patriarcas, vai adquirindo, de livro em livro, uma clareza tal, que Ha enche todos os acontecimentos e os impele ao futuro como uma preparação e uma imagem do que é esperado.

O povo de Deus forma-se no exílio e nos combates. Constrói-se Jerusalém. Levanta-se Sião. A descendência do Messias, destacando-se do fundo primitivo das tribos patriarciais surge e expande-se em Davi, que passa do humilde rebanho de Belém ao trono de Judá, e daí contempla e canta o Filho que deverá nascer da sua posteridade para ser o rei de um reino que não tem fim. Os Profetas retomam sobre a tumba de Davi a harpa dos dias que ainda não chegaram. Seguem Judá em suas desventuras e acampanham-no em seu cativeiro. Babilônia escuta, às margens dos seus rios, a voz dos santos que ela ignora, e Ciro, seu vencedor, lhe fala do Deus que fez o céu e a terra e que lhe ordenou reconstruísse o templo de Jerusalém. E o templo renasce; escuta os gemidos e os ardores dos últimos profetas; e, após um intervalo de muitos anos, depois de haver sido contaminado pelas nações e purificado pelos Macabeus, vê chegar o Filho de Deus nos braços de uma Virgem; e dos seus pórticos ao santuário, e do santuário ao Santo dos Santos, repete-se a palavra suprema do velho Simeão: Agora, Senhor, deixai partir o vosso servo em paz, segundo a Vossa palavra; porque os meus olhos viram a Vossa salvação, que preparastes ante a face de todos os povos; luz para iluminar as nações, e glória de Israel, vosso povo.

Jesus Cristo chegou. O Evangelho sucede à lei e aos profetas; e a verdade, realizando o que era figura, resplandesce no passado que ela explica, depois de haver recebido o seu testemunho. Todos os tempos se encontram em Cristo, e sob seus passos a história adquire sua eterna unidade. Ele é tudo. Todas as coisas a Ele se referem e dEle tudo procede. Ele tudo criou e tudo julgará”.

Eis aí a Bíblia. Quem não a lê sob este aspecto, tendo sempre presente a idéia principal que unifica todas as partes em um todo orgânico e perfeito, pensa compreendê-la, mas realmente nada compreende.

5. Métodos errados ou incompletos

O modo que o catecismo nos ensina para ler a Bíblia, não deve ser confundido com os seguintes métodos:

a) O método do esteta, que na Escritura busca tão somente a beleza artística. A Bíblia por certo é bela e Chateaubriand, no Gênio do Cristianismo, poderá comparar Moisés a Homero, como outros podem comparar Salomão a Sócrates, Jó a Ésquilo e a Buda. Mas não nos iludamos; como não compreende uma basílica cristã o visitante que, ávido de belezas artisticas, nela entra e se limita a contemplar quadros e estátuas, colunas e arcos, e nem percebe a presença de Jesus Sacramentado e o frêmito de fé das consciências que oram e gemem, assim também – na majestosa basílica construída por Deus mediante o trabalho de tantos arquitetos, quantos são os autores dos Livros Sagrados, – quem só repara na forma estética, arrisca-se a não perceber o sopro de Deus e aquela divina beleza que é a verdadeira fonte de toda e qualquer outra beleza da Escritura.

b) O método histórico, que, prescindindo do pensamento central, esmiúça a unidade da obra em partezinhas atômicas, fazendo depois esforços inúteis para uní-las entre si. Também a este respeito, falemos claramente. Existem na Bíblia livros históricos e nada impede, e até é oportuno, que sejam estudados com todos os mais severos critérios da crítica histórica. Mas, assim como seria ridículo quem dividisse a Dante em mil expressões e perdesse de vista a alma do poema; assim como seria uma rematada tolice matar um homem e partí-lo em pedaços para examinar cada fibra, cada célula, sem chegar a descobrir a vida desse montão de partes mortas, assim também é tola a pretensão do historicismo, que esquece a profunda verdade oculta na Bíblia e nela só procura uma sucessão de fenômenos de tal forma encadeados que os precedentes determinem os subseqüentes. Ficando na superfície e retalhando um organismo vivo, é natural que o historicista não encontre Deus na Bíblia, como o astrônomo com seu telescópio não encontra Deus nas estrelas. Mas nem com o microscópio se descobre o pensamento nas linhas que se lêem, e não obstante, o pensamento é a razão, e o motivo das palavras. Não percebe o historicista que, enquanto tagarela sôbre história, deixa escapar na Bíblia a verdadeira história, isto é, a que descobre a significação profunda de todas as vicissitudes da humanidade e todas as sintetiza.

Que dizer portanto daquele que, entregando-se ao estudo pseudo-histórico da Escritura, estabelece o extravagante critério da impossibilidade do milagre e das profecias, e exclue, a priori, a intervenção divina nas coisas humanas? Se o verdadeiro sentido da Bíblia se refere à união sobrenatural entre Deus e o homem, é evidente que Deus deve intervir na história, não só pelos meios naturais, mas também por meios que superam as forças da nossa natureza.

c) O método filosófico, que, confundindo a revelação com a razão, busca na Escritura um sistema de filosofia e, em virtude deste critério incompleto e errado, chega a afastar da Bíblia o sobrenatural e a reduz a uma teoria moral. Por conseguinte, o mesmo Cristo se torna um sábio, um filósofo, como Sócrates ou Marco Aurélio; sua doutrina se reduz a um moralismo sedutor. Com que direito, por exemplo. se divide em duas a figura de Cristo – o operador de milagres de um lado, e o mestre da caridade de outro, o que ensina a existência do fogo eterno do inferno e o que proclama a necessidade do perdão?

Nós, pelo contrário, por sabermos que o sobrenatural eleva, mas não destrói a natureza, e que a revelação não elimina mas eleva a razão, nós não estranhamos que a Bíblia contenha uma moral e uma doutrina superior a qualquer outro sistema filoséifico, mas ao mesmo tempo não fechamos os olhos ao fim principal da Sagrada Escritura, que não pretende dar-nos tão somente uma regra de vida humana e um conjunto de idéias racionais, mas nos revela também a divinização da nossa atividade e a elevação sobrenatural do homem à dignidade de filho de Deus.

d) O método científico, que confunde a Bíblia com um tratado de física, de química, de astronomia, etc., esquecendo – como diz o Cardeal Barônio – que a Bíblia nos foi dada, não para nos ensinar como gira o céu, mas como se vai para o céu, isto é, como se chega à posse sobrenatural ele Deus.

Enfim, a ignorância dos rudimentos da religião e sobretudo da distinção entre a ordem natural e a sobrenatural, faz com que muitos estudiosos da Escritura sejam como quem sofre de catarata, que não lhes deixa ver senão sombras pálidas, imprecisas e evanescentes. A arte, a história, a filosofia, a ciência, podem ofuscar a vista fraca; mas o olhar da fé não se detém nestas flores, mas abraça todo o jardim, onde, esperado pelos patriarcas, vaticinado pelos profetas, e saudado pela harpa do salmista, Jesus avança e triunfa.

Amemos a Bíblia. Que todos a tratem como algo de sagrado. Repitamos as belas palavras com que o Cardeal Maffi recomendava a sua leitura em uma Pastoral: “Náufrago em mar tempestuoso – assim escreve o douto purpurado – o infeliz Camões, enquanto nadava com uma das mãos, com a outra erguia fora da água o manuscrito dos Lusíadas, o poema que o havia de imortalizar. Entre as ondas que crescem e ameaçam submergir-me, segurarei e erguerei para o alto o poema de Deus: nele está minha guia, minha esperança e minha salvação”.

RECAPITULAÇÃO

O livro que, mais do que qualquer ontro, nos revela a presença de Cristo na história, é a Bíblia.

1) É divinamente inspirada; a inspiração consiste no influxo de Deus sôbre o pensamento e a vontade do hagiógrafo, para que conceba com retidão e escreva fielmente a verdade, e na assistência especial que Deus lhe concede.

2) Sendo a Bíblia a carta que o Pai nos dirige a nós, seus filhos, devemos lê-la e meditá-la, como o fizeram sempre os cristãos fervorosos. É necessário sem dúvida que o texto que usamos não esteja envenenado de erros (como acontece com as edições protestantes da Bíblia), mas seja aprovado pela Igreja, única depositária e intérprete autorizada por Jesus.

3) O pensamento fundamental da Bíblia, à luz do qual devemos ler o Antigo e o Novo Testamento, é a união sobrenatural do homem com Deus, mediante a graça. Esta é a idéia que infelizmente escapa aos estetas, a alguns historiadores, filósofos e cientistas, que negam o sobrenatural ou dele prescindem.

As Verdades Básicas do Cristianismo, Mons. Francisco olgiati, Reitor da Universidade de Milão. Tradução direta da 2ª Edição Italiana pelo P. Luiz Marcigaglia S. S., 1942.

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