Conduta prática

Ó Senhor, que a Vossa luz me guie sempre para que não me engane no caminho.

1 – Neste período de transição entre a meditação e a contemplação, é muito importante que a alma compreenda bem em que consiste aquela “atenção geral e amorosa em Deus” de que fala S. João da Cruz, para saber como se comportar e tirar delas os melhores frutos. Para o Santo, este novo método de fazer oração resulta de um exercício das virtudes teologais, ajudadas por um oculto e delicado influxo dos dons do Espírito Santo. Por outras palavras, da parte da alma trata-se de um exercício de fé e de amor tão intenso e simplificado que, sem recorrer à contínua repetição de atos distintos, a põe em atitude de atenção amorosa a Deus. Bem longe de estar na ociosidade, fixa em Deus o seu olhar, mediante um prolongado ato de fé e de amor. Mas não está só, neste exercício: o Espírito Santo vem ao seu encontro e, por meio de uma secreta atuação dos Seus dons, orienta-a e atraía-a para Deus, infundindo-Lhe um conhecimento amoroso dEle. E assim pode perseverar muito tempo nesta atitude verdadeiramente contemplativa e, porque é ajudada pelo Espírito Santo, “gosta de estar a sós coma tenção amorosa em Deus com paz interior, quietude e descanso, sem particular consideração” (S. II, 13, 4).

Mas nem sempre o influxo dos dons do Espírito Santo na alma será tão forte e saboroso que a mantenha tão pacificamente ocupada de Deus. Muitas vezes – sobretudo no princípio – esse influxo será mais fraco e por isso mais árido e, em geral, procederá com intermitências. não será raro o caso em que a alma, para se manter recolhida em Deus, tenha de recorrer a qualquer indústria e então ser-lhe-á muito útil aplicar-se principalmente a renovar de tempos a tempos, atos de fé e de amor, já que a sua parte nesta oração consiste num intenso exercício de fé e de amor.

2 – Falando da passagem da meditação à contemplação, S. João da Cruz nota que nãos e realiza em todos de modo idêntico, não só porque nãos e efetua em todos de maneira igualmente progressiva, mas também porque Deus não tenciona pôr todas as almas no estado de contemplação. Na Subida do Monte Carmelo (II, 13), ensina que a alma não deve abandonar definitivamente a meditação enquanto nãos e tiver formado nela o hábito da contemplação e recorda, a propósito, que muitas vezes a alma se encontra em contemplação logo desde o primeiro momento da oração, ao passo que outras vezes precisa, ao princípio, de se servir de um pouco de meditação. E assim, diz expressamente: “Enquanto tirar suco e puder discorrer na meditação, não a há de deixar a não ser quando a alma se puser na paz e quietude… da atenção amorosa em Deus” (S. II, 13, 2-4). Pode haver um período de flutuação mais ou menos longo entre a meditação e a contemplação. Ou antes, pode haver almas que Deus não afasta nunca definitivamente da oração mais ou menos meditativa.

Isto faz-nos compreender uma vez mais que o fato de ter chegado à contemplação inicial não dispensa a alma da sua atividade pessoal. Acima de tudo, deve preparar-se sempre com diligência, para a oração, recorrendo mesmo ao auxílio de um livro; se depois não conseguir concentrar-se a refletir sobre o que leu, isto ter-lhe-á servido ao menos para recolher o espírito em Deus. Da mesma forma, deve iniciar sempre a sua oração, colocando-se bem na presença do Senhor e depois procederá segundo a graça do momento, reconhecida a Deus quando a recolher em Si e diligente em recorrer às reflexões ou a um livro quando sentir que doutro modo divagará no vago. É preciso ter presente que, mesmo quando a alma é posta na atenção amorosa a Deus, a fantasia pode vaguear por aqui e por ali, pois que “ela – diz S. João da Cruz – até em muito recolhimento anda à solta” (S. II, 13, 3). Nem sempre isto é um indício de que se deve voltar à meditação. A alma procure antes recolher-se para além e acima de todo o movimento do pensamento e, se adverte que desta maneira está unida a Deus, mesmo em aridez, persevere assim, ainda que isto exija maior fadiga do que ocupar-se na leitura de um livro devoto.

Colóquio – “Ó Senhor, meu Deus, busco-Vos com solicitude; de Vós está sedenta a minha alma, deseja-Vos a minha carne, como terra árida e sedenta, sem água” (Sal. 62, 2).

“Quem me fará repousar em Vós? Quem conseguirá que Vós venhais ao meu coração e o inebrieis e eu esqueça os meus males e Vos abrace, meu único bem? Que sois Vós para mim? Permitir, na Vossa bondade, que eu Vos fale. Que sou eu para Vós para que me imponhais a obrigação de Vos amar e Vos inquieteis quando eu não Vos amo, ameaçando-me tantas misérias? E é talvez pequena a miséria de não Vos amar? Pobre de mim! Dizei-me, pela Vossa misericórdia, ó Senhor meu Deus, dizei-me o que sois para mim! Dizei à minha alma: ‘Eu sou a tua salvação’. Dizei-o de tal maneira que eu ouça. Eis diante de Vós o ouvido do meu coração. Ó Senhor, abri-o e dizei à minha alma: ‘Eu sou a tua salvação’. E correrei atrás desta voz e unir-me-ei a Vós. Mas não me escondais a Vossa face…

“Ó Pai, eu não conheço o caminho que conduz a Vós. Ensinai-me, mostrai-me, dai-me o viático. Se é com a fé que Vos encontram os que se refugiam em Vós, dai-me a fé. Se é com a virtude, dai-me a virtude. Aumentai em mim a fé, aumentai em mim a caridade” (Sto Agostinho).

Dai-me uma fé inabalável, Senhor, dai-me uma caridade ardente! A fé e o amor são os guias que me conduzirão por veredas desconhecidas até ao esconderijo onde Vos ocultais. Fazei que ei saiba caminhar em fé e em amor, e em fé e em amor saiba esperar a Vossa visita á minha alma. Ó Espírito Santo que rezais dentro de mim “com suspiros inexplicáveis” (Rom. 8, 26), vinde ajudar a minha miséria, vinde iluminar a minha fé, vinde despertar em mim a caridade. Vós que penetrais “as profundezas dos mistérios divinos” (cfr. I Cor. 2, 10), instruí-me, ensinai-me, fazei-me conhecer o meu Deus. Vós que sois o Espírito de Amor, dai-me dEle um conhecimento amoroso, a fim de que eu permaneça totalmente orientado para Ele e todo preso pelo Seu amor.

Intimidade Divina, Meditações Sobre a Vida Interior Para Todos os Dias do Ano, P. Gabriel de Sta M. Madalena O.C.D. 1952.

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