Estudo sobre o Naturalismo dos “Mistérios Luminosos” do Papa João Paulo II – Parte 3

Fonte: SSPX Asia – Tradução: Dominus Est

Os “melhoramentos” do Rosário

A mais óbvia das melhoras a ser feita no Rosário é a adição de uma nova série de cinco dezenas para ser recitada após os Mistérios Gozosos (§19 e §21). A escolha desses novos mistérios, que o Papa chama de “momentos luminosos”, não é de maneira alguma por acaso. Há um esforço deliberado para evitar os dois principais fatores que contribuíram para que São Domingos determinasse as 15 dezenas as quais estamos acostumados. Primeiro, os mistérios foram dados a ele pela Tradição, e em segundo esses mistérios são eventos objetivos da nossa Redenção. Os 15 mistérios do Rosário como o conhecemos são eventos que aconteceram e que constituíram etapas importantes no cumprimento da Redenção, seja pela Encarnação (no caso dos Mistérios Gozosos), seja pelo mérito e reparação (como nos Mistérios Dolorosos), seja pela causalidade exemplar (como nos Mistérios Gloriosos). Os três conjuntos de mistérios são necessários a nossa redenção, e não poderia ser de outra maneira. É verdadeiro que muitos dos mistérios estão na Sagrada Escritura, todavia, não é por essa razão que eles foram incluídos no Rosário. Eles foram incluídos porque a Tradição católica vivente transmitiu até São Domingos como os mistérios da nossa redenção precisam ser meditados através do Rosário. Por conseguinte, é completamente falso chamar o Rosário de “compêndio do Evangelho” (§19) como ele é chamado na Carta Apostólica. Da mesma maneira, não está de acordo com a Tradição católica — portanto não é católico — querer adicionar cinco mistérios “para que o Rosário possa considerar-se mais plenamente ‘compêndio do Evangelho’” (§19). Ademais, não é surpreendente notar que os mistérios de luz propostos não são eventos da nossa Redenção. São apenas belos episódios do Evangelho e palavras para nos encorajar. Consequentemente, a inserção desses trechos no Rosário obscurece a realidade e a importância da redenção objetiva que o Rosário tradicional representa. Além disso, os novos mistérios são histórias do Evangelho que a Tradição nunca ligou de qualquer maneira ao Rosário. Para acrescentar mais elementos antagônicos ao verdadeiro aspecto mariano da devoção ao Santo Rosário, apenas um desses mistérios menciona a presença e o papel de Nossa Senhora — e apenas de passagem — na ocasião da bodas de Caná. A Santíssima Mãe não está de maneira alguma presente nos demais mistérios. É o caso de se perguntar o que eles estão fazendo no Rosário além de levar sub-repticiamente a atenção para longe de Nossa Senhora.

Citemos esses cinco “momentos” “luminosos” e “significantes” (§21): O batismo de Cristo no Jordão, sua auto-revelação nas bodas de Caná, seu anúncio do Reino de Deus com o convite à conversão, sua Transfiguração e, enfim, a instituição da Eucaristia. Você pode legitimamente se perguntar por que esses episódios do Evangelho e o quê esses episódios têm em comum para merecer o título de “mistérios de luz”. Evidentemente não têm nada a ver com Nossa Senhora, ou mesmo com a redenção objetiva.

Entretanto, há de fato um fator em comum, que é o fato de que todos os cinco “momentos luminosos” expressam de uma maneira ou outra a nova teologia do Mistério Pascal, que é um conceito totalmente novo de Redenção. Essa é a teoria que minimiza a importância do sacrifício da Cruz na nossa Redenção e que está por trás da Novus Ordo Missae, onde o sacrifício propiciatório foi efetivamente eliminado. De acordo com essa teoria, defendida amplamente pelos modernistas, a Redenção do homem é uma obra de puro amor ou misericórdia. A manifestação do amor de Deus é tão grande que não há necessidade de nada mais, nem sequer o pagamento de uma dívida pelo pecado. Por assim dizer, querer pagar uma dívida seria limitar o infinito amor de Deus. Por conseguinte, a redenção é qualquer coisa que manifeste o amor de Deus. Os “mistérios de luz” estão nessa categoria, pois vistos assim eles são manifestações da misericórdia e da glória de Jesus, e, com efeito, são manifestações mais poderosas que o Nascimento e morte na Cruz. De acordo com essa nova teologia não há necessidade da satisfação (i.e. reparar as ofensas) dos pecados do homem, nem da Cruz, nem do sacrifício, nem da penitência e nem da abnegação, exceto num sentido secundário, na medida em que eles forem manifestações da misericórdia de Deus.

As razões pelas quais esses cinco foram escolhidos torna-se, nessa perspectiva, evidente: são todas manifestações. No primeiro a missão é manifestada pelo Pai e pelo Espírito. No segundo mistério (de Caná) há uma manifestação de fé, pois Cristo “abre à fé o coração dos discípulos graças à intervenção de Maria, a primeira entre os crentes. Assim, até mesmo Maria é evocada para o propósito do ecumenismo, pois de acordo com a teoria do Mistério Pascal, todos os crentes [em qualquer coisa] são manifestação da misericórdia divina, independente das suas crenças particulares. O terceiro mistério é a manifestação do Reino de Deus, e o quarto é a manifestação da “Glória da Divindade” (por que não dizer precisamente o que é? No caso não se diz a divindade de Cristo). No quinto mistério a instituição da Eucaristia é explicitamente descrita como a “expressão sacramental do mistério pascal”. Observe que aqui não se menciona qualquer um dos sete sacramentos que renova o sacrifício do Calvário de maneira incruenta, mas apenas de maneira generalizada e imprecisa menciona-se uma manifestação ou expressão do mistério oculto do amor de Deus — que é o que o Papa quer dizer quando comenta que nessa refeição Jesus está “testemunhando ‘até ao extremo’ o seu amor pela humanidade” (§21), citando deliberadamente e erroneamente São João (13, 1), pois o apóstolo afirma explicitamente que são “os seus” que Jesus ama até o fim, e não toda humanidade ou todo o mundo. O Papa resume esse novo conceito de Mistério Pascal (no sentido de que os mistérios são uma manifestação separada de qualquer ato de Redenção) quando diz que “cada um destes mistérios é revelação do Reino divino já personificado no mesmo Jesus”. É por isso que todos os crentes estão salvos, pois todos eles crêem de alguma maneira na manifestação ou revelação do amor divino, e que isso é tudo o que importa.

Consequentemente, não pode haver qualquer dúvida que há razões não declaradas e profundamente heterodoxas que representam a verdadeira razão da inserção desses “momentos luminosos” — algo absolutamente impensável até antes do Vaticano II e que assim continua para aqueles que acreditam na tradicional teologia da Redenção.

Foi o Papa Leão XIII, que em diferentes encíclicas sobre o Rosário, explicou efetivamente porque os mistérios do Rosário não são opcionais ou mutáveis. A ordem e o número do Rosário são para que se proponha de maneira perfeita a nós a “obra inenarrável da Redenção humana”, conforme explica Leão XIII em Octobri mense de 22 de setembro de 1891. O Rosário “recorda, num feliz enredo, os grandes mistérios de Jesus e de Maria: as suas alegrias, as suas dores e os seus triunfos. Se os fiéis meditarem e contemplarem devotamente, na ordem, devida, estes augustos mistérios, haurirão deles um admirável auxílio, quer em alimentar a sua fé e em preservá-la da ignorância e do contágio dos erros, quer em elevar e fortalecer o vigor do seu espírito (…) e nunca se cansarão de admirar a obra inenarrável da Redenção humana, levada a efeito a tão caro preço e com uma sucessão de tão grandes acontecimentos”. Uma citação tão explícita e tão contrária à [nova] teoria do Mistério Pascal não poderia ser encontrada.

Leão XIII reiterou as mesmas idéias no ano seguinte em sua encíclica Magnae Dei matris de 8 de setembro de 1891, onde ele dá o nome de “principais mistérios da nossa religião” à obra da Redenção: “Com efeito, com a sua maravilhosa e eficaz oração, ordenadamente repetida, ele [O Rosário] nos leva à recordação e à contemplação dos principais mistérios da nossa religião: em primeiro lugar, daqueles pelos quais “o Verbo se fez carne” e Maria, Virgem intacta e Mãe, lhe prestou com santa alegria os seus maternais ofícios. Vêm depois as amarguras, os tormentos, a morte de Cristo, preço da salvação do gênero humano. Finalmente, são os mistérios gloriosos (…) E esta a ordenada sucessão de inefáveis mistérios no Rosário é freqüente e insistentemente evocada à memória dos fiéis, e como que desenrolada diante dos seus olhos; de modo que aqueles que rezam bem o Rosário têm a alma inundada por ele de uma doçura sempre nova, experimentam a mesma impressão e emoção que experimentariam se ouvissem a própria voz de sua dulcíssima Mãe, no ato de lhes explicar esses mistérios e de lhes dirigir salutares exortações”.

Que poderosa a autoridade a qual Leão XIII fala a verdade, e que convicção quanto à integralidade e à ordem dos mistérios do Rosário tal como estão. Por conseguinte, exorto o leitor a recusar a novidade dos mistérios luminosos e manter-se firme nos mistérios que tão perfeitamente descrevem o mistério da nossa Redenção — e consequentemente são fonte de ilimitadas graças para nossas almas.

Muitas outras “melhorias” são propostas na carta, e pelos mesmos motivos que já vimos. Por exemplo, a modificação proposta na própria Ave Maria (§33). Como a Ave Maria é uma oração “cristológica”, o auge dela não pode ser a pessoa à qual se dirige (Maria), mas o nome de Jesus. “O baricentro da Ave Maria, uma espécie de charneira entre a primeira parte e a segunda, é o nome de Jesus” (§33). Isso, ademais, não é cristológico o bastante para o Papa. Ele quer enfatizar muito mais o nome de Jesus e, desta maneira, rebaixar a importância de Nossa Senhora. Ele propõe que se faça isso adicionando uma frase após o nome de Jesus, de maneira que essa frase se relacione à manifestação de Jesus no mistério em questão.

Observa-se aí que não há absolutamente qualquer menção à oração ensinada às crianças em Fátima — como se ela não tivesse importância e nem sequer merecesse menção. Não obstante, em todo lugar tornou-se costume recitar a após cada dezena essa oração profundamente sobrenatural: “Ó meu Jesus, perdoai-nos e livrai-nos do fogo do inferno; levai as almas todas para o Céu, e socorrei principalmente as que mais precisarem”. Entretanto o Papa encoraja o povo de Deus a criar suas próprias orações, que pode “gozar de uma legítima variedade na sua inspiração” (§35). Se assim for, o espírito sobrenatural, a constância e a inabalável solidez dessa imutável oração serão solapados.

Continua….

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