Frutos Pascais – Domingo in Albis

Ó Jesus, aproximo-me de Vós, como Tomé. Fazei que eu não seja incrédulo, mas fiel.

1 – A liturgia de hoje dirige-se de modo particular aos neo-batizados que uma semana depois da Páscoa depunham as vestes brancas recebidas na fonte sagrada. A eles é dirigida a afetuosa recomendação de S. Pedro que lemos no Introito da Missa: “Como crianças recém-nascidas desejai o leite puro, espiritual” Ouçamos nestas palavras o eco da solicitude maternal da Igreja para com os seus filhos que ela regenerou em Cristo, e sobretudo para com os que acabam de nascer. mas esta solicitude é também para nós, pois que, embora tenhamos sido batizados logo após o nascimento, pode bem dizer-se que cada ano, pela Páscoa, ressurgindo em Cristo, renascemos nEle para uma vida nova. Devemos, por isso, também nós ser semelhantes a “crianças recém-nascidas” nas quais não há malícia, nem fraude, nem orgulho, nem presunção mas tudo é candura e simplicidade, confiança e amor. É um belo convite àquela infância espiritual que Jesus nos propõe como condição indispensável para alcançar a salvação: “se vos não converterdes e vos não tornardes como meninos, não entrareis no reino dos céus” (Mt. 18, 3). cada onda de graça ao purificar e sarar a nossa alma do pecado e das suas raízes, faz-nos renascer para uma vida nova em Cristo, vida inocente e pura, que suspira somente pelo “leite puro, espiritual”, da doutrina de Cristo, do Seu amor e das Suas graças. Mas hoje a Igreja quer orientar de modo particular os nossos desejos para a fé: a fé que nos faz aderir a Jesus para sermos por Ele instruídos, alimentados e guiados para a vida eterna. Aqui também vem a propósito a palavra do Mestre que meditamos na semana passada: “O que crê em mim, do seu seio correrão rios de água viva… que jorra para a vida eterna” (Jo. 7, 38; 4, 14). Aproximemo-nos de Jesus com a fé simples e sincera das crianças e Ele nos dará a abundância da Sua graça, penhor da vida eterna.

2 – O Evangelho deste dia (Jo. 20, 19-31), tem uma virtude muito particular para nos confirmar na fé.

A dúvida de S. Tomé confirma-nos na fé porque, como diz S. Gregório, “foi mais útil para nós a sua incredulidade do que a fé dos outros apóstolos”. Se ele não tivesse duvidado, nenhum homem teria metido o dedo “nas chagas dos cravos e a mão no lado” do Senhor. Jesus teve piedade da pouca fé do Apóstolo e também da nossa; e deixou-Se não somente ver como já tinha feito aos outros, mas também tocar, permitindo a Tomé, o incrédulo, o que não tinha consentido a Maria Madalena, a fidelíssima. Disto deduzimos a conduto de Deus: não nega consolações sensíveis e sinais mais ou menos palpáveis da Sua presença a almas ainda titubeantes na fé, mas conduz muitas vezes por caminhos completamente obscuros aqueles que se deram a Ele de modo irrevogável e com cuja fé sabe que pode contar. Deus é o Pai, a cada alma que O procura com sinceridade não nega quanto é necessário para sustentar a sua fé, mas recusa muitas vezes aos mais fortes o que concede aos mais fracos. É esta a lição que Cristo nos dá: “bem-aventurados os que não viram e creram”. Felizes aqueles que, para acreditarem em Deus, não precisam de ver ou de tocar, não têm necessidade de sinais sensíveis, mas podem afirmar sem reticências: “Scio cui credidi” (II Tim. 1, 12). sei em quem pus a minha confiança e estou seguro dEle. Uma fé assim é mais meritória para nós porque, fundando-se só na palavra de Deus, é totalmente sobrenatural. É mais honrosa para Deus, porque Lhe dá pleno crédito, sem exigir nenhuma prova, mas persevera também no meio da obscuridade e dos fatos mais desconcertantes, quando aprece que o céu está fechado e o Senhor está surdo aos nossos gemidos.

Uma fé tão forte é certamente fruto da graça de Deus, mas devemos preparar-nos para a receber, quer pedindo-a com a oração, quer exercitando-nos na própria fé.

Colóquio – Ó meu Deus, dai-me um coração puro e simples, sem malícia, sem fingimento. “Ó Senhor, concedei-me verdadeira pureza e simplicidade: nos olhos, nas palavras, no coração, nas intenções, nas obras e em todo o interior e exterior. Mas quereria saber, Senhor meu, o que impede em mim estas virtudes. Dir-to-ei a ti, minha alma, porque não posso fazê-lo compreender aos outros. Sabes que coisa o impede? O mínimo olhar que não seja segundo Deus, todas as palavras que não sejam proferidas ou para louvar a Deus ou para conforto do próximo. E sabes como expulsas do coração estas virtudes? Expulsa-las todas as vezes que não tens a pura intenção de honrar a Deus e de ajudar o teu próximo; expulsa-las também quando queres andar encapotando, cobrindo e desculpando as tuas culpas, não pensando que Deus vê tudo e vê o teu coração. Ó Senhor, dai-me verdadeira pureza e simplicidade, porque não podeis encontrar o Vosso repouso na alma que delas está privada” (cfr. Sta M. Madalena de Pazzi).

Ó Senhor, purificai o meu coração e os meus lábios com o fogo da Vossa caridade, a fim de que Vos ame e Vos procure com a pureza e a simplicidade de uma criança. Mas dai-me também a fé simples das crianças, fé sem sombras, sem hesitações, sem raciocínios inúteis; fé reta e pura que se contenta com a Vossa palavra, com o Vosso testemunho e nele descansa sem querer outra coisa.

“Ó Senhor, que me importa sentir ou não sentir, estar nas trevas ou na luz, gozar ou sofrer, quando posso recolher-me na luz criada em mim pela fé? Devo antes sentir uma espécie de vergonha ao fazer distinção entre estas coisas; e quando me sinto ainda abalada por elas, devo desprezar-me profundamente pelo meu pouco amor e olhar imediatamente para Vós, Mestre divino, para que Vós me liberteis. Vós ensinais-me que devo exaltar-Vos acima das doçuras e das consolações que vêm de Vós, e devo estar resolvida a ultrapassar tudo para me unir a Vós” (cfr. I.I. II, 4).

Intimidade Divina, Meditações Sobre a Vida Interior Para Todos os Dias do Ano, P. Gabriel de Sta M. Madalena O.C.D. 1952.

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