Hereges e Heresias: Como é possível haver heresia?

Há no mundo cerca de setecentos e quarenta milhões de homens que vêem em Jesus Cristo o fundador da sua religião, e quase todos confessam ser Jesus Cristo o Filho Unigênito de Deus vivo. Mas, infelizmente, esta grande cristandade divide-se em três grupos principais:

1 – A Igreja Católica Apostólica Romana com o Papa, cabeça suprema e visível: ela está espalhada pelo mundo inteiro;

2 – as igrejas ortodoxas ou cismáticas, por maior parte no oriente e este da Europa: entre si são sem união de regime; [1]

Aí, no oriente, existem ainda igrejas heréticas que ante o cisma oriental se separaram da Igreja Mãe por negarem alguns dogmas, como veremos em baixo.

3 – as inúmeras igrejas protestantes, mormente na Europa e América que nem sequer mostram união na doutrina, e em alguns casos se combatem mutuamente. – todas estas dizem e pretendem provar serem elas exclusivamente a única Igreja verdadeira de Cristo.

É evidente que todas não o podem ser, e sim uma só, assim como a verdade que é uma só e única. por isso já de antemão está no erro, quem admite mais que uma religião e igreja de Cristo. Newman, por exemplo, antes da sua conversão à Igreja romana, julgava as Igrejas romana, oriental e anglicana serem uma única Igreja de Cristo, com diferença apenas acidentais. Cada uma seria herdeira legítima da Igreja apostólica indivisa: cada uma possuía a verdadeira essência à qual mais tarde teriam ajuntado elementos particulares; e cada uma fazia bem, se aceitasse das outras o que estas tivessem salvo do patrimônio apostólico. – Que Newman com tal asserção se enganou, ele mesmo mais tarde entendeu. Nós católicos sabemos e cremos indubitavelmente que a nossa Igreja Romana é esta única Igreja verdadeira de Cristo. Não duvidamos disso, porque ela na sua existência de quase dois mil anos, na sua invencível firmeza contra perseguidores e também contra heresias, na sua admirável propagação, e mormente na sua vitalidade inexaurível que se mostra na santidade extraordinária de inúmeros membros seus, nos dá a prova certíssima de ser a verdadeira Igreja de Cristo. Por isso se levantamos qualquer dúvida voluntária a respeito desta verdade é pecado e infidelidade para com Nosso Senhor.

Mas apesar isso, nos pode martirizar outro pensamento: Por que é que todos estes cristãos não são unânimes na sua fé, ou melhor, por que razão Deus permitiu tão enorme divisão na Igreja de seu divino Filho?

Realmente, já houve muitos que não sabendo responder devidamente à tal pergunta, afirmaram e ainda afirmam que a religião de Cristo não é a verdadeira, nem é mais santa nem mais eficaz do que as outras religiões pagãs, porque ela não conseguiu converter todos os homens nem santificar todos os seus membros nem sequer conservá-los no seu seio. Numa palavra: eles se interrogam: Como pode haver a heresia dentro do cristianismo?

Vejamos portanto a Sagrada Escritura e façamos um passeio bastante rápido pela história do cristianismo para ver as causas e razões de tantos cristãos apostatarem e separarem-se da verdadeira Igreja de Cristo.

LIBERDADE DA FÉ

Lendo e meditando os santos Evangelhos e os escritos dos Apóstolos notamos logo que a Fé verdadeira é uma grande graça e que somos exortados a não perdê-la por nossa culpa. Em João 6, 13-17, Jesus Cristo respondeu aos judeus que não mostravam nenhuma boa vontade em crer nas suas palavras: “Não murmureis entre vós. Ninguém pode vir a mim, se o não atrair o Pai que me enviou, para eu o ressuscitar no último dia. Está escrito nos profetas: E serão todos ensinados por Deus. Todo o que ouviu ao Pai e se deixou ensinar, vem a mim. Não que alguém tenha visto o Pai; só aquele que é de Deus, viu o Pai. Em verdade, em verdade vos digo, o que crê em mim, tem a vida eterna.” Quer dizer: Ninguém pode chegar a Cristo ou crer nele, senão por uma graça do Pai: este, oferece a graça da Fé a todos “ensinados” por ele, não diretamente por Deus mesmo, mas por seu Filho que vê o Pai; quem, portanto, se deixa ensinar, chaga a Cristo e tem a vida eterna. Por isso já vemos que todos não querem crer, por exemplo os judeus. E Deus não impõe a fé a ninguém por força. Livremente a temos de abraçar; Mc. 16, 16: “Quem crer e for batizado, será salvo”; quem não o quiser, não será forçado, mas deve aceitar as consequências da sua incredulidade, pois “quem não crer, será condenado”.

Quem nos ensina esta Fé, é como já vimos, Jesus Cristo que vê pessoalmente a seu Pai celeste, e são so Apóstolos mandados por Ele (Mt. 28, 18-19): “Foi-me dado todo o poder no céu e na terra. Ide, portanto, e ensinai a todos os povos”. Eles são os enviados de Cristo; por isso “quem vos ouve, a mim (isto é, a Cristo) ouve; e quem vos despreza, despreza Aquele que me enviou (Lc. 10, 16), e quem não ouvir a Igreja, deve ser considerado como gentio e publicano” (Mt. 18, 17), isso, decerto, não vale só os mandamentos da Igreja e sim também do seu ensinamento. E é igualmente doutrina de Cristo que não basta, de forma alguma, aceitar só exterior e mecanicamente a sua doutrina, mas em Mt. 13, 9 nos diz: “Quem tem ouvidos para ouvir, ouça” admoestando-nos que pensemos, reflitamos sobre as suas palavras ou que ouçamos bem, como é mister, com a vontade de conformar a nossa vida segundo o seu ensinamento. Nem todos o fazem, por isso não chegam à Fé. Em si, uma vida conforme a Fé, nos persuade da sua verdade: “Se permanecerdes na minha palavra, sereis, na verdade, discípulos meus; conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (Jo. 8, 31-32). Como também uma vida desregrada causa a incredulidade: “A luz veio ao mundo, mas os homens amaram mais as trevas que a luz, porque as suas obras eram más. Pois, todo o que faz o mal, odeia a luz e não se chega à luz, para que lhe não sejam arguidas as obras. Mas quem pratica a verdade, chega-se à luz, para que se manifeste que as suas obras são feitas em Deus” (Jo. 3, 19-21). Eis a razão principal porque muitos não chegam à verdadeira Fé ou não a conserva,. É porque não fazem a vontade de Deus para que possam entrar no reino de Deus (Mt. 7, 21), mas seguem o espírito do mundo e este, não pode receber o Espírito da verdade (Jo. 14, 17); outros não praticam a caridade; por isso ao fim do mundo chegará a grande apostasia: “Muitos então desfalecerão e entregarão uns aos outros, e terão ódio uns dos outros. E levantar-se-ão muitos falsos profetas e a muitos enganarão. E transbordando a iniquidade, arrefecerá em muitos a caridade” (Mt. 24, 10-12). É mister ter perseverança na fé e na caridade: “Quem perseverar até o fim, será salvo” (Mt. 24, 13).

POSSIBILIDADE DA HERESIA

Há, portanto, a possibilidade de apostatar. Assim como livremente devemos abraçar a Fé, livremente a podemos rejeitar ou abandonar. Também é possível e, em muitos casos, triste realidade, perder a Fé seduzido por outros, por “falsos profetas”. A Sagrada Escritura é extremamente assídua em prevenir-nos contra tal perigo:

Assim no seu sermão escatológico Jesus preveniu os discípulos: “Tomai cuidado, para que ninguém vos engane. Porque virão muitos com o meu nome, dizendo: Sou eu o Cristo, e a muitos enganarão” (Mt. 24, 4-5). – Bem preocupado com o futuro da Igreja, São Paulo dirige aos presbíteros de Éfeso as expressivas palavras: “Sei que, depois da minha partida, se introduzirão entre vós lobos cruéis que não pouparão o rebanho. E, dentre vós mesmos, surgirão homens que, ensinando doutrinas perversas, vão atrair os discípulos a seu partido. Pelo que vigiai, lembrando-vos de que por três anos, noite e dia, não cansei de admoestar, com lágrimas, a cada um de vós” (At. 20, 29-31). São João recomenda o seguinte: ” Caríssimos, não acrediteis em todo o espírito; mas examinai os espíritos a ver se são de Deus. Pois, muitos falsos profetas têm saído pelo mundo” (1 Jo. 4, 1).

A própria Sagrada Escritura reconhece que na nossa liberdade, no nosso libre arbítrio, está contida esta possibilidade de apostatar, de cair na heresia.

Hereges e Heresias, Frei Mariano Diexhans O.F.M., 1ª Edição, 1946.

[1] Herege é o batizado quem nega obstinadamente uma verdade revelada por Deus e definida pela Igreja ou a leva em séria dúvida; apóstata é quem nega totalmente a Fé católica; cismático é quem recusa submeter-se à autoridade do Santo Padre ou comunicar-se com os membros da Igreja.

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