Hereges e Heresias: O cisma oriental

A Igreja oriental, mormente a de Constantinopla, como vimos, esteve quase sempre em oposição à Igreja de Roma, por motivos ora de doutrina ora de disciplina. Já no concílio de Calcedônia (em 451) o patriarca constantinopolitano pretendia atribuir à sua igreja as prerrogativas e direitos da Igreja romana, simplesmente por Constantinopla ser então capital do império e não Roma.

De 325 (concílio de Nicéia) até 857 (quando Fócio se fez patriarca) a igreja de Constantinopla já estivera mais de 200 anos em cisma com Roma. Não é, portanto, de admirar que finalmente chegasse a um cisma definitivo.

O patriarca Inácio foi um homem santo e enérgico. Motivos políticos não o fizeram descuidar seu deve. Em 857 negou a Santa Comunhão a um certo Bardas, tio do imperador, e ministro do império, por viver separado da mulher e em união adúltera com a própria nora. O imperador Miguel III (842-867) que também era indigno desta dignidade e autoridade, sentiu-se ofendido com o castigo do parente e desterrou o bispo sob a acusação de “alta traição”. Pra o suceder foi designado Fócio, que era ainda leigo.

Fócio

Fócio, homem douto em muitas ciências, era, porém, pretencioso e orgulhoso em extremo. O Papa Nicolau mandou investigar o caso e quando soube da verdade, ordenou a Fócio, sob pena de excomunhão, entregar a sede a Inácio. Fócio recusou e começou a acusar a Igreja romana de heresia, de apostasia das tradições apostólicas e de outros “crimes” semelhantes. Num sínodo, atreveu-se até a excomungar o papa e declará-lo deposto.

Em 867 o imperador Basílio I depôs a Fócio e chamou de novo a Inácio para seu posto. E no quarto concílio de Constantinopla (869-870). Fócio foi degradado e excomungado.

Morto Inácio em 878, Fócio sucedeu-o e o Papa João VIII, mais fraco que Nicolau, para obter paz no oriente, reconheceu Fócio na sede do patriarcado, sob certas condições que Fócio nunca observou.

Leão VI o depôs outra vez em 886 por motivos políticos e seu sucessor refez novamente a união com Roma.

Miguel Cerulário

O cisma definitivo veio em 1054. O patriarca Miguel Cerulário, desafeto de Roma, repetiu as acusações feitas por Fócio contra a Igreja romana e seu rito. Acentuou mais as diferenças litúrgicas existentes entre as duas igrejas e daí quis concluir que a Igreja romana estava em erro, por exemplo, por celebrar com pão ázimo, por jejuar nos sábados da quaresma e por não dizer Aleluia neste tempo.

O Papa Leão IX mandou seus legados, os quais, porém, não sendo recebidos por Miguel, depuseram a bula de excomunhão sobre o altar-mor da basílica de Santa Sofia e voltaram. Era o ano de 1054.

Miguel soube revoltar toda a igreja oriental contra Roma e o cisma se tornou geral, estendendo-se até pela Grécia, Balcãs e Rússia.

Não tardou muito, e Miguel Cerulário, por causa de intrigas políticas foi deposto e desterrado. Sua obra, porém, ficou. E dura até hoje, com apenas pequenos intervalos, realizados entre 1274 no concílio segundo de Lyon, e 1438-39 no concílio de Florença.. As razões que levaram os orientais a unir-se com a Igreja romana foram simplesmente políticas, por isso tal obra de reconciliação não teve persistência.

Mais tarde, grande parte de Rumânia, Rutênia e também dos Armenos e dos Maronitas no Líbano uniram-se à Igreja romana; igualmente em outras partes do oriente dão-se tais uniões; ao todo são mais que 8 milhões de católicos orientais unidos a Roma. mas a maioria ainda continua em cisma.

A ATUAL IGREJA ORIENTAL

Na sua doutrina, as igrejas ortodoxas professam mais ou menos a mesma Fé católica como a Igreja romana. Naturalmente, vivendo em cisma com esta, negam a suprema autoridade do Papa e a sua infalibilidade. O resto das divergências não é tão grande; de maneira que seria até fácil uma união com esta; mas, o orgulho não lhes permite reconhecer a autoridade de São Pedro continuada nos seus sucessores, os bispos de Roma. A prova disso é que entre si mostravam sempre a tendência de se tornar independentes das outras igrejas, o que testemunham as igrejas autocéfalas.

Tendo pois perdido o contato com a cabeça de todas as igrejas, que é a Igreja de Roma, a igreja oriental dividiu-se em muitos patriarcados independentes e noutras igrejas acéfalas (isto é, as que não se submetem á autoridade de um dos muitos patriarcas), e até hoje não teve mais aquela influência salutar na vida religiosa e espiritual dos povos, como outrora gozava plenamente. Caiu, mormente na Rússia e nos Balcãs, em humilhante dependência do poder político.

A maior igreja ortodoxa é, sem dúvida, a da Rússia. Aí, ao meado do décimo século, por influência da princesa Olga e dos reis, foi introduzido o catolicismo, às vezes até por força militar. Kiev foi a sede do metropolita. junto com Constantinopla caiu no cisma de Miguel Cerulário. Mais tarde, o centro da igreja tornou-se Moscou, que depois da queda de Constantinopla nas mãos dos turcos (1453) se considera de patriarcado. Em 1700, porém, Pedro o Grande, para diminuir e dominar a influência da igreja, não deixou mais eleger patriarcas, e instituiu o “santo sínodo” que existiu até 1917 e foi figura dos czares ou imperadores. Depois da revolução de 1917 o patriarcado foi renovado, mas agora os patriarcas estavam sob a tirania do bolchevismo.

Durante séculos surgiram dentro da igreja russa diversas seitas, ás vezes muito místicas e fanáticas, que sofrem igualmente a perseguição cruel do novo regime soviético.

Existem ainda as seguintes igrejas orientais de maior importância:

1 – a igreja ortodoxa ou cismática, dividida em 15 igrejas independentes e outras menos independes; as principais são: de Constantinopla, Alexandria, Antioquia, Jerusalém, Grécia, Geórgia, Rússia e dos Estados dos Balcãs;

2 – a nestoriana na Pérsia e Mesopotâmia; e

3 – a monofisita na armênia, Síria, Egito e Albissínia.

Hereges e Heresias, Frei Mariano Diexhans O.F.M., 1ª Edição, 1946.

Este texto foi útil para você? Compartilhe!

Deixe um comentário