Hereges e Heresias: Orgulhoso otimismo

PELAGIANISMO

Santo Agostinho ainda lutava contra o donatismo, quando no ano de 410 apareceu outra heresia, ainda maior e mais perigosa, porque agradava o orgulho dos homens: o pelagianismo. O seu autor foi Pelágio, monge britânico que viveu em Roma e teve entre os seus discípulos Celéstio que mais tarde se revelou adepto fervoroso de seu mestre e sagaz nas discussões. O erro entrou na publicidade, quando Pelágio fugindo aos godos que se aproximaram de Roma, foi à África no ano de 410 e aí falou das suas ideias sobre a vida interior.

Em parte as suas intenções não foram más. Pretendia, como parece, combater o laxismo dos que vendo o pouco progresso na vida espiritual, desanimavam e desistiam de tender à perfeição cristã porque esperavam tudo da graça de Deus. De outro lado, Pelágio quis estimular os seus discípulos a realizarem a maior santidade possível, afirmando que o homem a pode conseguir. Isso é uma verdade católica, suposto porém, que a pretendamos realizar com o auxílio de Deus, porque, sendo a santidade cristã verdadeira participação da natureza divina, como escreve São Pedro na sua segunda epístola (1, 4), supera essencialmente as forças da nossa natureza, e unicamente pelas próprias forças jamais a podemos atingir. Mas Pelágio, de uma vida pura e ascética, talvez orgulhoso da sua virtude, chegou a dizer que o homem por si mesmo pode realizar até a máxima virtude, por exemplo, a de Cristo e de Nossa Senhora. A consequência deste princípio cheio de orgulho, só podia ser desastrosa, e realmente levou Pelágio a rejeitar muitas outras verdades da religião católica. Antes de tudo negou a existência do pecado original: Adão pecou, disse ele, mas por seu pecado não nos fez mal, e ainda hoje nascem as crianças no mesmo estado de alma em que esteve adão antes da sua queda. Por isso não há necessidade de redenção; Jesus Cristo, no máximo, reparou por sua vida santa e obediente o mau exemplo de Adão desobediente a Deus. Por consequência não há graça santificante; o estado de Adão antes do pecado é natural ao homem, não há necessidade de um auxílio sobrenatural de Deus. Tudo podemos por nós mesmos, não precisamos da graça de Deus.

É verdade que Pelágio e seus adeptos falaram da graça, mas não a entenderam como a Igreja católica, um auxílio divino que ajuda interior e imediatamente, a nossa vontade e nos eleva à ordem sobrenatural do consórcio da natureza divina. A teoria de Pelágio podia bem agradar aos orgulhosos que querem fazer tudo por si e não gostam de agradecer a ninguém nem mesmo a Deus.

Vemos, portanto, que o erro fundamental de Pelágio foi negar a ordem sobrenatural da graça à qual Deus elevara os primeiros pais no paraíso e perdida pelo pecado de Adão, foi restituída pela obra redentora de Cristo. Porém, nesta participação da natureza divina pela graça santificante consiste a nossa verdadeira dignidade, muito superior à que nos compete por natureza.

São Jerônimo e outros católicos levantaram-se logo contra tal heresia, e em bruta resposta os pelagianos incendiaram o convento de Belém onde estava São Jerônimo. Quem, porém, tornou-se o verdadeiro defensor da graça, foi Santo Agostinho, que por 20 anos até o ano da sua morte numa idade de 76 anos, lutou incansável e admiravelmente; contra cada escrito dos adversários, redigia imediatamente seus livros magistrais em que com clareza erudição e mestria prova que a ordem sobrenatural da graça e tão alta e superior à ordem natural que precisamos absolutamente para todos os atos sobrenaturais de uma graça divina. Com toda razão a Igreja o honra com o título de doutor da graça.

Nos últimos anos da sua vida (morreu no ano de 430) Santo Agostinho ainda teve de lutar contra alguns monges no sul da França que admitiam a graça, mas julgavam que o homem por próprio talante podia começar a obra sobrenatural, por exemplo, de crer, de rezar; e que, se ele quiser, é capaz de perseverar no bem até o fim, que por isso não precisa do auxílio de Deus, e enquanto dele precisa, o vale merecer por suas próprias boas obras naturais. Nesta explicação que, aparentemente, se assemelha á verdade, fica ilusória a graça, pois ela estando em nosso poder, por conseguinte não supera essencialmente a ordem natural e não nos eleva até os limites de Deus, de cuja glória estamos chamados a participar no céu.

Não pensemos que esta heresia já morreu. Todos os naturalistas, racionalistas, positivistas, neopagãos ou como se chamam os inimigos de um Deus pessoal e da verdadeira religião, revelada, negam a graça de Deus e por isso são pelagianos.

Também as seitas protestantes erram nesta matéria e mormente os primeiros protestantes tinham uma ideia de todo falsa da graça e da ordem sobrenatural. Praticamente são pelagianos até aqueles católicos que não rezam, nem imploram o auxílio de Deus, nem o procuram pelo cumprimento dos deveres religiosos, a saber, pela assistência da Missa dominical e pela recepção dos sacramentos, e por isso pretendem viver como se não precisassem de Deus nem do Seu auxílio. O pelagianismo ainda hoje é a heresia prática de todos os que vivendo desleixados na vida religiosa, pensam salvar-se apenas por uma honestidade natural.

DESVIOS MENORES

Quando Santo Agostinho, no ano de 430, estava no leito de morte, sua cidade foi assediada pelos Vândalos. Este fato é por si simbólico, pois anuncia a transmigração dos povos germânicos, as lutas da agonia do império romano e o fim da antiga cultura greco-romana.

Nos séculos seguintes, ainda continuaram as lutas: o trabalho e o cuidado intelectual resumiam-se quase só em recolher e salvar tanto quanto fosse possível os bens e tesouros da velha cultura. Trabalho que na sua maior parte foi feito pelos monges beneditinos.

Nestes tempos, não surgiram novas heresias, se bem que as antigas ainda não estivessem mortas por completo. A maior parte dos povos germanos, por exemplo (exceto os francos), só conhecera o cristianismo através do arianismo, fato que dificultou a junção dos povos germano e romano para formar um grande povo rejuvenescido.

Alguns erros teológicos, porém, ocorreram; mas felizmente, sem muita propagação.

ADOCIANISMO

Nos fins do oitavo século, surgiu, na Espanha, o adocianismo, ensinado por alguns bispos entre os quais se destacava Elipando de Toledo.

Distinguiam eles em Jesus Cristo um Filho de Deus por natureza, portanto divino, e eterno, e um filho por adoção, da estirpe humana de Davi, mas que fora adotado pela segunda Pessoa divina.

Fato é que alguns Santos Padres falam de uma certa adoção em Cristo, mas a entendem só de sua natureza humana, escolhida por Deus, predestinada e “adotada” para ser unida coma segunda Pessoa divina. Há, porém, uma diferença muito grande desta doutrina para a opinião de haver um filho adotivo em Jesus Cristo, o que fazia crer que nele houvesse dois filhos: um por natureza e outro por adoção, e, por consequência, duas pessoas: uma divina, outra humana, consequência esta que vinha renovar a heresia do nestorianismo.

Segundo a doutrina católica, Jesus Cristo é uma só Pessoa, a saber a segunda da Santíssima Trindade, e por conseguite é um só Filho de Deus e filho por natureza. Por isto o adocianismo foi condenado em diversos sínodos. Seus propugnadores, apesar de terem abjurado seu erro, tornaram a cair nele e fugiram para os territórios dos árabes maometanos. E assim, apagou-se a heresia.

PREDESTINACIANISMO

Pouco depois destas perturbações na Espanha, houve também certa confusão entre os bispos e teólogos do reino dos francos por causa das afirmações de um monge saxão do mosteiro de Corbeja, na França. Godescalco, (assim chamava-se o monge), oblato da Ordem beneditina por vontade de seu pai não se sentindo contente com sua sorte, começou a estudar os escritos de Santo Agostinho: guiado por sua má disposição interior e, entendendo mal o mestre, julgou encontrar nele uma doutrina de predestinação, isto é, que Deus destina alguns homens para a vida eterna e outros para morte eterna, independentemente das boas ou más obras destes homens. O predestinacianismo causou discussões entre os teólogos mas não entrou no próprio povo. Hincmaro, arcebispo de Reims em cujo território ficava a abadia de Corbeja, fez logo condenar a heresia de Godescalco e o resguardou num mosteiro para emendar-se, onde ele morreu, sem revogar o seu erro.

A questão continuou a ser discutida pelos teólogos, daquele tempo, pois em si ela é um mistério para a inteligência humana. Apenas ela foi se tornando mais delimitada, pela exclusão dos erros que a obscureciam ainda mais. Os pontos básicos ficaram assim bem claros: Deus guia o destino dos homens e influi neles pela graça, quer seriamente salvá-los todos, mas respeita a liberdade que lhes concedeu. Como tudo isto pode combinar, é o que nós não sabemos. São segredos da sabedoria, da justiça e da misericórdia divinas.

A doutrina herética da predestinação foi renovada mais tarde na pseudo-reforma protestante, principalmente por Calvino.

Hereges e Heresias, Frei Mariano Diexhans O.F.M., 1ª Edição, 1946.

Este texto foi útil para você? Compartilhe!

Deixe um comentário