Jesus perseguido – Primeiro Domingo da Paixão

Ó Jesus, introduzi-me no mistério da Vossa Paixão, associai-me a ela, para que depois possa participar na Vossa Ressurreição.

1 – Hoje começa o “Tempo da Paixão”, tempo especialmente consagrado à lembrança e à contemplação amorosa das dores de jesus. A cruz e as imagens cobertas, a supressão do Glória na Missa e nos responsórios do Ofício Divino, são sinais de luto com que a Igreja comemora a Paixão do Senhor. Nos seus sermões quaresmais o papa S. Leão exorta-nos a participar na “cruz de Cristo, para que também nós façamos alguma coisa que nos una ao que Ele fez por nós, como diz o Apóstolo: ‘Se sofremos com Ele, com Ele seremos glorificados'”. Não se trata só de meditar nas dores de Jesus, mas de tomar parte nelas, “trazer” a Sua Paixão no nosso coração e no nosso corpo (cfr. II Cor. 4, 10), porque só assim poderemos participar nos seus frutos. Eis porque a Igreja, no Ofício litúrgico do tempo, repete com maior insistência o convite: “quando ouvirdes a voz do Senhor não fecheis os vossos corações”. Nestes dias a voz do Senhor faz-se ouvir não por meio de palavras, mas com o testemunho eloquente dos fatos, com o grande acontecimento da Paixão, que é o mistério mais convincente do Seu amor infinito para conosco. Abramos, pois, o nosso coração, às sublimes lições da Paixão: aprendamos quanto Jesus nos amou e quanto O devemos amar. Aprendamos também que se O quisermos seguir, é necessário sofrer, levar a cruz com Ele e atrás dEle. Ao mesmo tempo abramos o coração à mais viva esperança, porque na Paixão de Cristo está a nossa salvação. Na Epístola de hoje (Hebr. 9, 11-15), S. Paulo apresenta-nos a figura majestosa de Cristo, Sumo Sacerdote, que, “com o Seu próprio Sangue entrou uma só vez no Santo dos Santos [isto é, no céu], depois de ter adquirido uma redenção eterna”. A Paixão de jesus remiu-nos, abriu-nos de novo a casa do Pai e é a razão da nossa esperança.

2 – O Evangelho do dia (Jo. 8, 46-59), apresenta-nos o quadro das hostilidades cerradas dos judeus, prelúdio claro da Paixão de Jesus. Aqueles corações endurecidos não querem admitir de modo algum a missão do Salvador e inventam mil maneiras de combaterem os Seus ensinamentos, para O difamarem entre o povo, apresentando-O como um mentiroso, um endemoniado; por fim o seu ódio chega a tal ponto, que decidem lapidá-lO: “então pegaram em pedras para Lhe atirarem”. A morte de Jesus já estava decretada pelos judeus mas não tendo chegado ainda a hora estabelecida pelo Pai, “Jesus escondeu-Se e saiu do templo.”

Este trecho evangélico permite-nos considerar a conduta de Jesus em presença dos Sues perseguidores: mansidão, zelo pelas suas almas, desinteresse pessoal e total abandono a Deus. S. Gregório Magno escreve: “Considerai, amados irmãos, a mansidão do Senhor. Ele, que tinha vindo perdoar os pecados, dizia: ‘Quem de vós me arguirá de pecado?’ Ele que podia, em virtude da Sua divindade, justificar os pecadores, não desdenha demonstrar que não é pecador” (BR.).

Seguem-se as calúnias: “és um samaritano e tens demônio”. O Mestre divino responde, mas sempre docemente e só o necessário para dar testemunho da verdade: “Eu não tenho demônio, mas honro o meu Pai e vós a mim desonrastes-me”. Quando ao resto, depõe a Sua reputação e a Sua causa nas mãos de Deus: “Eu não busco a minha glória; há quem tome cuidado dela e quem fará justiça”. Entretanto, através do debate, não cessa de instruir e iluminar as inteligências para as arrancar ao erro; sempre esquecido de Si, pensa no bem das almas. Assim, nestas difíceis circunstâncias, Jesus dá-nos preciosos ensinamentos: “O que é de Deus ouve as palavras de Deus, Quem guardar a minha palavra, não verá a morte eternamente”. Recolhamos da boca do Mestre perseguido estes avisos e guardemo-los ciosamente no nosso coração. Ainda hoje o mundo está cheio de inimigos de Cristo que combatem a Sua doutrina, que desprezam a Sua Paixão. Ao menos nós, acreditemos nEle e sejamos Seus amigos fiéis.

Colóquio – “Louvado sejais, Deus misericordiosíssimo, que sendo nós miseráveis, desterrados, prisioneiros e condenados, quisestes remir-nos e exaltar-nos por meio da Paixão, da dor, do desprezo e da pobreza do Vosso Filho. Corro para a Vossa Cruz, ó Cristo, para a dor, para o desprezo, para a pobreza, e com todas as minhas forças desejo transformar-me em Vós, ó Deus-Homem padecente, que tanto me amastes que quisestes sofrer uma vergonhosa e horrenda morte, com o fim único de me salvar e de me dar o exemplo de como ei de suportar as adversidades por Vosso amor. É perfeição e verdadeiro sinal de amor conformar-me conVosco, ó Crucificado, que por minhas culpas como vítima aos mais dolorosos tormentos. Ó meu Deus padecente, só lendo no livro da Vossa vida e morte me será dado conhecer-Vos e penetrar no Vosso mistério. Dai-me, pois, um profundo espírito de oração, uma oração devota, humilde, atenta, feita não apenas com a boca, mas também com o coração e a mente, a fim de poder compreender as lições da Vossa Paixão!

“Vejo, neste livro, a infinita bondade e piedade pelas quais preferistes tomar sobre Vós a nossa condenação, o nosso desprezo e a nossa dor, antes que deixar-nos em tão miserável estado. Vejo a Vossa infinita bondade, diligência e cuidado que tivestes para nos salvar e reconduzir á pátria do céu. Vejo a infinita sabedoria com a qual, de modo infalível, nos remistes, salvastes e exaltastes, por misericórdia, sem fazer injúria à justiça. E assim, enquanto morríeis penosamente, vivificáveis todas as coisas e destruíeis a morte universal.

“Além disso, no livro da Cruz vejo a Vossa infinita mansidão, pois sendo amaldiçoado, não amaldiçoáveis nem Vos vingáveis, mas perdoáveis e abríeis as portas do céu àqueles mesmos que Vos crucificavam” (cfr. B. Ângela de Foligno).

Intimidade Divina, Meditações Sobre a Vida Interior Para Todos os Dias do Ano, P. Gabriel de Sta M. Madalena O.C.D. 1952.

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