O amor à cruz

Venho junto de Vós, ó meu Deus crucificado, com o desejo de penetrar mais profundamente no mistério da cruz.

1 – A cruz é o sofrimento visto à luz sobrenatural como instrumento de salvação e santificação, portanto como instrumento de amor. Vista a esta luz, a cruz torna-se amável: é o grande meio da nossa santificação. A nossa união com Deus não é realizável senão através do sofrimento. S. João da Cruz demonstrou como a alma deve ser purificada, limada até ao fundo, para chegar já nesta vida à união com Deus. É necessária uma obra de mortificação total, para arrancar todos os nossos apegos, porque há em nós numerosas resistências que impedem que sejamos totalmente movidos por Deus; não é possível que tudo isto se faça sem sofrimento. Mas não basta o sofrimento ativo, quer dizer, não bastam as mortificações e penitências que nos impomos por nossa própria iniciativa; é necessário sobretudo o sofrimento passivo, ou seja, é necessário que o próprio Senhor nos fala sofrer, não só no corpo, mas também no espírito; precisamente porque estamos tão cheios de ferrugem e de misérias, a nossa total purificação não é possível se Deus não intervém com a Sua ação. Introduzir-nos no sofrimento passivo é, portanto, uma das maiores obras da Sua misericórdia, uma das maiores provas do Seu amor; quando Deus age assim numa alma, é sinal que quer elevá-la a uma alta perfeição. É nestes sofrimentos passivos, purificadores que se realiza, de modo particular, o conceito da cruz. na Chama viva de amor (II estrofe), S. João da Cruz pergunta porque são tão poucas as almas que chegam à plenitude da vida espiritual. E responde: não é porque Deus queira reservar este estado a alguma alma privilegiada, mas porque encontra poucas almas dispostas a aceitar um profundo trabalho de purificação; por conseguinte, deixa de as purificar, e as almas condenam-se à mediocridade, não caminham nem avançam. É impossível unir-se a Deus sem estes sofrimentos espirituais, sem suportar este peso de Deus. Só através do sofrimento e da desolação interior as potências da alma se dilatam e esta se torna capaz de abraçar o próprio Deus.

2 – “Ó almas que quereis andar seguras e consoladas nas coisas do espírito se soubésseis quanto vos convém padecer, sofrendo, para chegar a essa segurança e consolo!” (J.C. CV. 2, 28). Todavia o sofrimento é necessário não só para o bem espiritual da alma, mas também para que esta possa glorificar a Deus e demonstrar-Lhe o seu amor; com efeito, não se trata de chegar à perfeição para gozar dela – porque a alma perfeita nunca pensa em si – mas para se dedicar totalmente à glória de Deus. É neste sentido que está escrito no cimo do Monte da Perfeição: “só mora neste monte a honra e a glória de Deus”. Como a cruz de Jesus foi o grande meio pelo qual Ele deu ao Pai a glória que o homem pecador Lhe negara, assim deve acontecer com a nossa cruz: por meio do sofrimento devemos expiar e reparar as nossas culpas e as dos outros, para dar a Deus toda a glória que Lhe é devida.

Além disso, assim como a cruz de jesus foi a prova suprema do Seu amor por nós, do mesmo modo a nossa cruz é a mais bela prova do nosso amor para com Ele. O fato de Jesus, Filho de Deus, ter vindo à terra para morrer na cruz por nós, manifesta-nos o Seu infinito amor a assim, ao abraçarmos o sofrimento por Ele, demonstraremos a realidade do nosso amor para com Deus. Por isso a cruz é instrumento e obra de amor: do amor de Deus para conosco e do nosso amor para com Deus. Quanto mais Deus nos santifica, mais nos demonstra o Seu amor e nos dá meios de O glorificarmos. Deus santifica-nos por meio da cruz, da grande cruz de Jesus à qual devemos juntar nossa pequena cruz. Quanto mais o Senhor, através do sofrimento, nos faz participar da Paixão de Cristo, tanto mais nos santifica e nos ama. Também neste sentido os sofrimentos são uma prova do Seu amor para conosco.

Se compreendêssemos tudo isto, como amaríamos a cruz!

Colóquio – “Ó Senhor, o caminho da cruz é o que reservais aos Vossos amados; porque aqueles a quem muito quereis, levais por caminho de trabalharmos e quanto mais os amais, maiores eles são… porque só admitis à Vossa intimidade as almas amantes de padecimentos. Se me perguntásseis se antes quero ficar na terra até ao fim do mundo com todos os trabalhos que nele há e depois subir um pouquinho mais alto na glória, ou sem trabalho algum ir já gozar duma glória um pouco mais baixa, de boa vontade tomaria sobre mim todos os trabalhos, a fim de gozar um pouquinho mais, por entender melhor as Vossa grandezas… Pois vejo que quem mais Vos entende, mais Vos ama e Vos louva.

“De penas que se acabam não quero fazer caso, quando sobrevier um maior serviço a prestar, quando se tratar de Vos honrar, a Vós que tanto passastes por nós.

“Se quero saber, meu Deus, com Vos haveis com quem Vos pede deveras para cumprir em si a Vossa vontade, devo perguntá-lo ao Vosso gloriosos Filho que Vo-lo disse quando da Sua oração do Horto… Vós cumpriste-o bem nEle, dando-Lhe trabalhos, dores injúrias e perseguições até que se Lhe acabou a vida com a morte de cruz. Eis o que deste Àquele a quem mais amáveis. São estes os Vossos dons neste mundo. Dai-no-los conforme ao amor que nos tendes: aos que mais amais, dais mais destes dons, àqueles que menos amais, dais menos e conforme o ânimo que vedes em cada um e ao mor que Vos temos. Quem Vos amar muito, verá que pode padecer muito por Vós, quem Vos amar pouco, pouco” (T.J. Cam. 18, 1 e 2; Vi. 37, 2; Cam. 3, 6; 32, 6 e 7).

Ó meu Deus, aumentai o meu amor, dilatai o meu pobre coração e tornai-o capaz de sofrer muito por Vós. Sim, quero aceitar o sofrimento de boa vontade para Vos testemunhar com os fatos a realidade do meu amor.

Intimidade Divina, Meditações Sobre a Vida Interior Para Todos os Dias do Ano, P. Gabriel de Sta M. Madalena O.C.D. 1952.

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