O amor misericordioso – Terceiro Domingo depois de Pentecostes

Ó Jesus, dignai-Vos descobrir-me os tesouros de misericórdia encerrados no Vosso Coração.

1 – A liturgia de hoje é um caloroso convite à confiança no amor misericordioso de Jesus. Desde o princípio da Missa a Igreja faz-nos rezar assim: “Olhai para mim, Senhor, tende compaixão, pois vivo só e ao desamparo. Reparai na minha miséria e sofrimento e perdoai todos os meus pecados” (Intr.) Depois na Coleta pedimos: “Ó Deus… multiplicai sobre nós a Vossa misericórdia”, e um pouco mais adiante exorta-nos: “Descarrega o teu fardo no Senhor e Ele te sustentará” (Grad.). Mas como justificar tanta confiança em Deus, sendo nós sempre uns pobres pecadores? Esta justificação encontramo-la no Evangelho do dia (Lc. 15, 1-10) que refere duas parábolas de que Jesus Se serviu a fim de nos ensinar que jamais confiaremos demasiado na Sua misericórdia infinita: a parábola da ovelha perdida e a da dracma perdida. Primeiro é-nos apresentado o Bom Pastor que vai atrás da ovelha tresmalhada: é a figura de Jesus, descido do céu para r à procura da pobre humanidade perdida nos antros obscuros do pecado; para a encontrar, para a salvar e conduzir novamente ao redil. Ele não hesita em enfrentar os sofrimentos mais amargos e até a morte. “E tendo-a encontrado, põe-na sobre os ombros alegremente e, indo para casa, chama os seus amigos e vizinhos, dizendo-lhes: ‘Congratulai-vos comigo porque encontrei a minha ovelha que se tinha perdido'”. É a história do amor de Jesus não só para com toda a humanidade, mas para com cada alma em particular; história bem sintetizada na doce figura do bom pastor, sob a qual Jesus Se quis apresentar. Pode dizer-se que a figura do bom pastor – tão amada nos primeiros séculos da Igreja – equivale à do Sagrado Coração; uma e outra são a expressão viva e concreta do amor misericordioso de Jesus e convidam-nos a ir a Ele com plena confiança.

2 – “Digo-vos que haverá maior júbilo no céu por um pecador que fizer penitência que por noventa e nove justos que não têm necessidade de penitência”. Com este pensamento, embora expresso de forma diversa, terminam as três parábolas da misericórdia: a da ovelha perdida, a da dracma perdida e a do filho pródigo. Esta insistente repetição indica-nos o grande cuidado que Jesus teve em inculcar-nos um sentido profundo da misericórdia infinita, misericórdia que contrasta com a atitude dura e desdenhosa dos fariseus que murmuravam, dizendo: “Este [Jesus] recebe os pecadores e come com eles”. As três parábolas são a resposta do Mestre à insinuação maliciosa e mesquinha dos fariseus.

A nós, criaturas limitadas e espiritualmente tão curtas de vista, não nos é fácil compreender a fundo este inefável mistério; e não só nos é difícil entendê-lo a respeito dos outros, mas mesmo quando se trata de nós próprios. Contudo Jesus disse e repetiu: “Haverá maior júbilo no céu por um pecador arrependido que por noventa e nove justos”, e com isto quis declarar-nos quanta glória dá a Deus a alma que, após as suas quedas, volta para Ele arrependida e confiada. O sentido destas palavras nãos e há de aplicar somente aos grandes pecadores, aos que se convertem do pecado grave, mas também àqueles que se convertem dos pecados veniais, que se humilham e depois se levantam das infidelidades cometidas por fragilidade ou irreflexão. Esta é a nossa história de todos os dias: quantas vezes nos propusemos vencer a nossa impaciência, a nossa irascibilidade ou susceptibilidade, e quantas vezes recaímos! Porém, se reconhecermos humildemente o nosso erro e formos, com confiança, “pedir perdão a Jesus, lançando-nos nos Seus braços, Ele estremecerá de alegria” e “fará mais ainda: amar-nos-á mais do que antes da nossa falta” (TMJ. Cart. 2231 e CL.).

No Communio a liturgia repete hoje o último versículo do Evangelho: “Assim vos digo eu que haverá júbilo entre os anjos de Deus por um pecador que faz penitência”; e nós peçamos a Jesus, na Sagrada Comunhão, que nos faça compreender os segredos do Seu infinito amor misericordioso.

Colóquio – “Em quem, Senhor, poderá resplandecer melhor a Vossa misericórdia do que em mim que tanto obscureci, com as minhas más obras, as Vossas grandes mercês? Se procuro desculpa, nenhuma encontro, nem posso culpar ninguém senão a mim! Para pagar alguma coisa do amor que me começastes a mostrar, não deveria empregar o meu em ninguém senão em Vós. Mas se o não mereci, nem tive tal ventura, valha-me agora, Senhor, a Vossa misericórdia!…

“De tão grande maldade e tão excessiva ingratidão, já algum bem tirou a Vossa infinita bondade; e quanto maior é o mal, mais resplandece o benefício das Vossas misericórdias. Oh! e com quanta razão as posso cantar para sempre! Suplico-Vos, Senhor, que assim seja e que eu as cante sem fim, já que tivestes por bem fazê-las tão grandes comigo. Fico muitas vezes fora de mim para melhor poder louvar-Vos; pois estando em mim, sem Vós, Senhor, não poderia fazer mais do que tornar a cortar as flores do meu jardim, voltando esta miserável terra a servir de estrumeira como antes. Não o permitais, ó Senhor, nem queirais que se perca alma que com tantos trabalhos comprastes e tantas vezes tornastes a resgatar, arrancando-a aos dentes do espantoso dragão” (T.J. Vi. 4, 4; 14, 10).

“Ó Jesus, eu sei que o Vosso Coração fica mais magoado com as mil pequenas indelicadezas dos seus amigos do que com as faltas, mesmo graves, que cometem as pessoas do mundo. todavia parece-me que é só quando as nossas indelicadezas se tornam habituais e não Vos pedimos perdão delas, que Vós podeis dizer: ‘Estas chagas que vedes no meio das minhas mãos, recebi-as na casa daqueles que me amavam!’ Mas se depois de cada pequena falta vimos pedir-Vos perdão, lançando-nos nos Vossos braços, Vós estremeceis de alegria e dizeis aos Vossos anjos o que o pai do filho pródigo dizia aos seus servos: ‘Vesti-o com a sua melhor roupa, ponde-lhe um anel no dedo e regozijemo-nos’. Ó Jesus, como são pouco conhecidos a bondade e o amor misericordioso do Vosso Coração!” (cfr. T.M.J. Cart. 231).

Intimidade Divina, Meditações Sobre a Vida Interior Para Todos os Dias do Ano, P. Gabriel de Sta M. Madalena O.C.D. 1952.

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