O dom da piedade

Ó Espírito Santo, Espírito de piedade, alegrai e dulcificai o meu coração.

1 – Pelo dom de piedade, o Espírito Santo dá um novo impulso à nossa vida espiritual, um toque de suavidade e de doçura que aperfeiçoa e simplifica as nossas relações com Deus e com o próximo. Estas relações estão fundamentalmente reguladas pela justiça, virtude que nos leva a cumprir sempre o nosso dever, dando a cada um o que lhe pertence. Mas se na vida fôssemos unicamente guiados pela justiça, o nosso caminho seria muito árido e a fidelidade difícil. Quando, pelo contrário, sob a ação do Espírito santo, se desenvolve em nós o sentimento de piedade filial para com o Pai celeste, sentimento que na prática se traduz num vivo desejo de Lhe agradar em todas as coisas, transpomos então os limites, um pouco rígidos, da justiça, para nos entregarmos de todo o coração ao serviço do Senhor. Impelidos por aquele profundo grito interior: “Pai!” que o Espírito Santo repete em nós (cfr. Gál. 4, 6), elevamo-nos até ao céu com desejos de conquistar o coração de Deus e de nos comportarmos em tudo como verdadeiros filhos Seus. E assim até os deveres mais espinhosos e árduos se tornam suaves e fáceis. Deste modo o dom de piedade vem em auxílio da virtude da justiça e depois, no que diz respeito às nossas relações com Deus, da virtude da religião. Por meio deste dom o Espírito Santo “dá testemunho ao nosso espírito de que somos filhos de Deus” (Rom. 8, 16), de sorte que esta verdade se torna uma experiência viva, pessoal, capaz de nos elevar para Deus com um impulso filial inteiramente novo, impulso que facilita a nossa oração, transformando-a num contato íntimo com o Pai celeste.

Por isso é muito justo que, aspirando a uma vida de íntima união com Deus, desejemos e supliquemos este dom; sob o seu influxo a nossa oração tornar-se-á mais cordial, mais filial e ocupar-nos-emos com maior amor e facilidade de tudo quanto diz respeito ao culto divino. Imploremos este dom sobretudo nos momentos em que nos sentirmos mais áridos e frios a fim de que, mesmo nas provas e trabalhos interiores, nos ajude a ir para Deus com um coração de filhos. Assim a nossa diligência e constante aplicação à oração, apesar da falta de devoção sensível, é uma das melhores disposições para atrair sobre nós o sopro vivificante do dom de piedade.

2 – O dom de piedade aperfeiçoa a justiça nas nossas relações com o próximo, ajudando-nos principalmente a limar as arestas, a vencer aquele sentimento de aversão e de dureza que, apesar de procurarmos praticar a virtude, permanece na nossa conduta sobretudo para com os que nos são desagradáveis e hostis. O dom da piedade inspira-nos o sentido da paternidade divina, a respeito não só de nós próprios, mas também dos outros; faz-nos sentir que esta mesma paternidade não se exerce somente sobre nós, mas sobre todos os homens, próximos ou distantes, amigos ou inimigos, tanto mais que “há um só Deus e Pai de todos, que está acima de todos e em todos nós” (Ef. 4, 6). A consciência desta paternidade comum não deve permanecer limitada ao campo das ideias, mas deve penetrar na nossa vida prática, refletir-se nas nossas relações com o próximo para as modificar, facilitar e dulcificar. Esta é a ação que o Espírito Santo quer realizar em nós, pondo em ato o dom de piedade, através do qual nos inclina suavemente à doçura, à indulgência, à compaixão para com todos, porque todos somos filhos de um mesmo Pai. O Espírito Santo faz-nos compreender que a nossa fraternidade sobrenatural é um laço muito mais forte do que os laços provenientes da carne e do sangue, porque brota não da vontade do homem, mas da vontade do Pai celeste, o qual “antes da criação do mundo nos predestinou para sermos Seus filhos adotivos por meio de Jesus Cristo” (Ef. 1, 4 e 5). tendo em conta este laço, Ele impele-nos a vencer qualquer dificuldade que possamos encontrar nas relações com o próximo, tratando a todos não como estranhos, mas como irmãos.

Para secundar as inspirações do dom de piedade, temos que nos esforçar por dispor o nosso coração à benevolência e à doçura, habituando-nos a ver em cada pessoa – ainda que nos seja contrária – um filho de Deus e um irmão nosso. E se este exercício for para nós muito difícil, em vez de desanimarmos, voltemo-nos com maior insistência para o Espírito Santo, suplicando-Lhe que Se digne completar em nós o que sozinhos não podemos fazer.

Colóquio – “Ó Espírito Santo, guiai a minha alma, porque todos aqueles que são conduzidos por Vós são realmente filhos de Deus. Vós me ensinais que não recebi o espírito de escravidão para ser ainda conduzido pelo temor, mas que recebi o espírito de adoção de filho pelo qual, voltando o olhar para Deus, posso clamar: ‘Pai!’ Vós mesmo dais testemunho ao meu espírito de que sou filho de Deus; e se sou filho, também sou herdeiro de Deus e co-herdeiro de Cristo contanto que aceite sofrer com Ele para ser com Ele glorificado” (cfr. Rom. 8 , 14-17).

“Deus meu, enviai a Vossa luz e a Vossa verdade a iluminar a terra: porque eu sou terra estéril e deserta e sê-lo-ei enquanto Vós não me iluminardes. Derramai sobre mim as graças do céu; inundai o meu coração com o orvalho celeste; dai-me a água da devoção que regue a face da terra, que faça produzir frutos bons e excelentes. Levantai a minha alma oprimida pela multidão dos pecados e elevai todos os meus desejos para as coisas celestiais; para que, saboreando a doçura da felicidade eterna, me repugne pensar nas terrenas.

“Arrebatai-me e desprendei-me de toda a consolação passageira das criaturas; porque nenhum coisa criada pode consolar-me e satisfazer-me plenamente. uni-me a Vós com o vínculo indissolúvel do Vosso amor; porque só Vós bastais a quem ama, e sem Vós tudo é vão” (Imit. III, 23, 9 e 10).

Ó Espírito Santo, criai em mim um coração de filho para com o Pai celestial, um coração que sempre O busque, O ame e O sirva coma grado. Criai em mim um coração de irmão para com o meu próximo, a fim de que, vencendo qualquer contrariedade, saiba ser benévolo, doce e manso para com todos.

Intimidade Divina, Meditações Sobre a Vida Interior Para Todos os Dias do Ano, P. Gabriel de Sta M. Madalena O.C.D. 1952.

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