O grande combate – Primeiro Domingo da Quaresma

O GRANDE COMBATE – PRIMEIRO DOMINGO DA QUARESMA

Ó Jesus, retiro-me conVosco ao deserto; ensinai-me como devo lutar contra a tríplice concupiscência da carne, do orgulho, da avareza.

1 – Ao começar hoje o tempo estritamente quaresmal, a Igreja convida-nos para a grande luta, luta decisiva contra o pecado, que nos deve conduzir à ressurreição pascal. O modelo é Jesus que, embora isento do fogo da concupiscência, quis por nós, ser tentado pelo demônio, para “se compadecer das nossas enfermidades” (Hebr. 4, 15).

Depois de quarenta dias de jejum rigoroso, quando sente o estímulo da fome, Jesus é tentado por Satanás a converter as pedras em pães. Não é possível abraçar um regime de séria penitência ou mortificação, sem experimentar os incômodos que dele derivam; mas então é o momento de resistir às vozes insinuantes que nos aconselham maior condescendência para com as exigências físicas, respondendo com Jesus: “Não só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus” (Mt. 4, 1-11). A vida do homem, depende muito mais da vontade de Deus do que do alimento material; só quem estiver convencido desta verdade, terá coragem para se sobrepor às privações, confiando na Divina Providência para o seu sustento.

Jesus foi depois tentado de orgulho: “Se és Filho de Deus, lança-te daqui abaixo… e os seus anjos te tomarão nas mãos”. Um milagre semelhante terá atraído a admiração e o entusiasmo do povo, mas Jesus sabe que o Pai escolheu para Ele outro caminho bem diferente: não triunfos, mas humilhações, cruz, morte; não quer sair deste caminho e repele resolutamente a orgulhosa proposta. O melhor meio para vencer as tentações de orgulho e vaidade é escolher expressamente o que nos humilha e nos faz desaparecer aos olhos dos outros.

O demônio volta de novo à carga e tenta Jesus de avareza: “Tudo isto te darei, se, prostrado, me adorares”, mas Ele responde: “O Senhor teu Deus adorarás e a Ele só servirás”. Quem tem o coração fortemente ancorado em Deus, nunca se deixará desviar do Seu serviço pela sedução e cobiça dos bens terrenos. Mas se falta esta forte adesão a Deus, quantas vezes a tentação de avareza conseguirá fazer desviar mesmo aqueles que, por vocação particular, deveriam servir a Deus só!

2 – Jesus foi tentado porque quis. Nós somos tentados sem o querer e até muitas vezes contra a nossa vontade. A tentação de Jesus foi puramente exterior, não achando nEle ressonância alguma; em nós, pelo contrário, a natureza, ferida pela tríplice concupiscência da carne, do orgulho e da avareza, não só pode ser facilmente presa dos assaltos do demônio, mas ela mesma é fonte de múltiplos tentações. Não podemos, portanto, viver sem tentações e a nossa virtude não consiste em estar isento delas, mas em saber vencê-las. É uma luta à qual ninguém se pode subtrair, e Deus quis que ela fosse para nós o penhor da vida eterna: “Bem-aventurado o homem que sofre a tentação porque, depois que tiver sido provocado, receberá a coroa da vida” (Tgo. 1, 12).

Aprendamos de Jesus como nos devemos comportar nas tentações. Acima de tudo devemos ter uma grande confiança em Deus. Jesus não procurou remediar a Sua fome, não quis impor-Se aos homens por meio de um ruidoso milagre, nem aceitou reinos ou riquezas, porque, tendo plena confiança em Seu Pai, tudo tinha totalmente confiado aos Seus cuidados – a Sua vida, a Sua missão e a Sua glória. Quem confia plenamente em Deus e está certo da Sua Divina Providência, não se deixará facilmente atrair pelas vãs lisonjas do demônio, do mundo e da carne, pois sabe que só Deus lhe pode dar o verdadeiro bem, a verdadeira felicidade.

Além disso devemos cultivar a confiança em Deus no momento da tentação. Se Deus permite que sejamos tentados, não permite, porém, que o sejamos acimas das nossas forças e em cada tentação dá-nos uma graça atual suficiente para a vencer. Por isso, em vez de nos deixarmos perturbar pela violência da luta, aguardemos confiadamente a graça que Deus nos oferece e procuremos fazê-la nossa, mediante a oração humilde e confiante.

Colóquio – “Senhor, Pai e Deus, vida pela qual todos vivem e sem a qual tudo se deve considerar morto, não me abandoneis ao pensamento maligno e à soberba dos meus olhos; afastai de mim a concupiscência, e não permitais que seja vítima dum ânimo irreverente e insensato; mas tomai posse do meu coração a fim de que pense sempre em vós… Agora, ó Redentor, eu Vos suplico, ajudai-me a fim de que não caia em frente dos meus adversários, preso nos laços que armam a meus pés, para derrubar a minha alma; mas salvai-me, força da minha salvação, para não ser motivo de escárnio para os Vosso inimigos que Vos odeiam. Levantai-Vos, ó Senhor meu Deus, minha fortaleza; e os Vossos inimigos serão dispersos e fugirão da Vossa face aqueles que Vos odeiam. Como a cera se derrete ao fogo, assim desaparecerão os pecadores da Vossa face; e eu me esconderei em Vós e gozarei com os Vossos filhos, saciado de todos os Vossos bens. Vós, ó Senhor Deus, Pai dos órfãos, e Vós, Mãe dos desamparados, estendei as Vossas asas para que, debaixo delas, nos refugiemos, para nos salvarmos dos inimigos” (Sto Agostinho).

Sim, meu Deus e Salvador, confio em Vós! E sobretudo no momento da luta, quero refugiar-me em Vós com redobrada confiança porque “Vós sois o meu defensor… e me livrareis dos laços dos caçadores e de toda a calamidade. Como um escudo me cercará a Vossa fidelidade e não temerei os terrores noturnos nem as setas que voam de dia, nem a peste que vagueia nas trevas, nem o assalto e o demônio do meio dia… Vós sois, Senhor, a minha esperança e Vós, ó Altíssimo, o meu refúgio! Mandastes aos Vossos anjos que me guardassem em todos os Vossos caminhos e eles me levarão nas suas mãos para que os meus pés não tropecem em alguma pedra” (cfr. Sal. 90, 2-12).

Intimidade Divina, Meditações Sobre a Vida Interior Para Todos os Dias do Ano, P. Gabriel de Sta M. Madalena O.C.D. 1952.

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