O mistério trinitário

Ó meu Deus, Trindade que eu adoro, ensinai-me a conhecer-Vos e a amar-Vos.

1 – Como criaturas, não tínhamos direito algum a conhecer o mistério da Santíssima Trindade, que é o mistério da vida íntima de Deus; todavia Deus manifestou-no-lo porque não quis deixar-nos no estado de puras criaturas, mas quis elevar-nos ao de filhos e amigos. O Filho de Deus disse: “Já vos não chamarei servos, porque o servo não sabe o que faz o seu Senhor. mas chamei-vos amigos, porque vos dei a conhecer tudo aquilo que ouvi de meu Pai” (Jo. 15, 15); este tudo é exatamente o mistério da Santíssima Trindade que só Jesus, com Filho de Deus, viu e ouviu no seio do Pai.

Já no Antigo Testamento achamos alguma alusão a este mistério, contudo a sua revelação pertence ao Novo, ao testamento do amor, e pode afirmar-se que Deus quis reservar para Si a sua manifestação. Com efeito, não no-lo revelou por meio dos profetas, mas por meio do Seu Unigênito que é um só com Ele: “Ninguém jamais viu a Deus; – diz o Evangelista – o Filho Unigênito, que está no seio do Pai, Ele mesmo é que O deu a conhecer” (Jo. 1, 18). Jesus veio para nos referir o mistério da vida íntima de Deus; falou-nos de Si como sendo o Filho de Deus, em tudo igual ao Pai: “Quem me vê, vê também o Pai”, “porque eu estou no Pai e o Pai está em mim” (ib. 14, 9 e 11); falou-nos do Espírito Santo sem o qual não se pode chagar à vida eterna: “Quem não renascer por meio da água e do Espírito Santo, não pode entrar no reino de Deus” (ib. 3, 5) e disse-nos que Ele mesmo, juntamente com o Pai, nos, mandaria este Espírito o qual, por isso, procede ao mesmo tempo dEle, o Verbo, e do pai: “A vós convém que eu vá, porque… se for, eu vo-lO enviarei” (ib. 16, 7); “Eu pedirei ao Pai e Ele vos dará outro paráclito… isto é, o Espírito de verdade” (ib. 14, 16). Muitas vezes Jesus voltou a estes conceitos e assim nos ensinou que é bom para nós fixar o olhar no mistério altíssimo da Santíssima Trindade, para o admirar, louvar, para corresponder com amor a este Deus uno e trino que nos amou até nos introduzir no segredo da Sua vida íntima.

2 – Deus, bem sumo e infinito, basta-Se a Si próprio: no Seu próprio conhecimento e amor encontra toda a Sua felicidade. Sendo o Ser infinitamente perfeito, o conhecimento e o amor são nEle essencialmente fecundos e desta fecundidade brota o mistério da Sua vida íntima, o mistério trinitário. O Pai conhece-Se perfeitamente a Si mesmo desde toda a eternidade e, conhecendo-Se, gera o Verbo, Ideia substancial em que o Pai Se exprime e à qual comunica toda a Sua essência, divindade e bondade infinitas. O Verbo é, deste modo, “o resplendor da glória e a figura da substância” do Pai (Hebr. 1, 3); mas esplendor e imagem substanciais, porque têm em Si a mesma natureza e as mesmas perfeições do Pai. Desde toda a eternidade, o Pai e o Filho contemplam-Se mutuamente e amam-Se infinitamente em razão da perfeição infinita, indivisível, que ambos possuem: amando-Se, são atraídos um para o outro e um ao outro Se entregam comunicando toda a Sua natureza e essência divinas a uma Terceira Pessoa, o Espírito Santo, que é o termo, o penhor e o dom substancial do Seu mútuo amor. Assim, a mesma natureza e vida divinas circulam do Pai ao Filho, e do Filho e do Pai derramam-se no Espírito Santo. Deste modo, a Trindade apresenta-Se-nos como o mistério da vida íntima de Deus, mistério que brota daquelas operações perfeitíssimas de conhecimento e amor com que Ele Se conhece e ama a Si mesmo.

O mistério trinitário, melhor que nenhum outro, mostra-nos que o nosso Deus é o Deus vivo, que a Sua vida é essencialmente fecunda, tão fecunda que o Pai pode comunicar ao Filho toda a Sua natureza e essência divinas e o Pai e o Filho podem comunicá-las ao Espírito Santo sem ficarem delas privados, mas possuindo-as todos três com a mesma perfeição infinita. A Trindade, melhor que nenhum outro mistério, revela-nos a perfeição da bondade de Deus, isto é, diz-nos que Deus é bom, não só porque é o bem infinito, mas também porque comunica todo este Seu bem: do Pai ao Filho, do Pai e do Filho ao Espírito Santo. Nas obras que Deus realiza fora de Si derrama só parcialmente o Seu bem, mas no seio da Trindade comunica-o íntegra e necessariamente, de tal forma que a Sua vida íntima consiste nesta eterna, necessária e absoluta comunicação de todo o Seu bem, de todo o Seu Ser. O mistério trinitário faz-nos assim compreender que em Deus há um oceano ilimitado e inesgotável de bondade, de amor, de fecundidade e de vida; intuição preciosa porque, mais que qualquer outra, é capaz de desenvolver em nós o sentido da grandeza infinita de Deus.

Colóquio – “Deus incompreensível, eterna é a Vossa grandeza, inefável a Vossa bondade. Vejo, e deleito-me ao ver, as três Pessoas divinas fluírem uma na outra de um modo indizível e imprescrutável. O Pai derrama-Se no Filho, o Filho derrama-Se no Pai; o Pai e o Filho derramam-Se no Espírito Santo. Deus eterno, sois indizivelmente bom, Vós que, por bondade, comunicais à criatura, consciente do seu nada, algum conhecimento do Vosso Ser eterno; contudo, por mais admirável que seja esta comunicação, pode dizer-se com toda a verdade que é um puro nada em comparação com a que na realidade existe entre Vós e a criatura” (cfr. Sta M. Madalena de Pazzi).

“Ó sumo e eterno Bem, quem Vos moveu, Deus infinito, a iluminar-me, a mim, Vossa criatura finita, com a luz da Vossa verdade? Vós mesmo, fogo de amor, sois disso a causa. Pois foi sempre o amor que Vos constrangeu e Vos constrange a usar conosco de misericórdia, outorgando excessivas e infinitas graças as criaturas. Ó bondade acima de toda a bondade! Só Vós sois Aquele que é sumamente bom! Vós destes-nos o Verbo, o Vosso Unigênito Filho, para que viesse conversar conosco, que somos barro e estamos cheios de trevas. Qual é a causa deste dom? O amor, porque nos amastes antes de existirmos.

“Ó Trindade eterna! E quem poderá chegar às Vossas alturas e render-Vos graças por tão imenso dom e por tão copiosos benefícios que me concedestes, e pela doutrina da verdade que me ensinastes? Respondei Vós Senhor! Vós que os destes, respondeis e satisfazeis, infundindo em mim uma graça de luz a fim de que eu, com esta mesma luz, Vos possa agradecer” (Sta Catarina de Sena).

Intimidade Divina, Meditações Sobre a Vida Interior Para Todos os Dias do Ano, P. Gabriel de Sta M. Madalena O.C.D. 1952.

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