O sacramento da união

Ó Jesus que me alimentais com o Vosso Corpo e com o Vosso Sangue, fazei que eu viva de Vós, da Vossa vida.

1 – No Seu discurso acerca do “pão da vida”, Jesus apresentou-nos a Eucaristia como o sacramento da nossa união com Ele: “O que come a minha carne e bebe o meu sangue, fica em mim e eu nele” (Jo. 6, 57). É uma verdadeira compenetração de Cristo em nós e de nós em Cristo. Evidentemente, a vida de Jesus e a nossa, a Sua Pessoa e a nossa, continuam distintas, e todavia Ele penetra de tal maneira em nós com a Sua vida, o Seu Espírito, a Sua Divindade, que nós ficamos mergulhados nEle e Ele me nós. “O Corpo e o Sangue de Cristo que comemos – afirma Sto Hilário bispo – fazem com que nós estejamos em Cristo e Cristo em nós. Ele, portanto, está em nós e nós nEle pela Sua Carne e – conclusão maravilhosa! – com Ele está em Deus tudo o que nós somos”. Nunca como no momento da Comunhão sacramental estamos tão unidos a Jesus, tão compenetrados e transformados por Ele, deificados e mergulhados na Divindade: “Com Ele está em Deus tudo o que nós somos”.

É verdade que também pela fé e pela graça estamos unidos a Cristo e inseridos nEle como Seus membros, mas esta união iniciada no batismo, atinge a sua plenitude máxima na Eucaristia. Por este Sacramento Jesus “une-Se de tal modo a nós, que formamos um só corpo com Ele, e não só pela fé, mas efetivamente e na realidade” (S. João Crisóstomo). Também a união com Cristo, pela fé e pela graça, é uma união efetiva e real, mas na Comunhão temos, além disso, a união física com Cristo; então, ainda que por breves instantes, temo-lO em nós, tal como Maria Santíssima O teve nove meses no seu seio puríssimo. E se juntamos a esta união física a união moral, que consiste na conformidade plena da nossa vontade e das nossas aspirações com a vontade de Deus e o Seu beneplácito, a Comunhão torna-se verdadeiramente para nós o momento da mais alta união com Deus que podemos atingir neste mundo.

2 – Mas Jesus vai mais longe e para nos explicar melhor a profunda união que se estabelece entre Ele e a alma do comungante, não hesita em compará-la à união que existe entre Ele e Seu Pai: “Assim como o Pai que vive me enviou e eu vivo pelo Pai, assim o que me comer a mim, esse mesmo também viverá por mim” (Jo. 6, 58). Jesus vive porque o Pai Lhe comunica a vida, toda a vida de Jesus procede unicamente do Pai; não tem outra vida fora daquela que o Pai lhe comunica. Do mesmo modo, quem se alimenta da Eucaristia vive da vida que Jesus Lhe comunica, ou seja, vive da Sua vida; vida que já recebeu, sem dúvida, por meio do batismo ou da penitência, mas que na Comunhão recebe mais imediatamente de Jesus porque Ele próprio, em pessoa, lha vem trazer, ou antes, a vem viver nele. Jesus vive pelo Pai, porque o Pai é a única fonte da Sua vida; e o comungante vive por Jesus, porque Jesus ao fazer-Se seu alimento, Se torna, do modo mais direto, mais íntimo e mais profundo, a fonte da sua vida. Mas podemos considerar também as palavras de Jesus sob outro aspecto: tendo recebido do Pai toda a vida e todo o ser, Jesus vive também pelo Pai, quer dizer, só vive para a Sua glória, empregando tudo quanto dEle recebeu para cumprir a missão que Ele Lhe confiou, para fazer a Sua santa vontade. Assim deve acontecer ao comungante: não mais deve viver para si, não mais deve viver uma vida egoísta, uma vida limitada aos cuidados e interesses terrenos; mas deve viver para Jesus para os Seus interesses, para a Sua glória. Deve viver de Jesus, fonte da sua vida; deve viver em Jesus que, alimentando-o todos os dias com a Sua Carne, o estreita e o une mais intimamente a Si; deve viver para Jesus, consagrando-Lhe todas as suas forças e capacidade, entregando-se totalmente ao Seu serviço. Aquela vida divina que Jesus nos comunica deve encontrar a nossa alma um terreno propício ao seu pleno desenvolvimento – terreno livre de soberba, de egoísmo, de apego ás criaturas – e assim produzir obras dignas de Jesus e que Lhe sejam agradáveis. Como Jesus vivei para a glória do Pai “que o enviou” (Jo. 7, 18), assim devemos nós viver para a glória de Cristo que, fazendo-Se nosso alimento, nos tornou participantes da Sua vida.

Colóquio – “Ó Senhor, até onde Vos leva o amor? Leva-Vos até Vos entregardes á Vossa criatura, até lhe entregardes o Vosso Corpo e Sangue em alimento e bebida. E por quanto tempo? Oh! Deus meu, Vós mesmo o dissestes: até à consumação dos séculos! A fim de que Vos possamos possuir não uma só vez, não cada ano, não cada mês, não cada semana, não; mas cada dia, cada manhã Vos possamos receber e cada vez que quisermos, possamos ter-Vos dentro de nós e estar conVosco à nossa vontade. Ó grande bondade do meu Esposo, o Verbo! Ó miserável de mim que tantas riquezas tenho e tão pouco fruto tiro delas! Porém ainda é mais infeliz quem desconhece este dom e não se importa de estar privado dele por muitos anos, ou quem o recebe em pecado mortal de modo que este Pão da vida se torna para ele alimento de morte. Peço-Vos, Senhor, por estas almas: não olheis à sua falta de méritos, mas sim à Vossa bondade; convertei-as para que reconheçam o grande mal que fazem a si próprias e á Vossa infinita bondade.

“Mas, Senhor, quando a alma Vos recebe com as disposições devidas, pode dizer-se dela o que se diz de Maria Santíssima: ‘ditosa sois vós, pois levais em vosso seio Aquele que os céus não podem conter!’ E assim como Maria está vestida de sol, a alma que Vos recebe está vestida de sol, por que sois Vós o Sol, ó Sol de justiça, Cristo nosso Deus.

“Quanto a mim, Senhor, parece-me estar-Vos mais obrigada por Vos terdes dado a mim como alimento, do que por me terdes criado; pois se me tivésseis criado e não Vos tivésseis dado a mim, que poderia eu fazer? E assim me mostrais quanto quisestes comunicar-Vos a nós porque não Vos contentastes com Vos comunicardes aos homens durante os trinta anos que vivestes na terra, mas, além disso, quisestes deixar-nos o Vosso Corpo e Sangue, a fim de que nós pudéssemos estar sempre em Vós e Vós em nós. E desta forma, estando na alma, Vós a ides, por assim dizer, deificando e transformando em Vós; comunicais continuamente com ela e tende-la unida a Vós” (Sta Maria Madalena de Pazzi).

Intimidade Divina, Meditações Sobre a Vida Interior Para Todos os Dias do Ano, P. Gabriel de Sta M. Madalena O.C.D. 1952.

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