O teatro

Ora na presença do Senhor, e evita as ocasiões de pecado (Ecl. XVII, 22).

Oxalá que os homens se desvelassem tanto por conseguir a formosura da alma, como se empenham por alcançar a do corpo! Então guardariam com a máxima vigilância as portas da alma, para que no interior do santuário não penetrasse nada que pudesse empanar-lhe o esplendor.

Por isso diz o Salmista: Desviai os meus olhos da vaidade para que não a vejam (1). E o Sábio avisa-nos com estas palavras: Ora na presença do Senhor, e evita as ocasiões de pecado (2). E tu mesma dizes muitas vezes quando rezas: Não nos deixeis cair em tentação.

Se fazes com sinceridade este pedido, então não vás ao teatro.

Lá encontram-se estreitamente unidos centenas e milhares de espectadores que ali foram só para gozar dos prazeres sensíveis no meio de uma atmosfera carregada de miasmas corruptores.

Pelos olhos e pelos ouvidos, como por portas abertas de par em par, penetram a sedução da música, da luz e das cores. Quando o pano de boca se levanta, os espectadores sentem-se transportados como por encanto, a um mundo novo. As cenas vão-lhe sucessivamente despertando o interesse. Como o mar que violenta tempestade revolvesse até ao fundo, também o espírito ali se sente vivamente agitado pelos afetos mais diferentes de amor, admiração, compaixão, ódio, temor e alegria.

Nos dramas históricos, em que um grande personagem ao cabo de duros combates com inimigos poderosos, nos é apresentado como triunfador da traição e da vileza, devem esses sentimentos tão fortes exercer no espírito do espectador uma influência purificadora, nobre e levantada.

Mas o drama histórico desaparece da cena quase por completo para dar lugar a obras de uma invenção sem sabor, a poesias na maior parte de uma valor muito duvidoso, ou a histórias amorosas dum baixo nível moral.

A cena moderna decaiu mais ainda. Nela reina desenfreado o culto da carne, pervertem-se todas as noções da moral mais sã, e o vício é aplaudido debaixo da forma mais vergonhosa.

E a melhor prova do estado de degradação a que desceu a sociedade contemporânea, é que nem a semelhantes pelas faltaram jamais espectadores, nem os empresários hesitam em explorar as paixões mais vis para terem a casa atulhada de público e o erário abarrotado de dinheiro.

O teatro romano tinha um nível mais elevado: o mundo pagão deleitava-se é certo com o espetáculo sangrento dos gladiadores e com o martírio dos primeiros cristãos: mas ao menos só dali saíam mal feridos os corpos. Do teatro moderno saem as almas feridas de morte.

Verdadeiramente, isto não é concorrer para a educação moral.

Como veem aqui o propósito as palavras de Cristo: Se a tua vista direita te escandaliza, arranca-a, e arremessa-a para longe de ti: porque melhor é que pereça um só membro, do que ser todo o corpo lançado no inferno (3).

A Virgem Prudente, Pensamentos e Conselhos acomodados às Jovens Cristãs, por A. De Doss, S.J. versão de A. Cardoso, 1933.

(1) Salm. CXVIII, 37.
(2) Ecl. XVII, 22.
(3) Mat. V, 29.

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