Obediência sobrenatural

Ó Jesus, ensinai-me a ver-Vos só a Vós nos meus superiores.

1 – Eis uma lição magnífica de S. João da Cruz: “Não consideres nunca o teu superior menos que Deus, seja ele quem for, pois o tens em Seu lugar” (Ct. 12). Se não tens este olhar sobrenatural que te faz ver Deus na pessoa do superior, a tua obediência não poderá ser sobrenatural. Para o ser, é necessário seres impelido por este único motivo: obedeço porque o meu superior representa Deus, fala-me em Seu lugar; o meu superior é Cristo: “Hic est Christus meus”.

Não deves obedecer pela confiança humana na pessoa do teu superior: porque é inteligente, prudente, capaz, porque te compreender e aprecia, etc.; isto é obediência humana, fruto da prudência humana, é uma to capaz, porque te compreende e aprecia, etc.; isto é obedecer porque o que te mandaram é o mais perfeito; este não é ainda o verdadeiro motivo da obediência, que consiste unicamente em obedecer porque Deus quer tudo o que o superior ordena. Só há uma exceção: se o superior mandasse cometer um pecado, coisa que Deus certamente não poderia querer, ou se as suas ordens não estivessem de acordo com a regra e estatutos a que te submeteste, pois tais ordens, não seriam legítimas. Quanto ao resto, não deves pôr nenhuma reserva na tua obediência. Nunca deves hesitar, temendo que o superior te pela uma ação menos perfeita, porque, mesmo que ele te ordenasse uma coisa objetivamente menos perfeita que outra (por exemplo, repousar em vez de trabalhar), para ti seria a mais perfeita pelo simples fato de que, se o superior te a ordenasse seria precisamente isso e não outra coisa o que Deus queria de ti nesse momento. Pode muito bem acontecer que vejas, em abstrato, a possibilidade de fazer uma coisa mais perfeita do que a que te é mandada, e que o teu modo de pensar seja melhor que o do superior, mas em concreto não há dúvida: não há para ti nada de mais perfeito do que fazer o que Deus te manda por meio do superior.

2 – Se não deves basear a tua obediência num motivo de confiança humana nas qualidades do teu superior, deves no entanto baseá-la na confiança sobrenatural, ou seja, na confiança no governo sobrenatural do Senhor através dos superiores que Ele te deu. E se alguma vez te encontrares diante de superiores menos retos, menos virtuosos, não tens motivo para temer: a fé ensina-te que Deus domina e governa tudo e que não há vontade humana que possa subtrair-se à Sua divina vontade. Ainda que o superior se enganasse ou te ordenasse uma coisa em si boa ou indiferente, mas por um motivo menos reto, Deus saberia sempre valer-Se dos seus erros par ao bem da tua alma, e servir-Se-ia das suas intenções pouco retas, para te levar a fazer o que Ele quer de ti. Uma coisa é certa: Deus governa-te por meio dos teus superiores e estes não são independentes de Deus, mas o próprio Deus serve-Se deles como de instrumentos que pode manejar à Sua vontade. Recorre, pois, ao teu superior com toda a confiança porque, recorrendo a ele, recorres a Deus, obedecendo-lhe, obedeces a Deus. Uma semelhante obediência é inteiramente sobrenatural e põe-te em contato direto coma vontade de Deus.

Procedendo doutra maneira te “farás tanto dano que vorás a mudar a obediência de divina em humana… E a tua obediência será vã ou tanto mais infrutuosa, quanto mais te agravares com a índole adversa do teu prelado ou com a sua boa e agradável índole te alegrares. Porque – adverte S. João da Cruz – por ter o demônio feito com que considerassem as coisas desta forma, pondo os olhos nestas coisas acerca da obediência – arruinou na perfeição a muitíssimos religiosos, e suas obediências são de muito pouco valor aos olhos de Deus” (Ct. 12).

Se queres que a tua obediência tenha todo o seu valor, fixa o teu olhar unicamente em Deus, “a quem serves no teu superior” (ib).

Colóquio – Ó Senhor, aumentai o meu espírito de fé, para que Vos possa ver sempre vivo na alma dos meus superiores, para que diante deles eu saiba repetir espontânea e sinceramente: “hic es Christus meus!” É somente através da obediência, que me será possível uma vida de contínua intimidade conVosco. Se no sacramento do altar Vos encontrais vivo e palpitante sob o véu das espécies eucarísticas, sempre pronto a acolher e a alimentar a minha alma, também Vos posso encontrar, embora de maneira diferente, escondido na pessoa dos meus superiores, através dos quais me falais, sempre pronto a esclarecer as minhas hesitações, a manifestar-me a Vossa santa vontade, a dirigir-me, a guiar-me pelo caminho que desde toda a eternidade, escolhestes para a minha santificação.

Porque me detenho então, Senhor, nas aparências humanas dos meus superiores? Isto só me serve de impedimento para Vos encontrar na sua pessoa, para reconhecer na sua, a Vossa vontade. Ajudai-me, Deus meu, a ultrapassar todas as facetas humanas da obediência, a fim de me pôr em contato conVosco, com a Vossa divina vontade. Assim como na Eucaristia não me devo deter nas espécies criadas do pão e do vinho, do mesmo modo na obediência não devo parar na pessoa do superior, mas considerar só a Vossa vontade que se manifesta através das aparências duma ordem, duma autoridade humana. Ó Jesus, que grande mistério! A Eucaristia dá-me o Vosso Corpo, o Vosso Sangue, a Vossa divindade: eis o poder do sacramento por Vós instituído; a obediência dá-me a Vossa vontade, põe-me em comunhão com ela; eis o poder da autoridade por Vós constituída.

Ó Senhor, depois de ter compreendido esta verdade tão profunda, ousarei ainda discutir e hesitar perante as ordens dos meus superiores? “”Não seria coisa estranha que estando-me Vós a dizer claramente que vá fazer uma coisa que Vos interessa não quisesse obedecer sob pretexto de fazer outra coisa mais a meu gosto? Bela maneira de avançar no amor de Deus! Seria atar-Vos as mãos parecendo que não me podeis fazer aproveitar senão por um caminho!” (cfr. T.J. Fd. 5, 5). Não, Senhor, não; seguir-Vos-ei para toda a parte para onde me quiserdes conduzir por meio da santa obediência.

Intimidade Divina, Meditações Sobre a Vida Interior Para Todos os Dias do Ano, P. Gabriel de Sta M. Madalena O.C.D. 1952.

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