Ad Gloriam Dei et Salutem Animarum
Arsenal
CAtólico
Fonte da imagem: Dominus Est

Principais razões pelas quais nos colocamos na presença de Deus

A pressa é um dos maiores traidores que a devoção e verdadeira virtude possa encontrar. Simula aquecer-nos no bem, mas é só para nos arrefeçer, e não nos faz correr senão para nos fazer tropeçar. É por isto que nos devemos resguardar dela em todas as ocasiões, e particularmente na oração.

E, para vos auxiliar nisso, lembrai-vos de que as graças e bens da oração não são águas da terra, mas do céu, e que portanto todos os nossos esforços não as podem adquirir. Devemos ter o coração aberto para o céu e aguardar o santo orvalho. E nunca vos esqueçais de trazer à oração esta consideração: nela é que nós nos aproximamos de Deus e nos colocamos na sua presença, por duas razões principais.

A primeira é para prestarmos a Deus a honra e a homenagem que lhe devemos, e isto pode fazer-se sem que ele nos fale, nem nós a ele; pois esse dever se cumpre reconhecendo que ele é nosso Deus e nós suas vis criaturas, e permanecendo diante dele prostrados em espírito, aguardando as suas ordens. Quantos cortesãos não há que vão cem vezes à presença do Rei, não para lhe falar, nem para ouvi-lo, mas simplesmente a fim de serem por ele vistos e testemunharem, por essa assiduidade, que são seus servos? E esse intuito de nos prostrarmos diante de Deus só para testemunharmos e protestatmos a nossa vontade e reconhecimento no seu serviço é muito excelente, muito santo e muito puro, e, por conseguinte, de grandíssima perfeição.

A segunda causa pela qual nos apresentamos diante de Deus é para falar com ele e ouvi-lo falar-nos por suas inspirações e movimentos interiores; e ordinariamente isto se faz com prazer mui delicioso, por isto que grande bem nos é falar a tão grande Senhor, e, quando ele responde, derrama mil bálsamos e unguentos preciosos, que dão grande suavidade.

Ora, um desses dois bens nunca nos pode faltar na oração. Se pudermos falar a Nosso Senhor, falemos; louvemo-lo, roguemo-lo. Se não pudermos falar, por estarmos roucos, fiquemos contudo no quarto e façamos-lhe reverência; ele nos verá lá, aceitará a nossa paciência e favorecerá o nosso silêncio. De outra vez, ficaremos tão deslumbrados, que ele nos tomará pela mão, e conversará conosco, e dará cem voltas conosco pelas aléias do seu jardim de oração; e, quando nunca o fizesse, contentemo-nos com que seja nosso dever andar atrás dele, e que grande graça e honra extrema nos seja o sofrer-nos ele em sua presença. Destarte, não nos apressaremos para lhe falar, visto que a outra ocasião de estarmos ao pé dele não nos é menos útil, e talvez seja até muito mais, conquanto um pouco menos agradável ao nosso gosto.

Quando, pois, vierdes ao pé de Nosso Senhor, falai-lhe se puderdes; se não puderdes, ficai aí, fazei-vos ver e não vos deis pressa de outra coisa.

O Segredo da Salvação, A Lembrança da presença de Deus e as Orações jaculatórias, extraído das Obras de S. Francisco de Sales, por Fernando Millon, Missionário de S. Francisco de Sales, 1952.

Última atualização do artigo em 12 de setembro de 2026 por Arsenal Católico