Quarto Domingo depois de Pentecostes – Pe. Júlio Maria, S.D.N.

IV Domingo depois de Pentecostes (Luc. 5, 1-11)

  1. Naquele tempo, estava Jesus no lago de Genezaré, e a multidão do povo se atropelava para ouvir a palavra de Deus.
  2. E viu duas barcas que estacionavam à borda do lago: e os pescadores tinham saído e lavavam as redes.
  3. E entrando numa destas barcas, que era a de Simão, rogou-lhe que se afastasse um pouco da terra. E estando sentado, ensinava o povo da barca.
  4. E quando acabou de falar, disse a Simão: Faze-te mais ao largo, e lançai as vossas redes para pescar.
  5. E respondendo, Simão disse-lhe: Mestre, tendo trabalhado toda a noite, e não apanhamos nada: porém, sob a tua palavra lançarei a rede.
  6. E tendo feito isto, apanharam grande quantidade de peixes, e a sua rede se rompia.
  7. E fizeram sinal aos companheiros que estavam na outra barca, para que os viessem ajudar. E vieram e encheram tanto ambas as barcas, que quase se afundavam.
  8. E Simão Pedro, vendo isto, lançou-se aos pés de jesus dizendo: Retira-te de mim, Senhor, pois eu sou um homem pecador.
  9. Porque tanto ele como todos os que se encontravam com ele focaram possuídos de espanto, por causa da pesca de peixes que tinham feito:
  10. E o mesmo tinha acontecido a Tiago e a João, filho de Zebedeu, que eram companheiros de Simão.
  11. E trazidos as barcas para a terra, deixando tudo, seguiram-no.

PAPADO E EPISCOPADO

O Evangelho diz que havia duas barcas que estavam à margem do lago, uma pertencendo a Pedro, a outra a Tiago e João.

É um fato que escapa, às vezes, às nossas reflexões, mas que tem a sua importância, a sua significação misteriosa.

A barca de Pedro é o papado; ela pertence ao Chefe dos Apóstolos, é nela que Jesus entra e donde Ele ensina, de modo que quem estiver com o Papa, está com Jesus Cristo.

A outra barca é a dos Apóstolos ou do Episcopado; quem entra nela é colaborador de Pedro, ou do Papa, na pesca das almas.

Façamos, pois esta dupla aplicação:

  1. A BARCA DE PEDRO é a imagem do Papado.
  2. A BARCA DOS APÓSTOLOS é a imagem do episcopado.

I. A BARCA DE SÃO PEDRO: O PAPADO

Jesus Cristo é e permanece para sempre o Chefe da Igreja; porém, subindo ao céu, Ele quis ter aqui na terra um delegado, um representante, que fosse o chefe visível de todos os fiéis, dos quais Ele é o Chefe invisível.

É a lei básica da unidade da Igreja.

Jesus escolheu Pedro entre os doze Apóstolos: Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja (Mat. 16, 18).

Uma outra vez Jesus disse: Confirma os teus irmãos. (Luc. 22, 32).

E ainda: Apascenta os meus cordeiros, apascenta as minhas ovelhas. (Jo. 21, 15-17).

A exegese, de acordo com a Tradição, nos diz que os cordeiros são os chefes, os pastores, e que as ovelhas são os fiéis.

É como se Jesus Cristo dissesse: Tu és Pastor Supremo dos Bispos e dos Padres.

Resulta disso que a Igreja é exclusivamente construída sobre Pedro, ao ponto que aquele que não está com Pedro não pertence à Igreja de Jesus Cristo.

Resulta ainda disso que Pedro não recebeu uma simples primazia de honra sobre os demais Apóstolos, mas de jurisdição: ele fica encarregado de conduzir aqueles que são condutores dos outros.

E tudo isto é tão íntimo e inseparavelmente unido nas palavras do divino mestre, que se São Pedro não tivesse autoridade sobre os outros Apóstolos, estes não a teriam sobre os fiéis.

Mas Pedro não é imortal, ele deve morrer; é pois, necessário que tenha sucessores, que constituem a sua obra, e sejam, por sua vez, os representantes de Jesus Cristo, na terra.

Devendo confirmar os seus irmãos, é preciso que Pedro não possa errar, ou seja infalível, ele e todos os seus sucessores.

II. A BARCA DOS APÓSTOLOS: O EPISCOPADO

A primazia de Pedro não destrói a existência nem a autoridade do Colégio Apostólico.

Ficara este submisso a Pedro, porém, junto com ele, fica encarregado de conduzir e de governar a Igreja.

Por isso, os Bispos, sucessores dos apóstolos, formam, junto com o Papa, a Igreja docente.

Ninguém pode ser Bispo sem o Papa; e o Papa não pode deixar de nomear Bispos.

Eis que eu estou convosco, todos os dias, até à consumação dos séculos. (Mat. 28, 18), disse o Salvador aos Apóstolos. Deve, pois, estar com eles à condição de eles estarem com o Papa, como os Apóstolos estavam com Pedro.

Além de sua colaboração no ensino e no governo da Igreja universal, os Bispos estão geralmente encarregados, cada um, de uma diocese, isto é: de um território determinado no domínio da Igreja.

O Bispo é enviado à diocese pelo Papa e deve governar a diocese sob a autoridade do Papa.

Esta submissão ao Papa não só não diminui a autoridade do Bispo, mas eleva-o e lhe dá uma consagração divina; pois Jesus Cristo quer que assim seja, e onde está Pedro, ali está a autoridade da Igreja.

Sob a autoridade, e como seus auxiliares, na diocese, há os sacerdotes, os padres, que completam a harmoniosa hierarquia da Igreja.

Os Padres são os sucessores dos 72 discípulos, escolhidos pelo Salvador, para anunciar o Evangelho ao povo.

Os poderes dos Padres, como os dos Bispos, como os do Papa, vêm diretamente de Jesus Cristo, mas eles se exercem sob a dependência hierárquica estabelecida por ele mesmo.

Os Bispos exercem os seus poderes sob a direção do Papa; os Padres exercem-nos sob a direção dos Bispos.

III. CONCLUSÃO

Tal é a bela e harmoniosa hierarquia estabelecida por Jesus Cristo.

O Papa é o princípio de toda autoridade.

O Bispo é o como o verbo do Papa, em sua diocese.

O Padre, unido ao Papa e ao Bispo, é como o santificador das almas, em sua paróquia.

É pelo Padre que os fiéis se unem ao Bispo e ao Papa.

Onde há um grupo de almas há uma paróquia.

Onde há um grupo de paróquias há um Bispo.

A reunião das dioceses forma o reino do Papa.

Todos os Bispos estão representados pelo Papa.

Eis a unidade perfeita que só existe e só pode existir na Igreja divina de Jesus Cristo.

As seitas religiosas procuram imitar esta organização divina; nunca, porém, souberam reproduzi-la, porque o divino não se reproduz.

Amor, pois, e submissão à Igreja divina de Jesus Cristo e à hierarquia por Ele estabelecida.

É a barca de Pedro, a única que Deus sustenta e guia, e por isso a única donde fala Jesus Cristo, e pela qual Ele leva as almas para o céu.

Comentário Dogmático, Padre Júlio Maria, S.D.N., 1958.

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