São Cirilo

Cirilo, o grande Arcebispo de Jerusalém, nasceu em 315 em Jerusalém ou num lugar vizinho. Sua mocidade passou-a Cirilo santamente em trabalho e oração. Prova da sua aplicação são as célebres Catequeses, nas quais Cirilo revela um conhecimento admirável da Escritura sagrada, dos santos Padres e das opiniões dos hereges, principalmente dos manicheus. Tudo indica que Cirilo tenha vivido numa comunidade religiosa, e que seu preparo e santidade tenha chamado a atenção do Bispo Macário de Jerusalém. Tendo apenas 19 ou 20 anos, Cirilo foi ordenado diácono e nesta qualidade dirigiu em Jerusalém as classes dos catecúmenos, preparando-as à recepção do sacramento do Batismo. Em 350 foi eleito Bispo de Jerusalém. Célebre na história ficou um acontecimento que se deu por ocasião da tomada da posse de S. Cirilo, ele mesmo o relata numa carta ao imperador Constâncio, do seguinte modo: “Aos sete de Maio, pela hora terceira de dia (às 9 horas da manhã) apareceu no céu uma grande luz em forma de uma cruz, que se estendia do Monte Calvário até o monte Olivete. Este fenômeno foi observado não por uma ou outra pessoa, senão pela população inteira da cidade. Também não se tratou de uma aparição rápida, pelo contrário, a luz brilhou diante de nossa vista durante algumas horas, e com esplendor tal que o próprio sol não a ofuscou. Os espectadores, tomados de medo e alegria ao mesmo tempo, corriam em chusma para a Igreja. Velhos e moços, fieis e infiéis, nacionais e estrangeiros uniram as suas vozes em louvor a Nosso Senhor Jesus Cristo, Filho Unigênito de Deus, que com seu poder fez este milagre. Todos eles reconheceram a divindade da religião, testemunhada pelo próprio céu.” Este milagre é confirmado por diversos escritores contemporâneos e como tal reconhecido por muitos representantes da ciência. Na Igreja grega é festejada a comemoração desta aparição no dia sete de Maio.

Cirilo compenetrado da grande responsabilidade de Bispo, opôs-se com toda energia à heresia ariana, embora esta sua atitude lhe importasse o desagrado do imperador Constantino e o ódio e a perseguição dos bispos arianos. Um deles, Acácio, bispo em Cesárea, contra o qual Cirilo se viu envolvido num processo em questão de jurisdição, envidou todos os esforços para perdê-lo. Para este fim apelou para um concílio, composto exclusivamente de bispos arianos, o qual decretou contra Cirilo a deposição. Entre outras acusações levantaram também está de ter ele esbanjado os bens da Igreja e profanado os santos vasos litúrgicos, dando-lhes um destino profano. Esta acusação tinha um fundo de verdade. No tempo duma grande carestia e fome, Cirilo, vendo a miséria do povo e não tendo mais recursos para alivia-la, lançou mão de alguns vasos litúrgicos e de algumas preciosidades da propriedade eclesiástica e vendeu-as para salvar os pobres da morte. Em vista da guerra que lhe faziam, Cirilo saiu de Jerusalém. Exilado da sua diocese, achou agasalho em Tharso, onde o Bispo Silvano o recebeu com todas as honras e onde ficou até o ano de 359. Naquele ano o concílio de Selêucia restabeleceu-o em sua dignidade. Os arianos, porém, conseguiram, que um outro concílio celebrado em Constantinopla o depusesse outra vez.

Quando o novo imperador Juliano reintegrou todos os Bispos expulsos, Cirilo voltou em triunfo para sua diocese. Pouco tempo depois deu-se em Jerusalém um fato extraordinário, ligado à apostasia rancorosa de Juliano. Tendo ele jurado o extermínio da religião cristã, um dos seus empenhos foi desacreditar seu autor e provar ao mundo que Jesus Cristo não é Deus. Concebeu o plano de reedificar o templo de Jerusalém, cujas ruínas datavam da destruição por Tito em 70. As obras começaram com muito entusiasmo, também da parte dos judeus. Deus, porém, confundiu o plano. Ammiano Marcelino, pagão historiador e amigo de Juliano, e, portanto, testemunha insuspeita escreveu sobre aquele movimento: “Entretanto Alípio, auxiliado pelo governador, começou as obras com muita energia. Quando, porém, as operárias se puseram a trabalhar saíram dos fundamentos labaredas de fogo que não deixaram ninguém se aproximar. Como o elemento (isto é o fogo) todos os dias repelisse os pedreiros, foi resolvido abandonar a obra”.

O que Ammiano Marcelino conta, afirmam-no outros escritores como S. Gregório de Nazianze e Theodoreto, Rufino, Sócrates e Sozomeno. Juliano, em consequência deste fracasso, parecia ter concentrado seu ódio no santo Bispo de Jerusalém, mas Deus não permitiu que o imperador executasse o que projetava; pois numa expedição contra os persas, Juliano perdeu a vida. Em 367 S. Cirilo foi obrigado mais uma vez a comer o pão do exílio, por determinação do imperador Valente; morrendo este, em 368, Cirilo voltou outra vez para Jerusalém.

Cuidava o Bispo, de modo especial, da conservação da fé no meio dos perigos que a ameaçavam da heresia ariana, tão poderosamente apoiada por alguns imperadores. Em 381 Cirilo tomou parte no concilio ecumênico de Constantinopla. Em 386 foi descansar das lutas e receber a recompensa eterna.

As obras de S. Cirilo são de grande valor. Nelas vemos estampada a religião católica como nós a conhecemos. Cirilo fala da santa Missa, chamando-a “o Sacrifício incruento, o Sacrifício propiciatório, o culto de Deus mais sublime”. Muito claras e positivas são suas expressões sobre o mistério da real presença de Jesus Cristo no SS. Sacramento.

REFLEXÕES

1. O estigma da heresia foi sempre e é o orgulho. A humildade foi sempre e é o baluarte, em defesa mais segura da fé. Disse Santo Agostinho: “Há diversos caminhos que conduzem ao conhecimento da verdade, o primeiro é o da humildade, humildade é o segundo e o terceiro é ainda a humildade. “Eu fiquei crente, porque pus-me a crer o que não compreendia.” Santo Agostinho foi uma das inteligências mais esclarecidas que o mundo jamais possuiu. O orgulho gerou as heresias antigas e novas. O arianismo, o nestorianismo, o luteranismo, o calvinismo, o metodismo, o espiritismo são suas legítimas filhas. Todas elas invocam em seu favor a Bíblia, devendo esta servir, o que é grande absurdo, de documentação para todos os erros. A Bíblia pode ser e é interpretada de muitos modos, daí se segue a dificuldade de sua explicação. Se fosse ela fácil, porque os discípulos de Emaús pediram a Nosso Senhor que lhes explicasse a Escritura? Porque o eunuco da rainha dos Etíopes respondeu ao Apóstolo Philippe que o perguntava se tinha compreendido o que lera na Bíblia: “Como poderia compreende-lo, não tendo quem mo explicasse?” Muitas cousas da Bíblia os próprios Apóstolos não compreenderam, apesar das repetidas explicações que delas tiveram de Nosso Senhor. Como se justifica a grande divergência que há na explicação da Bíblia entre os hereges? A Bíblia deve ser considerada como um código de verdades, havendo uma só autoridade competente que a interprete autenticamente. À explicação desta autoridade todos devem sujeitar-se e reconhecer como a única verdadeira. O orgulho não se conforma com isto, alegando nada mais ser preciso para a explicação da Bíblia que a razão humana e a assistência do Espírito Santo. A regra da fé deve ser simples, clara, una, constante e universal, por isso não pode depender da razão humana. Todos os homens normalmente desenvolvidos têm inteligência, o que não impediu que até hoje tivesse reinado entre eles a maior divergência de ideias em matéria da fé. A inspiração do Espírito Santo por nenhum sinal sensível se manifesta e qualquer um pode reivindica-la para si, sem que outros lh’a possam disputar. Assim procedem os luteranos, os calvinistas, os metodistas, que ensinam doutrinas contraditórias. Não, a razão humana não pode ser o critério da verdade na interpretação da Bíblia. Dos hereges diz S. Paulo muito bem: “Aprendendo sempre, nunca chegam ao conhecimento da verdade.” (2. Tim. 3, 7.) A doutrina por elas apregoada hoje, amanhã é rejeitada; os hereges, com a Bíblia na mão, contestaram já a divindade de Cristo, a eternidade do inferno, a existência e divindade do Espírito Santo, o pecado original, a autenticidade da Bíblia e muitos outros pontos do dogma, é onde se chega quando se afasta da Igreja católica. Só a ela foi dito: “Convosco estou todo o tempo até a “consumação dos séculos.” (Math. 28, 20) Quem ouve a Igreja, ouve a Cristo, e Cristo é a verdade, o caminho e a vida.

Na Luz Perpétua, Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus para todos dos dias do ano, apresentadas ao povo cristão por João Batista Lehmann, Sacerdote da Congregação do Verbo Divino, Volume I, 1928.

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