“Vem e segue-me”

Ó Jesus, que por nós Vos fizestes obediente até à morte de cruz, ensinai-me a seguir o Vosso exemplo.

1 – Ao jovem que desejava alcançar a perfeição, Jesus disse: “Se queres ser perfeito, vai, vende o que tens e dá-o aos pobres [é o conselho da pobreza evangélica] depois vem e segue-me” (Mt. 19, 21) e este, ensina S. Tomás, é o conselho da obediência voluntária. Com efeito, seguir Jesus significa imitar as Suas virtudes, e entre elas está em primeiro lugar a obediência, Jesus veio ao mundo para cumprir a vontade do Seu Pai: “Eis que venho, ó Deus, para fazer a Tua vontade” (Hebr. 10, 7), e muitas vezes, durante a Sua vida, o afirmou expressamente: “Desci do céu, não para fazer a minha vontade, mas a vontade dAquele que me enviou” (Jo. 6, 38); assim declara que a Sua comida, o Seu sustento, o fulcro da Sua vida, consiste precisamente em cumprir a vontade de Seu Pai (cft. Jo. 4, 34).

Jesus quis também concretizar a Sua dependência do Pai celeste, sujeitando-se àquelas criaturas que, segundo a ordem natural, tinham alguma autoridade sobre Ele, como homem. Assim vivei trinta anos sujeito em tudo a Maria e a José, reconhecendo na sua autoridade, a autoridade do Pai. “Era-lhes submisso” (Lc. 2, 51), diz o Evangelho, resumindo nestas breves palavras o longo período de vida privada do Salvador. Depois, durante a Sua vida pública e sobretudo durante a Sua Paixão, deu sempre exemplo de obediência à autoridade constituída, tanto religiosa como civil, submetendo-Se mesmo aos juízes e aos verdugos, fazendo-Se “obediente até à morte e morte de cruz” (Fil. 2, 8). Vindo ao mundo por obediência, Jesus quis viver na obediência e por obediência abraçou a morte, repetindo no horto das oliveiras: “Pai… nãos e faça a minha vontade, mas a Tua” (Lc. 22, 42). Seguir Jesus na vida perfeita significa, portanto, abraçar voluntariamente uma vida de total dependência e S. Tomás, apoiando-se neste argumento, conclui que a obediência faz parte da essência do estado de perfeição.

2 – Seguir Jesus significa realizar plenamente o Seu convite: “Se alguém quer vir após de mim, negue-se a si mesmo” (Mt. 16, 24). Ora, a maior renúncia que o homem pode fazer é a da sua liberdade, submetendo-se em tudo à obediência. De fato, não há nada que o homem pode ame tanto, como a liberdade da própria vontade, porque por ela se torna também senhor dos outros, pode usar e gozar das outras coisas, e é ainda senhor dos seus atos. E assim como o homem, abandonando as riquezas e os parentes, renuncia a eles, do mesmo modo, perdendo a liberdade da própria vontade, pela qual é senhor de si, renuncia a si mesmo (S. Tomás: A perf. da vida esp.). Por este motivo, o voto de obediência é o maior e mais meritório sacrifício que o homem pode oferecer a Deus.

O sacrifício da obediência consiste em se deixar guiar por outrem na sua própria vida. Todo o homem é livre, recebeu de Deus a liberdade e por isso tem o direito de se governar a si mesmos segundo o seu juízo e a sua maneira de ver; ora, quem promete obediência, renuncia livremente a este seu direito, oferecendo-o livremente em holocausto para o serviço, para o culto, para a glória de Deus. Como no holocausto do povo eleito a vítima era totalmente consumida em honra de Deus, sem que parte alguma fosse poupada, assim também o voto de obediência imola todo o homem em honra de Deus. Deste modo a obediência sacrifica até ao fundo, a nossa personalidade, ou melhor, sacrifica tudo quanto há nela de egoísmo, tudo o que é apego à maneira de ver, às inclinações, às exigências pessoais; neste sentido nada pode ajudar-nos mais a libertar-nos do nosso amor próprio, a despojar-nos de nós mesmos, do que a obediência. Mas ao mesmo tempo, bem longe de destruir a personalidade, a obediência emprega-a de um modo mais belo, mais elevado e glorioso, ou seja, fá-la renunciar a si mesma para aderir totalmente a Deus, à santa e santificante vontade de Deus.

Colóquio – “Ó Jesus, Vós que fostes obediente até à morte, não haveis de querer que uma alma que Vos ama vá por outro caminho diferente do Vosso” (T.J. FD. 5, 3). Também eu estou decidido a seguir-Vos, a percorrer atrás de Vós o caminho da santa obediência, caminho escavado na dura rocha dos Vosso exemplos, da Vossa humilíssima submissão, dos Vossos inefáveis aniquilamentos. “Vós, sendo Deus a quem se submetem os anjos, a quem obedecem os principados e potestades, estáveis sujeito a Maria, e não somente a Maria, mas também a José por causa de Maria. Que um Deus obedeça às criaturas, é uma humildade sem igual. Ó Senhor, Vós abaixais-Vos e eu hei de exaltar-me? Alma minha, se recusas imitar o exemplo de um homem não será certamente indigno de ti seguir o teu Criador. Se não podes talvez segui-lO aonde quer que vá, digna-te pelo menos segui-lO até onde Ele quis descer por ti” (cfr. S. Bernardo).

Sim, ó Jesus dai-me forças para Vos seguir pelo caminho da obediência; dai-me um profundo espírito de fé para saber ouvir sempre, na voz da obediência, a Vossa voz, a Vossa vontade. “Ensinai-me, ó Senhor, a abandonar-me confiadamente às Vossas palavras: ‘Quem vos ouve, a mim ouve’. Ensinai-me a esquecer a minha própria vontade; tendes em tanto apreço esta minha sujeição porque é fazer-Vos senhor do livre arbítrio que me destes. É este o dom que desejo oferecer-Vos em toda a sua plenitude, sem reserva alguma. Fazei que eu seja fiel a este propósito e então, umas vezes esmagando-me a mim mesma, outras vezes com mil batalhas, chegarei a conformar-me com o que me mandam; em suma, com custo ou sem custo, acabarei por me submeter. Bem sei, ó Senhor, que não deixareis de me ajudar; e por ter eu sujeitando a minha vontade e razão por Vosso amor, me fareis senhor delas. Então, já senhora de mim mesma, poderei consagrar-me a Vós com perfeição, dando-Vos uma vontade pura para que a junteis com a Vossa” (cfr. T.J. Fd. 5, 12).

Intimidade Divina, Meditações Sobre a Vida Interior Para Todos os Dias do Ano, P. Gabriel de Sta M. Madalena O.C.D. 1952.

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