Não há Deus? Quem vo-lo disse?

Não há Deus

RESPOSTA – Estais bem certo disso? – Então quem fez o céu, a terra, o sol, as estrelas, o homem, o mundo? Fez-se acaso tudo isto a si mesmo? – Que direis se qualquer pessoa, mostrando-vos uma casa vos afirmasse que esta se fizera a si mesma? que direis até mesmo se pretendera persuadir-vos que isto era possível? – Que zombava convosco, ou que estava louca, não é assim? pois neste caso teríeis muita razão.

Assim, se uma casa se não pode fazer a si mesma, quanto menos ainda as maravilhosas criaturas que povoam o universo, a começar pelo nosso corpo, que é a mais perfeita de todas?

Não há Deus? – Quem vo-lo disse? Sem dúvida algum estouvado que, não tendo visto a Deus, concluía daí que não existia? – Mas porventura não haverá entes reais senão os que sem podem ver, ouvir, tocar e sentir? – o vosso pensamento, isto é, a vossa alma, que cogita, não existe? Existe, e tendes da sua existência um sentimento tão íntimo tão evidente, que nenhum raciocínio no mundo seria capaz de vos persuadir do contrário. – Todavia, já vistes, tocastes ou ouvistes a vossa alma? – Vêde, pois, como é ridículo dizer: Não há Deus, porque eu ainda o não vi.

Deus é puro espírito, quero dizer, é um ente que não fica ao alcance dos sentidos materiais do nosso corpo, e que se não percebe senão pelas faculdades da nossa alma. – A nossa alma é igualmente puro espírito; Deus a criara à sua imagem.

Refere-se que, no último século, em que a impiedade era da moda, se encontrara um homem de bom juízo a cear com alguns pretendidos filósofos, que falavam de Deus, e negavam a sua existência. – Quanto ao nosso homem, guardava silêncio.

Sucedeu estar o relógio a dar horas quando se lhe perguntou a sua opinião sobre a matéria. Este contentou-se com apontar para o relógio, recitando-lhe estes versos, cheios de finura e bom senso:

Quanto mais nisto cogito,
Mais longe estou de pensar.
Que, sem ter relojoeiro,
Possa este relógio andar.

Não se diz o que os seus amigos responderam. – Cita-se ainda um dito muito picante de certa senhora a um célebre incrédulo da escola voltaireana. havia este tentado inutilmente converter a mesma dama ao seu ateísmo. Despeitado pela resistência: “Custa-me a acreditar, disse ele em uma reunião de pessoas sensatas, ser eu aqui o único a não crer em Deus”.

“Vós não sois o único, senhor, lhe respondeu a dona de casa; os meus cavalos, o meu cão e o meu gato contam também essa honra; só com a diferença, que estes pobres brutos têm a discrição de não se gabarem disso”.

Sabeis o que quer dizer em bom português a grosseira expressão: “Não há Deus?” – Ei-la aqui fielmente traduzida: “Eu sou um perverso, e temo que haja lá em cima alguém para me punir”.

Perguntas e Respostas Concisas e Familiares às Objeções Mais Vulgares Contra a Religião, Monsenhor de Ségur, 1946.

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