Ad Gloriam Dei et Salutem Animarum
Arsenal
CAtólico
Paulo VI e o Metropolita Meliton de Héliópolis, delegado do Patriarca de Constantinopla, durante o Concílio Vaticano II - fonte da imagem: fsspx.news-es

O indiferentismo religioso

Porque condena a Igreja o indiferentismo?

O credo de noventa por cento dos que não frequentam a Igreja é o indiferentismo. O indiferentismo é a consequência lógica do primeiro falso princípio do protestantismo: “A fé salva por si só, sem o concurso das boas obras”. Hoje em dia aparece esta célebre fórmula nas mãos dos descendentes de Lutero, convertida nesta outra: “As obras salvam por si só, sem o concurso da fé”.

Os protestantes, desgostosos com as inúmeras discussões entre as suas seitas, que, negando a autoridade de um Papa, criaram muitos outros, levaram pouco a pouco o segundo princípio do protestantismo (juízo privado) à sua natural consequência: negaram o direito de serem ensinados por outros homens. Isto equivale a dizer que os protestantes de hoje se entricheiram nos bastidores do indiferentismo, para surgirem amanhã no campo aberto da incredulidade.

O indiferentismo é o pior inimigo da verdadeira fé e muito mais difícil de combater do que o fanatismo repugnante do protestantes antigos. Estes, uma vez desenganados dos seus falsos preconceitos, são mais acessíveis à discussão e à convicção; mas o indiferentismo à verdade, e ostentam com alarde seguir uma religião livre de freios e de obrigações, esses, digo, dificilmente se prestam a considerar os direitos de uma religião revelada, que exige uma fé absoluta e impõe as suas leis sob pena de eterna condenação.

Não será, pois, digno de compaixão o homem que luta dia e noite, que sacrifica a sua comodidade, a sua saúde e bem estar pelas riquezas efêmeras da terra, e permanece completamente indiferente ao seu porvir eterno? Como pode o homem serio e consciencioso recusar com desprezo os direitos de Deus, não querendo reconhecer os interesses da sua alma imortal?

A liberdade religiosa foi condenada pelo Papa Gregório XVI (1830-1846) na encíclica Mirari vos de 15 de agosto de 1832 e depois pelo Papa Pio IX (1846-1878) na encíclica Quanta Cura de 8 de dezembro de 1864. Na foto monumento a Gregório XVI (Feb 2, 1831-June 1, 1846) Bartolomeo Cappellari by Luigi Amici, 1848-57

Não são igualmente boas todas as religiões?

Esta afirmação é evidentemente um absurdo, que retrata de corpo e alma a doutrina do indiferentismo. Dizer que todas as religiões são igualmente boas, é proferir uma blasfêmia contra a verdade (que é a Doutrina Católica), porque a confunde com o erro; contra Deus, porque lhe nega a sabedoria necessária para prescrever ao homem um modo de adoração, deixando-o sem lei para o espírito e sem freio contra as paixões.

A razão e o bom senso, a moralidade e a civilização dos povos, e a honra de Deus unem-se contra este absurdo.

Em primeiro lugar, a razão e o bom senso não podem admitir como boas todos essas milhares de religiões, que se excluem reciprocamente, que negam o que as contrárias afirmam, que bendizem o que as outras blasfemam, que adoram o que as outras desprezam.

A moralidade e a civilização dos povos contrariam a teoria que declara boas todas as religiões. O pacto social não é outra coisa senão a aplicação ou, para melhor dizer, a tradução da ideia religiosa nos costumes e nas instituições da civilização, e entretanto quem ousaria dizer que todas as civilizações são iguais?! Quem ousaria dizer que a civilização dos chineses e dos cafres de hoje é tão esplêndida como a dos antigos gregos e romanos? Portanto, se as civilizações são o produto das religiões, e as civilizações não são todas igualmente boas, é necessário concluir logicamente que nem todas as religiões são boas.

Mas é sobretudo a honra de Deus que um semelhante princípio ofende atrozmente; segundo tal teoria, Deus, ou não existiria, ou seria um imbecil. Na verdade, um Deus indiferente ao vício e à virtude, indiferente a si mesmo, não existiria senão na imaginação. O Católico diz: “Senhor, eu creio que estais realmente na Eucaristia; ela é para mim objeto de adoração”. Ao mesmo tempo o protestante, exclama: “Senhor, eu não creio que tu estejas na eucaristia, ela é para mim um objeto de escárnios e blasfêmias”. E Deus, com a mesma complacência responde: “tendes ambos razão, o vosso culto é verdadeiramente divino: eu vos abençôo”. O inverecundo muçulmano exclama:”Senhor, segundo os dictames do teu profeta mahomet, eu passo a vida na impudicícia”; e o feroz selvagem repete:”Oh Deus, tu não és senão uma fera, a ti sacrificarei vítimas humanas”! E Deus a todos responde: “A vossa fé é verdadeira, o vosso culto é bom, eu vos abençôo”. Um Deus indiferente a esses milhares de cultos, tão horrendos e contraditórios, seria verdadeiramente um Deus imbecil, um tirano da humanidade!

Para que abraçar uma determinada Religião? Não basta viver-se bem?

Não há duvida que a bondade é absolutamente necessária: mas o indiferente esquece que a fé é uma virtude essencial à salvação, e que uma crença firme e incondicional nas doutrinas reveladas por Deus, é o fundamento da bondade sobrenatural.

A Religião é a expressão concreta da verdade revelada; e o homem bom deve aceitar a palavra de Deus, logo que a conheça, e indagar a verdade quando lhe sobrevêm dúvidas a respeito da fé religiosa que professa.

Seguramente que a fé não deixa de fazer parte de uma boa vida; é o primeiro passo que conduz no caminho do Reino de Deus, é a virtude necessária à vida sobrenatural. Se a fé não fosse tão necessária, certamente que o Filho de Deus não no-la teria imposto sob pena de condenação: “O que crer e for batizado, será salvo; mas o que não crer será condenado” (Marcos XVI, 16). Se a fé fosse arbitrária, São Paulo não teria escrito: “sem a fé é impossível agradar a Deus” (Hebr. XI, 6).

Os indiferentistas tendem a um vago e inconsciente gênero de bondade, que a razão e a revelação enfaticamente reprova considerando-o verdadeiro mal: bom para eles é o que se adapta ás das inclinações; não bom, o que está em conformidade com a moral divina, que é o único gênero de bondade aproveitável para a eternidade. Essa doutrina, porém, não se baseia nem nas Sagradas Escrituras, nem na história do Cristianismo. A doutrina de Cristo é clara, não admite ambiguidades: “Ide e ensinai a todas as nações, incitando-as a cumprirem tudo quanto a vós tenho mandado” (Math. XXVIII, 20).

Se fôssemos admitir que o homem é livre para abraçar a religião que mais lhe agrada, ou para não crer em nenhuma, teriam sido então inúteis os sofrimentos e a morte de Cristo: a pregação dos Apóstolos e o sangue dos mártires teriam sido uma paródia, os sacrifícios e mortificações dos santos uma inominável insensatez.

Se todas as religiões fossem boas ou indiferentes para a salvação, para que então tanto insiste São Paulo pela unidade da fé: “um Deus, uma fé, um batismo”, e condena tão severamente os judaizantes do seu tempo, por quererem impor aos neo-convertidos as práticas da antiga Lei? “Há alguns que vos perturbam e querem perverter o Evangelho de Cristo. Mas, ainda que nós, ou um anjo do céu, vos pregasse um Evangelho além do que recebestes, seja anátema” (1).

Desde o princípio da era cristã sempre os Papas denunciaram o erro e a heresia, e em todos os Concílios, os Bispos do orbe católico sempre protestaram contra toda e qualquer alteração na fé em Cristo, dando assim um solene desmentido ás falsas e devastadoras asserções do moderno indiferentismo.

O primeiro dever do homem razoável, portanto é amar a verdade e abraçá-la à custa de qualquer sacrifício. O homem sem convicções e sem princípios merece o mais profundo desprezo e não é digno de fé; o mesmo Deus o despreza: “Conheço as tuas obras, que não és nem frio nem quente; oxalá que fosses frio ou quente! Mas porque és morno, e nem és frio nem quente, estou para te vomitar da minha boca”.

A moralidade dos indiferentistas está edificada sobre a areia movediça da opinião pública, e por isso, não têm forças para resistir ao peso da adversidade: qualquer contrariedade os acabrunha.

Se a religião é uma mera opinião, não tardará muito o homem a compreender que toda certeza a respeito de doutrina ou de moral, é completamente impossível, e que a incredulidade é o resultado inevitável de um tal indiferentismo.”

Arsenal Católico ou Respostas às Objeções Protestantes, José de Mello, 1921.

(Publicado originalmente em 1 de Dezembro de 2019)

(1) Galatas, I, 8.

Última atualização do artigo em 12 de setembro de 2026 por Arsenal Católico