A tribulação, a dor e a angústia oprimirão a alma de todo o homem que procede mal. (Rom. II, 9).
Sabes qual é a maior e a única desgraça que tens a temer?
É o pecado a separação de Deus, do teu Criador e Senhor, do teu último fim.
Toda a infração aos Mandamentos de Deus é pecado. Se se dá em matéria grave e com pleno consentimento e deliberação da vontade, o pecado é mortal, e por conseguinte aparta absolutamente de Deus, e dá a morte à alma.
Mas, se se dá em matéria leve, ou se não há plena advertência e consentimento, então o pecado não causa essa separação; predispõe apenas para ela. neste caso a alma não morre, mas sofre uma ferida mais ou menos grave.
Todo o pecado enquanto ofensa a Deus encerra em si quatro espécies de malícia.
Primeiramente, é uma rebelião contra Deus, nosso supremo Senhor. Quanto maior é a autoridade ofendida, tanto mais grave é a revolta. O filho que se levanta contra o pai, falta aos seus deveres de filho; o criminoso que atenta contra as leis do estado, torna-se réu de um castigo maior; aquele que se alça contra a autoridade da Igreja, incorre na pena de excomunhão. quanto maior será, à vista disto, a malícia da revolta contra Deus, fonte e origem de toda a autoridade! É a rebelião da criatura contra o Criador e da impotência e do nada contra o Onipotente, para lhe arremessar à face o não me sujeito a Vós, desprezo-Vos. Que crime tão espantoso!
Mas o pecado é também a mais negra ingratidão. Quanto és e quanto tens, na ordem natural ou na da graça, é um dom de Deus; e é exatamente desse dom, que deitas mão para o ofender. A memória, o entendimento, a vontade, as forças do corpo e os bens exteriores, são outros tantos dons de Deus, que tu convertes em instrumentos da tua ingratidão. Com quanta razão exclama o Senhor: Os filhos que eu criei e engrandeci, vieram por fim a desprezar-me [1].
O pecado supõe também o desprezo de Deus. E na verdade, que faz o pecador? O que fizeram os judeus, quando pospuzeram Jesus a Barrabás. Com efeito, quando pecas, estabeleces um confronto entre Deus e o bem que o pecado te promete; dizes com as obras, senão com as palavras: Prefiro este pequenino lucro, e este prazer miserável a Deus, meu Criador. Que ofensa, e que desprezo pelo sumo Bem!
Finalmente, a circunstância de que todo o pecado se comete na presença de Deus, vem agravar também a sua malícia.
Poderás talvez dizer que não é tanto assim, e que quando pecavas, não tinhas presentes todas estas circunstâncias. Mas, nem por isso deixas de negar a Deus a obediência que Lhe deves, de te portar com Ele o mais ingratamente que podes, de Lhe infligir a ofensa mais grosseira, e de Lhe fazer a injúria mais sensível. Vê bem e considera, como é triste e doloroso abandonar o Senhor, teu Deus [2].
Dize-me agora, ó jovem cristã: que pensas da malícia do pecado? Que sentes interiormente, quando consideras que com ele ofendeste ao Senhor, teu Deus?
Mas, para vires num conhecimento mais perfeito dessa malícia, volta os olhos para ti mesma e repara nos estragos que ele te causou. Deus não perde nada da sua felicidade infinita com teu pecado. Só a ti te vai prejudicar.
Aquele que ama a iniquidade, aborrece a sua alma [3]. É que o pecado, apartando a alma de Deus, destrói nela a vida da graça. que horror! Perder a Deus, ser seu inimigo estar a noite e dia temendo a sua ira! Como poderá reinar a paz no coração em tais circunstâncias? para os ímpios não há paz! [4].
Não vês como a consciência do pecado torna amargos todos os gozos, insuportável a lembrança da onipotência, santidade e justiça de Deus? Não te está bradando a consciência: Onde está o teu irmão? A voz do seu sangue clama vingança desde a terra [5].
Onde está a tua alma imortal? melhor, em que estado se encontra?
Está morta, nua de merecimentos. Depois de longos anos de uma vida inocente e santa, vieste por fim a perder todos os merecimentos que tinhas acumulado. Sou rica, dirás tu, tenho abundância de bens, não necessito de nada: mas então, não sabes que és uma desgraçada, pobre, cega e falta de tudo? [6]
Onde está a tua alma? melhor, como se encontra? Num estado de absoluta esterilidade, por falta de amor. Ainda que distribuísses pelos pobres todos os teus haveres, de nada te aproveitaria para a eternidade, por seres inimiga de Deus.
Onde esta a tua alma? Sujeita à escravidão de Satanás e das más paixões. está viúva a rainha dos povos; constituíram tributária a princesa das nações [7].
Já vês, pois, o que é o pecado. E hás de sacrificar a este monstro a felicidade da tua vida?
Evita-o pois, como a uma serpente venenosa: os seus dentes são como os de leão: despedaçam a alma do homem [8].
A Virgem Prudente, Pensamentos e Conselhos acomodados às Jovens Cristãs, por A. De Doss, S.J. versão de A. Cardoso, 1933.
- Is. I, 2.
- Jer. II, 19.
- Salm. X, 6.
- Is. XLVIII, 22.
- Gen. IV, 9, 10.
- Apoc. III, 17.
- Trn. I, 1.
- Ecli. XXL, 2, 3.
Última atualização do artigo em 12 de setembro de 2026 por Arsenal Católico