Regozije-te de gozo a tua mãe… e exulte de alegria a que te gerou (Prov. XXIII, 25).
O modo como procedem com a Igreja os filhos do mundo, é muito diverso daquele que observam com a sua santa mãe os verdadeiros e zelosos cristãos.
Os filhos do mundo nem sequer um pensamento têm para a Igreja: não se entristecem com os seus sofrimentos, nem participam das suas alegrias: deixam de aproveitar os meios que ela lhes oferece para recuperarem a graça, e se alguma vez usam deles é com tibieza, ou por motivos meramente humanos; riem-se das suas santas cerimônias e parece que a edificação da alma cristã lhes é completamente estranha ou indiferente; faltam aos mandamentos da Igreja, desprezam as suas ameaças e bênçãos, e não fazem caso dos tempos santos.
Os bons cristãos amam a Igreja, têm sempre presentes os seus benefícios, estão unidos com ela de todo o coração, fazem consistir a sua honra em serem seus filhos, e defendem-na das injúrias que lhe dirigem; obedecem aos seus mandamentos, antecipam-se aos seus desejos; alegram-se com as alegrias da Igreja, sua mãe, e tomam parte nas suas amarguras. O verdadeiro cristão vive na Igreja e com a Igreja; está animado do seu espírito, que transparece em todas as suas obras.
Jovem cristã, como procedes tu com a Igreja?
É para ti uma coisa estranha? Pois considera que ela é tua mãe. Olhas para ela com indiferença? Adverte que é a tua benfeitora.
Mas ousarás tu mostrar-te indiferente com ela, quando está escrito: Rejubile de gozo a tua mãe, e exulte de alegria a que te gerou?
Sê sempre filha amante e fiel da Igreja, crendo firmemente tudo o que ela crê, observando fielmente os seus mandamentos, ouvindo as suas lições, identificando-te com o seu espírito, vivendo nela e celebrando interior e exteriormente os dias que ela nos lembra o amor e a onipotência de Deus.
Todas as festividades principais do ano eclesiástico, são precedidas de certo tempo de preparação. A festa do Nascimento de Nosso Senhor é precedida do santo tempo do Advento; a da Páscoa pela Quaresma; a de Pentecostes pelos dias que se seguem à Ascensão.
Mas a Igreja celebra também as vigílias, por meio das quais, além do espírito de penitência que nos recomenda particularmente nesses dias para purificação do nosso coração, desejaria também excitar em nós os sentimentos próprios do espírito da festividade que se celebra no dia seguinte. Se as festas nos colhessem por assim dizer, de improviso, seria para recear que as não festejássemos com a devida disposição de espírito, e que, sendo tão breve o tempo da sua duração, não chegássemos a apreender o mistério peculiar a cada uma delas.
Às festividades principais segue-se a respectiva oitava; e assim é razão, a fim de que os hinos santos não sejam entoados uma só vez, nem se passe tão depressa ao ordinário do ano eclesiástico.
Os bons filhos da Igreja alegram-se com esta série abundante de bênção, e reconhecem nela os desígnios e a solicitude prudente da sua mãe. A religião que deve informar a vida do homem não consiste apenas numa participação muito rápida dos fiéis nas festividades principais da Igreja.
Esta devemos considerá-la não só o depósito de fé, mas também o verdadeiro culto divino, tal como Deus quer que Lhe seja prestado, e como nos convém a nós.
Como seria esplêndido e de muito proveito para nós se durante todo o ano estivesse bem patente à nossa vida a grande obra do amor divino, a redenção!
O tempo do Advento, tempo de esperanças e desejos, levar-nos-ia a preparar os caminhos do Senhor, a aplainar as colinas, e a levantar os vales (1).
Crescem os santos desejos, aviva-se a esperança e torna-se mais íntimo e por assim dizer mais impetuoso, o sentimento expresso naquelas palavras: Céus, chovei o Justo! (2) Eis que aparece o suspirado das nações; chegou o Emanuel; foi-nos dado um Menino, em cujos ombros repousa a soberania do mundo (3). Paz de boa vontade, aos homens! E ouve-te ressoar por toda a parte: Glória a Deus nas alturas! (4) e todos os corações estremecem de alegria e todo o mundo corre ao presépio a adorar o Deus humanado, e a mostrar-lhe o seu amor e gratidão.
No tempo imediato à festa do Nascimento celebram-se os mistérios da infância de Cristo. Depois vem a Quaresma. Os altares despem-se das suas galas; os cantos de alegria são substituídos por sentidas lamentações, e tornam-se mais intensas as exortações à penitência. Representa-se aos olhos da alma cristã o triste espetáculo da Paixão do Senhor. Então a alma pela consideração dos sofrimentos de jesus percorre em sua companhia a via dolorosa, desde o Cenáculo e o horto do Getsemani até ao gólgota e ao sepulcro; os tormentos de Jesus, são os seus: de si pode ela dizer: Amou-me e entregou-se à morte por meu amor (5). A Semana Santa é dum modo particular para o cristão tempo de grave reflexão, de recolhimento tranquilo e de penitência.
O cristão exulta com o Salvador e com a Igreja no dia solene da Ressurreição. Os seus cantos de júbilo confundem-se com os de toda a cristandade; e a sua alegria é tanto maior quanto mais eficazmente imita a Ressurreição do Salvador, ressuscitando espiritualmente.
A alegria do tempo pascal prolonga-se até que a Ascensão gloriosa do Senhor, recordando-nos a nossa orfandade, nos promete ao mesmo tempo o Consolador. Como preparação para o receberem dignamente ordenou o Salvador aos apóstolos, e a nós nas suas pessoas, que celebrassem a novena do Pentecostes ou os nove dias que precedem a vinda do Espírito Santo.
Agora já estão consumadas as obras de Deus. já baixou o Espírito Santo: os mais profundos mistérios tornam-se-nos acessíveis na medida em que a inteligência humana os pode compreender: o mistério de Deus um em três Pessoas e o da presença real de Jesus Cristo no Santíssimo Sacramento do Altar.
A Igreja repleta das graças do Espírito Santo cumpre a sua missão sobre a terra, e cumpri-la-á até ao fim do mundo; assim o tempo do Pentecostes prolonga-se até ao fim do ano eclesiástico. A semente divina germina no coração dos fiéis e tudo está encaminhado para o seu pleno desenvolvimento, sob o poderoso influxo do Espírito da graça.
Mas a Igreja não se contenta com nos recordar agradecida os mistérios da redenção. Sendo ao mesmo tempo militante, purgante e triunfante, lembra-te daqueles que já não são deste mundo: consagra certos dias à memória da Imaculada Virgem Maria, e celebra os mistérios em que ela interveio na obra da redenção; além disso quis também honrar os santos varões, jovens e adultos, as santas mulheres e donzelas, propondo-os á imitação dos fiéis. Entre eles cada cristão deve escolher um, para seu modelo e protetor.
Pobres cristãos, aqueles que em toda a vida da Igreja não veem mais do que a sucessão periódica de certos dias de descanso ordinário; aqueles para o quais as festas são simples nomes sem vida, que ao sumo lhe servem de atrativo para se entregarem com maior liberdade aos prazeres, ao luxo e à ociosidade!
Jovem cristã, não queiras pertencer ao número destes. Mostra claramente que elevando-te acima da vulgaridade dos filhos deste mundo, conheces o mistério e a significação das várias festividades do ano eclesiástico. Acompanha interior e exteriormente a série ininterrupta das solenidades da Igreja, tua santa mãe, e acostuma-te a preparar-te convenientemente para as celebrares segundo o seu espírito.
Lembra-te sempre que, se quiseres participar no céu da glória da Igreja triunfante, é necessário que sejas sua filha amante e fiel, que a tua vida se identifique com a sua, e que não conheças outras alegrias além das que ela aprova e abençoa.
A Virgem Prudente, Pensamentos e Conselhos acomodados às Jovens Cristãs, por A. De Doss, S.J. versão de A. Cardoso, 1933.
(1) Luc. III, 5.
(2) Is. XLV, 8.
(3) Is. IX, 6.
(4) Luc. II, 14-15.
(5) Gal. II, 20.
Última atualização do artigo em 12 de setembro de 2026 por Arsenal Católico