Ad Gloriam Dei et Salutem Animarum
Arsenal
CAtólico
James Tissot, o fariseu e o publicano (1886-94)

Décimo Domingo depois de Pentecostes – Pe. Júlio Maria, S.D.N.

Décimo Domingo depois de Pentecostes (Luc. 18, 9-14)

9. Naquele tempo, propôs Jesus esta parábola a uns que confiavam em si mesmos, como (se fossem) justos, e desprezaram os outros.

10. Subiram dois homens ao templo a fazer oração: um fariseu e outro publicano.

11. O fariseu, de pé, orava no seu interior desta forma: Graças te dou, ó Deus, porque não sou como os outros homens: ladrões, injustos, adúlteros, nem como este publicano.

12. Jejuo duas vezes por semana: pago o dízimo de tudo o que possuo.

13. O publicano, porém, conservando-se à distância, não ousava nem ainda levantar os olhos ao céu: mas batia no peito, dizendo: Meu Deus, tem piedade de mim pecador.

14. Digo-vos que este voltou justificado para sua casa, e não o outro; porque quem se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado.

O ÚNICO NECESSÁRIO

O Evangelho diz que o publicano, reconhecendo e confessando a sua indignidade perante Deus, voltou para casa justificado.

A justificação de uma alma é a sua salvação.

O publicano, humilde e arrependido salvou a sua alma, enquanto o fariseu, orgulhoso e pretensioso, perdeu-se miseravelmente.

Meditemos hoje sobre a salvação de nossa alma, para nos compenetrarmos da necessidade de trabalhar eficazmente nesta obra que é:

  1. O ÚNICO NEGÓCIO importante nesta vida.
  2. O NEGÓCIO MAIS URGENTE que temos.

I. O ÚNICO NECESSÁRIO

Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro se vier a perder a sua alma? Disse o Salvador. (Mat. 16, 26).

É com esta palavra, muitas vezes repetida, que Santo Inácio converteu S. Francisco Xavier, então professor ilustre, mas mundano, leviano, na universidade de Paris.

Salva aninam tuam. Salva a tua alma, diziam os anjos a Ló e a sua família, para retirá-los da corrupção de Sodoma e dos castigos que deviam aniquilar a cidade corrompida. (Gên. 19, 17).

De fato, a alma, estando perdida, tudo está perdido.

São João Crisóstomo diz: Deus nos deu dois olhos, dois ouvidos, duas mãos, dois pulmões, para que, perdendo um deles, possamos ainda continuar com o outro que nos fica, mas Ele nos deu só uma alma… e perdida esta alma, nada mais nos resta, senão a desgraça.

Podemos formar uma idéia da necessidade de tratar da nossa salvação, pensando no que Deus fez para nos salvar; o empenho que tem o demônio em nos perder; os esforços feitos pelos santos, para sempre viverem na amizade de Deus.

Maior ainda se torna a necessidade de salvar a nossa alma, porque tal obra não admite meio termo, como acontece com os negócios da terra.

O negociante pode dizer que não pretende adquirir uma grande fortuna, mas apenas o necessário para viver bem, sem receio de pobreza.

O estudante pode não querer ser um sábio, nem ficar um ignorante; há um meio termo: saber o necessário para a sua orientação.

Mas não acontece o mesmo com o negócio da salvação.

Quem não consegue a salvação completa, está irremediavelmente perdido.

Quem não quer gozar eternamente de Deus no céu, será lançado no fogo eterno do inferno.

Ou Deus ou o demônio.
Ou o céu ou o inferno.
Ou a salvação ou a perdição.

A salvação é, pois, o único necessário:

Unum est necessarium: salva animam tuam.         

II. O NEGÓCIO MAIS URGENTE

Por que tão urgente?

Porque é pessoal… e nossa vida é incerta.

É um trabalho que dever ser feito por cada um em particular.

Caindo doente, é um médico que trata do restabelecimento da saúde.

Quem tem uma casa de comércio, pode confiá-la a uma pessoa de confiança.

Quem tem um processo, pode entrega-lo a um advogado.

A salvação, porém, é exclusivamente pessoal.

Se não nos salvarmos, ninguém nos salvará.

Conta-se a seguinte parábola, que exprime bem este fato.

Um casal constava de um homem sem religião e de uma esposa muito piedosa. A esposa pretendia fazer participar o marido de seus merecimentos, e dizia: Eu rezo para mim e para o meu marido; eu me confesso, comungo para nós ambos, falo boas obras para mim e para ele.

O marido morreu e se apresentou diante de São Pedro, que perguntou por seus títulos de admissão no céu.

O homem respondeu que tinha direito, porque tendo tido uma santa esposa, esta rezava, comungava, fazia boas obras par ela e para ele.

Dizem que São Pedro refletiu um instante e pronunciou a seguinte sentença:

Muito bem: a sua esposa rezava, comungava, fazia boas obras para ela e para o senhor; é, pois, justo que ela receba a recompensa para ela e para o marido; ela irá, pois, para o céu, para ela e para o marido, e o senhor irá para o inferno.

O negócio da salvação é urgente, porque a nossa vida é curta e a morte é incerta.

Conta-se que Carlos Magno, que tinha um secretário ateu, mas fiel e ativo, que serviu ao imperador durante muitos anos.

Caindo enfermo e sentindo aproximar-se a morte, pediu que o imperador lhe fizesse uma visita.

Carlos Magno atendeu logo ao pedido, consolou o enfermo e perguntou se podia lhe ser útil em alguma coisa.

O enfermo respondeu que sim e que queria fazer-lhe um pedido muito diminuto.

– Está atendido o pedido. – respondeu Carlos Magno.

– Majestade, passei 15 anos em vosso serviço, sem nunca tirar uns instantes para tratar da minha alma; desejava emendar-me e fazer penitência; peço-lhe conceder-me mais oito dias de vida.

– Oito dias de vida, – exclamou o monarca com espanto, – meu amigo, lhe darei tudo o que quiser, mas isto me é impossível, só Deus pode prolongar a vida.

– Miserável que sou! – gemeu o moribundo; – nada fiz para Deus, tudo fiz para o meu imperador, e este não me pode nem conceder-me oito dias de vida para expiar os meus pecados.

Virou-se desesperado e morreu.

III. CONCLUSÃO

A salvação de nossa alma é, pois, o único negócio importante da nossa vida, e é um negócio urgente, pois não conhecemos o termo de nossa vida.

Salvemos, pois, a nossa alma.

Por que não faríamos nós, para ganhar o céu o que os mundanos fazem para ganhar os bens terrenos?

Eles trabalham, afadigam-se, sacrificam o repouso, a saúde e a vida, para conquistar uma fortuna que lhes escapa necessariamente à beira do túmulo; e nós faríamos nada para conquistar uma fortuna eterna de felicidade e de glória no céu?

Os mundanos não desanimam diante dos revezes, e nós fugimos diante das primeiras dificuldades!

Eles não recuam nem diante dos maiores perigos; e nós nos aterramos diante da menor contrariedade!

Eles com tanto cuidado procuram providenciar sobre a as subsistência no futuro; e nós nada procuramos entesourar para a outra vida, que é eterna.

Oh! Não nos esqueçamos que só temos uma alma, e que perdendo esta não temos mais outra para salvar.

Como o publicano do Evangelho, prostremo-nos por terra e digamos: “Ó Deus, tende piedade de mim!…” para que, comovido pela nossa humildade, Deus nos perdoe as nossas faltas, e possamos, nós também voltar para casa justificados, com certeza da salvação eterna.

Comentário Dogmático, Padre Júlio Maria, S.D.N., 1958.

Última atualização do artigo em 12 de setembro de 2026 por Arsenal Católico

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