“Sou miserável e pobre, ó Senhor socorrei-me… à sombra das Vossas asas me refugio” (Sal. 39, 18; 56, 2).
1 – Se consideras a tua miséria sem elevares os olhos para Deus, Pai das misericórdias, facilmente te sentirás oprimido e desanimado. Se te examinares com atenção verás que o desânimo procede sempre de duas causas intimamente unidas entre si; a primeira é que, tendo contado com as tuas forças, o teu orgulho fica ferido e desiludido pelo fracasso sofrido, e a outra é que, não tendo contado com Deus, não pensaste em recorrer a Ele. E como não soubestes recorrer a Ele para conseguir um bom êxito no bem, também não soubeste recorrer a Ele quando caíste no mal. Em suma, agiste só: procuraste o êxito sozinho, caíste só, e foi só que consideraste a tua queda. O resultado desta conduta não pode ser senão o desânimo; com efeito, como poderás ter forças para te levantares, quando por falta de forças te encontras por terra? Deus, porém, não te quer ver agir sozinho. “Ai do que está só, porque quando cair não tem quem o levante” (Ecle. 4, 10). Ai do homem que assenta os seus propósitos sobre as próprias forças; quando cair não terá ao seu dispor a força de Deus para se levantar e permanecerá assim na sua miséria, humilhado e confuso.
Do mesmo modo que não deves formular bons propósitos sem contar com o auxílio de Deus para os cumprir, assim não deves considerar as tuas quedas sem ao mesmo tempo considerar a misericórdia divina, porque se só Deus te pode conceder a vitória no bem, só Ele te pode ajudar a sair do mal.
Eis porque todos os santos ensinaram que o conhecimento próprio nunca deve estar separado do conhecimento de Deus e vice-versa. Sta Teresa de Jesus diz: “A alma que se exercita no próprio conhecimento, deve voar algumas vezes a considerar a grandeza e a majestade do seu Deus. Aqui achará a sua baixeza melhor que em si mesma e ficará mais livre de sevandijas”, ou seja, das próprias misérias (M. I, 2, 8).
2 – “A verdadeira humildade não inquieta nem desassossega nem alvorota a alma, por grande que seja; mas vem com paz, gozo e sossego… dilata-a e torna-a apta para melhor servir a Deus”. Ao contrário, a humildade do demônio “tudo perturba, tudo alvorota, toda a alma revolve e é muito penosa. Creio que pretende o demônio que pensemos ter humildade e – se pudesse – ao mesmo tempo que isto, que desconfiássemos de Deus” (T.J. Cam. 39, 2).
A falta de confiança e a perturbação diminuem a capacidade de amar, e o fim do demônio é deter as almas no caminho do amor. Deste modo tenta especialmente as almas que não cederiam nunca a tentações abertas de pecado. Neste caso é preciso reagir, recordando que, segundo ensina Sta Teresa do Menino Jesus, “o que ofende a Jesus, o que Lhe fere o coração, é a falta de confiança” (T.M.J. Cart. 71).
A desconfiança da misericórdia de Deus, mesmo depois de quedas graves, nunca é indício de verdadeira humildade, mas sim de orgulho dissimulado e de tentação diabólica. Se Judas tivesse sido humilde, em vez de desesperar, teria sabido como Pedro pedir perdão e chorar os seus pecados. A humildade é a virtude que nos faz permanecer no nosso lugar; ora, o nosso lugar diante de Deus é o de filhos fracos e miseráveis, mas confiantes. Quando, depois de tantos propósitos, te vês cair nas mesmas faltas; quando, depois de tantos esforços, não consegues ainda vencer certos defeitos, superar certas dificuldades e, de um outro modo, te encontras ainda muito longe daquilo que deverias e quererias ser, recorre ao remédio infalível da humildade. “A humildade – diz Sta Teresa de Jesus – é o unguento das nossas feridas” (M. III, 2, 6). Embora te sintas esgotado de forças, embora te julgues incapaz de tudo e te vejas sempre por terra, impotente para te levantares, ainda te resta uma possibilidade: a de te humilhares. humilha-te, humilha-te com sinceridade e com confiança; a humildade suprirá todas as tuas misérias, curará todas as tuas chagas, porque atrairá sobre elas a misericórdia divina.
Colóquio – “Ó Senhor, já não me admiro de nada, não me aflijo ao ver que sou a própria fraqueza, antes pelo contrário, é nela que me glorio e conto descobrir em mim cada dia novas imperfeições.”
“Que ilusão!… não queríamos cair nunca? Que importa, meu Jesus, se caio a cada instante por aí vejo a minha fraqueza e isso é para mim um grande ganho. Por aí Vós vedes o que posso fazer e sereis então mais tentado a levar-me nos braços… Se o não fazeis, é porque Vos agrada ver-me caída por terra… não vou inquietar-me então, mas estenderei sempre para Vós os meus braços suplicantes e cheios de amor! Não posso crer que me abandoneis.
“Oh! não, nem sempre sou fiel, mas não desanimo nunca, abandono-me nos Vossos braços e como uma gotinha de orvalho, abismo-me cada vez mais no Vosso cálice, ó divina Flor dos campos, e aí encontro tudo o que perdi e muito mais ainda.
“Ó Senhor, quando cometo uma falta que me entristece, sei bem que esta tristeza é a consequência da minha infidelidade. Mas não quero parar nela, quero correr para Vós e dizer-Vos: Meu Deus, sei que mereci este sentimento, e no entanto permiti que Vo-lo ofereça como prova que me enviais por amor. Lamento o que fiz, mas sinto-me contente por ter este sofrimento para Vos oferecer.
“Sou feliz por me sentir assim imperfeita e por ter tanta necessidade da Vossa misericórdia! Quando se aceita com doçura a humilhação de ter sido imperfeita, a Vossa graça volta imediatamente” (T.M.J. M.C. pg. 274; Cart. 122; NV. 3-VII; 2-IX).
Intimidade Divina, Meditações Sobre a Vida Interior Para Todos os Dias do Ano, P. Gabriel de Sta M. Madalena O.C.D. 1952.
Última atualização do artigo em 12 de setembro de 2026 por Arsenal Católico