HUMILDADE E CONFIANÇA
“Do mais profundo do meu nada clamei a Vós, Senhor. Senhor ouvia a minha voz… eu confio em Vós”.
1 – A humildade cristã não deprime, mas eleva, não abate, mas encoraja, pois quanto mais revela à alma o seu nada, a sua abjeção, mais a lança em Deus, cheia de confiança e abandono. O próprio fato de que em tudo – no ser e no agir, quer na ordem natural, quer na sobrenatural – dependemos dEle e nada podemos fazer sem Ele, manifesta-nos que Deus quer amparar-nos continuamente com o Seu socorro, com a Sua graça. Por conseguinte, as relações de uma alma humilde com Deus serão as de um filho que tudo espera confiadamente de seu api. Foi esta a lição que Jesus quis dar aos apóstolos quando Lhe perguntaram quem seria o maior no reino dos céus: “Em verdade vos digo que, se vos não converterdes e vos não tornardes como meninos, não entrareis no reino dos céus. Todo aquele, pois, que se fizer pequeno como este menino, esse será o maior no reino dos céus” (Mt. 18, 3 e 4).
Tornar-se pequenino – explica Sta Teresa do Menino Jesus – “é reconhecer o seu nada, esperar tudo do bom Deus, como uma criança espera tudo de seu pai… Mesmo entre os pobres dá-se à criança o que lhe é necessário, mas assim que cresceu o seu pai já não quer alimentá-la e diz-lhe: ‘Agora trabalha, já te podes bastar a ti mesma’. Foi para não ouvir isso que eu não quis crescer, sentindo-me incapaz de ganhar a minha vida, a vida eterna do céu!” (NV. 6, VIII).
Para al alma que, reconhecendo humildemente a sua indigência, se volta para Deus com plena confiança, Deus é um pai terníssimo que Se compraz em cumulá-la dos seus dons e em fazer por ela o que ela sozinha não pode fazer. Então quem é mais pequeno – isto é, aquele que está mais convencido do próprio nada – torna-se o maior, porque tem ao seu dispor a grandeza de Deus.
2 – Deus não introduz as almas numa vida espiritual mais elevada nem as admite a uma maior intimidade com Ele, enquanto as não achar completamente despojadas de toda a confiança em si mesmas. Quando uma alma, esquecendo praticamente o seu nada, confia, por pouco que seja, nas suas forças, na sua ciência, nas suas iniciativas, nas suas virtudes, Deus abandona-a a si própria; os insucessos que se seguirão, as recaídas, a infecundidade das suas obras, porão a descoberto a sua insuficiência. E quanto mais a alma for tenaz em fiar-se em si própria, tanto mais o Senhor lhe prolongará esta experiência prática do seu nada.
Sta Teresa de Jesus, falando da sua conversão definitiva e total, confessa que o que a impedia de vencer os últimos obstáculos, era precisamente um resto de confiança que ainda tinha em si mesma: “Suplicava ao Senhor que me ajudasse; mas devia faltar, ao que parece, o não pôr de todo a confiança em Sua Majestade e perder de todo a que punha em mim” (Vi. 8, 12). A confiança em Deus cresce na mesma proporção que a desconfiança em si, e torna-se total quando a alma, tendo compreendido a fundo o seu nada, perdeu toda a confiança nos seus recursos pessoais. Então a alma experimenta a realidade daquelas palavras de Jesus: “Depois de terdes feito tudo o que vos foi mandado, dizei: ‘somos servos inúteis'” (Lc. 17, 10); e embora se tenha exercitado muito na vida interior, na oração, nas virtudes, sabe que não pode contar com as suas forças, sabe que, apesar de ter trabalhado pela glória de Deus, não pode contar com as suas obras; por isso, confia única e totalmente na misericórdia e na graça de Deus: “Non habeo fiduciam nisi in tua misericórdia”. A sua confiança está nos méritos infinitos de Jesus, no amor misericordiosos do Pai celeste e na obra da graça; esta confiança torna-a mais do que nunca corajosa e ousada, porque sabe que com Deus tudo pode.
“O que agrada a Jesus – diz a Santa de Lisieux – é ver-me amar a minha pequenez e a minha pobreza, é a esperança cega que tenho na Sua misericórdia, Eis o meu único tesouro” (Cart. 176).
Colóquio – “Reconheço-o, ó Senhor, sou muito fraca e todos os dias faço disso uma nova experiência. Mas dignai-Vos ensinar-me aquela ciência que me faz gloriar-me das minhas fraquezas. Esta é uma grande graça e só nela encontro a paz e o descanso do coração, porque já compreendi o Vosso caráter; dais como Deus, mas quereis a humildade do coração” (cfr. T.M.J. Cart. 87 e 140).
Ó Senhor, a Vossa luz penetra na minha alma e faz-me compreender como os meus caminhos estão longe dos Vossos! Em vez de me aborrecer com as minhas misérias, em vez de me abater com as minhas quedas e com os meus fracassos, em vez de pretender o êxito em tudo e realizar grandes coisas, devo aceitar humildemente ver-me tão fraco, tão indigente e tão necessitado do Vosso auxílio.
Ó meu Deus, como é doce, para uma alma que Vos ama, precisar tanto de Vós a ponto de nada poder fazer sem Vós! É doce, porque isto me diz que quereis continuamente intervir na minha pobre vida, que quereis amparar-me continuamente com a Vossa graça, que da Vossa parte jamais me abandonareis. Para me comunicardes a abundância dos Vossos divinos favores somente esperas que me ponha diante de Vós na atitude confiante de uma criancinha que, não podendo contar com as suas forças e com os seus recursos, tudo espera de seu pai. Esperais que eu, convencido profundamente do meu nada, aceite e goste de me sentir nada, a fim de que Vós sejais o meu Tudo.
Despojai-me, Senhor, despojai-me de todo o resto de confiança em mim próprio. Se o homem é semelhante à cerva do campo, que hoje nasce e amanhã não existe, haverá maior loucura do que contar com a força de um pouco de erva? Peço-Vos, Senhor, curai-me de tamanha insensatez e ponde-me na verdade. Vós que sois a verdade, santificai-me na verdade, na verdade do meu nada.
Só Vós sois bom, ó meu Deus, e só Vós me podeis fazer bom; só Vós sois justo e só Vós me podeis justificar; só Vós sois santo e só Vós me podeis santificar. Quanto menos posso esperar de mim, mais posso e quero esperar de Vós; de Vós espero a boa vontade e a constância, a força e a paciência, a pureza e a bondade, a virtude e a santidade. De mim nada e de Vós tudo. Ó Senhor, apressai-Vos em vir em meu socorro: o meu nada chama por Vós, a minha miséria suspira por Vós.
Intimidade Divina, Meditações Sobre a Vida Interior Para Todos os Dias do Ano, P. Gabriel de Sta M. Madalena O.C.D. 1952.
Última atualização do artigo em 12 de setembro de 2026 por Arsenal Católico