Ad Gloriam Dei et Salutem Animarum
Arsenal
CAtólico
Sebastián de Llanos y Valdés : Santa monja em oração, cerca de 1625 a 1677, Museo Lázaro Galdiano - Wikimedia Commons

A glória verdadeira

Ó Jesus, que por meu amor aceitastes a desonra da morte de cruz, ensinai-me em que consiste a verdadeira glória e fazei que, por Vosso amor, eu saiba vencer os meus pontos de honra.

1 – Sta Teresa de Jesus ensina: “Qualquer pessoa que sinta em si algum ponto de honra, se quer aproveitar, creia-me e dê de mão a este apego” porque “se há pontos de honra nunca se há de medrar muito nem chegar a gozar o verdadeiro fruto da oração” que é a intimidade com Deus. A Santa faz notar que o motivo porque muitas pessoas, há muito exercitadas na vida espiritual e beneméritas por tantas boas obras “rastejam ainda ir terra” e não conseguem elevar-se mais alto, é precisamente por estarem detidas por estes “pontos de honra; e o pior é que não querem entender que os têm porque o demônio algumas vezes lhes faz entender que são obrigadas a tê-los” (Vi. 31, 20; Cam. 12, 5).

O apego aos pontos de honra resume-se, na prática, a pequenas ou grandes susceptibilidades para afirmar a própria personalidade, para defender a própria estima, o próprio modo de pensar. Concretiza-se em muitas manobras, mais ou menos conscientes e mesquinhas, para conquistar ou conservar, perante os outros, certas posições privilegiadas e honrosas, para fazer triunfar as próprias razões que sempre se julgam boas – a própria capacidade, as próprias obras, os próprios méritos, que se acham sempre grandes e dignos de consideração. Tudo isto permanece mais ou menos disfarçado pelo fato de que cada um tem, ou crê ter, a intenção de agir em vista do bem e por isso julga legítimo o seu proceder; no entanto não se repara em que, com a desculpa de defender o bem, de impedir o escândalo, de sustentar obras boas, na realidade se defende o amor próprio; isto é tão verdade que, apresentando-se uma ocasião e em igualdade de circunstâncias, não se cansarão tanto a defender a honra e as obras dos outros, como a defender a sua honra e as suas obras.

Uma alma que se deixa dominar por semelhantes preocupações está, como diz Sta Teresa de Jesus, ligada à terra por “uma cadeia que não há lima que a quebre, a não ser Deus, por meio da oração e fazendo nós muito da nossa parte” (Vi. 31, 20).

2 – Para ver se estamos verdadeiramente desapegados destes pontos de honra não devemos basear-nos em certos desejos que às vezes se apresentam bem numerosos durante a oração e pelos quais nos parece que estamos dispostos a suportar qualquer humilhação e desprezo; mas temos de examinar qual é, no momento crítico, a nossa conduta diante de tudo o que fere o nosso amor próprio. Então não será difícil constatar que “por pouco que nos toquem na honra, não o suportamos, nem parece que o havemos de suportar” (T.J. Cam. 16, 11). Estas reações mais ou menos vivas, da nossa susceptibilidade, dizem-nos claramente que ainda estamos muito longe de ter calcado aos pés os pontos de honra; e tomar consciência desta deficiência será o ponto de partida para nos corrigirmos, porque o maior obstáculo para a aquisição das virtudes é justamente crer que já as adquirimos e que, portanto, já não precisamos de nos exercitar nelas.

“Deus nos livre – exclama Sta Teresa de Jesus – de pessoas que O querem servir e se lembram da própria honra” (ib. 12, 7). Seria querer servir ao mesmo tempo dois senhores e dois senhores tão incompatíveis, como são Deus e o nosso amor próprio. tudo quanto uma alma faz para servir o seu eu, para defender a sua honra, é subtraído ao serviço de Deus, à busca pura e sincera da Sua honra e da Sua glória. Embora às vezes nos pareça ter bons direitos a fazer valer, se não lhes sabemos renunciar, pelo menos no que se refere à nossa pessoa, não alcançaremos nunca aquela liberdade de espírito necessária para mergulhar numa profunda vida interior. As preocupações inerentes à defesa dos nossos direitos, desviar-nos-ão do nosso ideal de união com Deus, far-nos-ão perder a paz interior, envolver-nos-ão em muitas intrigas demasiado humanas, que serão ocasião de frequentes faltas contra a caridade e contra a justiça nas nossas relações com o próximo, porque é muito difícil, para não dizer impossível, defender os nossos próprios direitos sem ofender, pouco ou muito, os direitos alheios.

Colóquio – “Ó Senhor, Senhor! Não sois Vós o nosso Modelo e Mestre? Pois em que esteve a Vossa honra, Honrador nosso? Oh! Senhor, não a perdestes, por certo, em ser humilhado até á morte, se não que a ganhastes para todos… Praza a Vós, Deus meu, que não se perca alguma alma por guardar estes negros pontos de honra. Oh! Se se entendesse em que está a honra… Todo o dano, Senhor, nos vem de não ter os olhos postos em Vós, e assim damos mil quedas e tropeçamos e erramos o caminho.

Ó meu Deus, procuramos juntar-nos conVosco por união; queremos seguir os conselhos de Cristo carregado de injúrias e de falsos testemunhos, e queremos muito inteira a nossa honra e crédito. Não é possível lá chegar, pois não vão pelo mesmo caminho. Vós, ó Senhor, unis-Vos à alma que se esforça e não teme perder os seus direitos” (T.J. Cam. 36, 5 e 6; 11; Vi. 31, 22).

Ó Jesus, concedei-me a graça de fazer consistir a minha honra somente em me unir semelhante a Vós que, sendo Deus e tendo direito a ser tratado e honrado como Deus, quisestes ser tratado como o último dos homens. Não quisestes para Vós outro direito senão cumprir a vontade do Pai, morrer sobre a cruz pela Sua glória e pela nossa salvação. Perante o Vosso exemplo, como compreendo melhor a mesquinhez do nosso amor próprio que, para defender uns direitos ridículos, se perde em tantas intrigas, em tantas vãs contendas… Ó Senhor, porque deverei limitar-me a rastejar pela terra entre as selvas espinhosas das minhas paixões, quando Vós me criastes para voar pelos céus? Oh! ajudai-me Vós a desembaraçar-me destas tolas pretensões do meu eu que, semelhantes a pesado lastro, tentam constantemente arrastar-me para baixo; ajudai-me, Senhor, a fim de que, livre de tão grande peso, possa finalmente levantar um voo decisivo para Vós, meu Deus!

Intimidade Divina, Meditações Sobre a Vida Interior Para Todos os Dias do Ano, P. Gabriel de Sta M. Madalena O.C.D. 1952.

Última atualização do artigo em 12 de setembro de 2026 por Arsenal Católico