O sentimento que levou os filhos da Virgem Imaculada a consagrar-lhe um dia em cada semana, honra-la três vezes por dia ao som do Angelus, inspirou-lhes também a oferta d’um mês inteiro em cada ano, para adorna-la das rosas espirituais de suas orações, rezando o Rosário e meditando; e oferecer-lhe em homenagem, ao mesmo tempo, suas flores naturais mais belas e mais cheirosas. De mais, quando rezamos e meditamos piedosamente os santos mistérios da vida de Jesus e Maria, se tornarão eles para nossos corações uma como chuva fecunda que transforma nosso árido interior em um jardim florido, do qual se evolam ao céu os mais deliciosos perfumes.
Às flores naturais, as almas piedosas comprazem-se em juntar cânticos em honra da divina Mãe. Mas, não é o Rosário uma lira melodiosa, com a qual podemos celebrar as alegrias, as dores, os triunfos da nossa amada Rainha?
Santa Rosa de Lima tinha por costume depositar cada sábado aos pés da estátua de Maria um ramalhete de flores, que para este fim cultivava. Sensível a esta atenção filial, a divina Mãe dignou-se recompensa-la por um prodígio. Todas as pessoas que frequentavam a casa dos pais da Santa notaram com admiração que em todas as épocas do ano, mesmo nos calores ardentes do estio, Rosa tinha sempre flores em seu jardim para oferecer a sua Mãe.
“Ó minha boa Mãe”, dizia a angélica menina, depondo suas rosas aos pés de sua amada Rainha, “se eu fosse rica, ofertar-vos-ia uma coroa de ouro, ornada de pedras preciosas; mas a minha pobreza condena-me a oferecer-vos somente flores.”
Fazia ainda mais para honrar a Maria: compunha para orna-la vestimentas espirituais, das quais damos aqui uma amostra encontrada entre seus papéis depois da sua morte; era intitulada:
“Ideia de uma vestimenta, que eu, Rosa de Santa Maria, empreendo confeccionar para a Rainha dos Anjos com o auxílio do Senhor.”
“Far-lhe-ei um vestido de seiscentas saudações angélicas, de outras tantas Salve-Rainhas e com quinze dias de jejum em memória da puríssima alegria que ela sentiu na Anunciação. Adicionarei um manto composto de igual numero de Ave-Marias e de Salve-Rainhas, de quinze Rosários e quinze dias de jejum em memória da sua graciosa visita a Santa Isabel. As franjas deste manto e outros enfeites serão feitos de seiscentas saudações e igual número de Salve-Rainhas em memória das consolações que lhe proporcionou o nascimento de seu adorável Filho.
“Farei os mesmos gastos para fornecer-lhe um véu. O colar que lhe destino terá o mesmo valor; e minhas intenções fabricando estes dois objetos, serão celebrar a alegria da apresentação e do encontro de Jesus no templo. Em fim colocarei em sua mão real um ramalhete composto de trinta e três orações dominicais, acompanhadas do mesmo número de saudações, de Glória Patri, de Salve-Rainhas e de Rosários, para honrar os trinta e três anos que meu Jesus viveu neste mundo.”
Lia-se em seguida um post-scriptum: “Esta vestimenta já foi concluída. Deus seja louvado! Só me resta agora pedir perdão à minha Mãe do céu pelos defeitos do meu trabalho e pela ousadia de oferecer-lh’o.”
Notemos nesta admirável confecção, como dominam as orações e os mistérios do Rosário. Nós também, durante este mês, no qual tantos altares se adornam de flores, ofereçamos a Maria não somente flores materiais, mas ainda as rosas espirituais do Terço, que lhe são tão agradáveis.
Logo que a primavera surgia, o Bem-aventurado Henrique Suzo costumava colher cuidadosamente o primeiro botão que desabrochasse para o depositar piedosamente sobre a fronte de uma delicada estátua de Maria, que considerava como o seu mais precioso tesouro, rogando-lhe que a aceitasse. Um certo ano pelo mês de Maio, enquanto se entregava a esta piedosa prática, pareceu-lhe ver o céu aberto e ouvir vozes harmoniosas cantarem o Magnificat. Então a Virgem Maria chamou-o e ordenou-lhe que entoasse o versículo: “O vernalis Rosula! – Ó Rosa primaveril!” Henrique obedeceu, e logo três ou quatro anjos o acompanharam; mas o seu cântico era tão melodioso que o servo de Maria perdeu o uso dos sentidos, não podendo resistir mais à doce emoção que experimentava.
Tais são os cânticos da celeste estância!
Os nossos, isto é os do Rosário, compostos pelo próprio Deus e trazidos à terra pelos anjos e sua Rainha, não são tão doces aos ouvidos de nossa Mãe, que os recebe com um amor tão terno para conosco? Oh! como ela se alegra quando a saudamos, a imploramos e meditamos suas grandezas!… Corno se regozija! E porque? Porque nós lhe proporcionamos ocasião de nos fazer bem. Uma mãe não liga menos apreço ao seu louvor que à felicidade de seus filhos? Maria tão exaltada nos céus, tão celebrada pelos anjos e pelos bem-aventurados, atende menos aos nossos elogios que às nossas preces. Estas vão direito ao seu coração maternal, que conhece nossa miséria e as necessidades de nossas almas.
Recitemos, pois, o Rosário durante o mês que começamos, para corrigirmos os nossos defeitos, vencermos as tentações e alcançarmos as virtudes mais conformes ao nosso estado de vida e às nossas obrigações de cada dia.
O Rosário pode, com efeito, conduzir-nos à mais alta perfeição. A encarnação do Verbo nos ensina a humildade e desperta a nossa fé, duplo fundamento da verdadeira santidade. Todos os Mistérios gozosos nos revelam as virtudes da infância cristã; a simplicidade, a inocência, a docilidade, a busca de Deus são virtudes indispensáveis ao progresso espiritual. Em seguida veem as virtudes fortes e generosas, provocadas pela paixão do Salvador. Tais são: a submissão nas provas interiores, a prática da penitência, o amor das humilhações, uma invencível paciência e uma dedicação sem limites à causa de Deus e das almas. Estas virtudes levam-nos à perfeita união com o nosso Sumo Bem, como os Mistérios dolorosos conduziram Jesus e Maria à glória ou à, posse de Deus. Tais são os preciosos frutos que devemos especialmente tirar da recitação do Rosário, durante o mês consagrado à Rainha dos Anjos.
O minha Soberana e minha Mãe, que posso eu oferecer-vos durante este belo mês? Nada é mais próprio para dedicar-vos do que um mimoso florão, em vossa homenagem composto dia a dia pela prática das virtudes.
Ofertar-vos-ei na segunda-feira a violeta da Humildade; na terça-feira, a primavera da Simplicidade; na quarta, a margarida da Modéstia; na quinta, o lírio da Pureza, na sexta, os jacintos da Obediência; no sábado, o goivo da Doçura; no domingo, as rosas da Caridade. A estas flores perfumadas quero ajuntar, ó minha Mãe, alguns ramos de mirra de uma constante Mortificação; tudo enfeixado em forma de ramalhete pelo precioso laço do santo Rosário recitado com atenção, confiança e devoção. Dignai-vos abençoar, ó Virgem santa, estas humildes resoluções que deponho aos vossos pés e coloco com alegria sob vossa maternal proteção.
Ramalhete espiritual
Recolhamos ao menos, nos pensamentos precedentes, a disposição sincera de trabalhar durante este mês em extirpar do nosso coração, o defeito de que mais nos censuram, e em adquirir a virtude mais necessária para a nossa santificação. Com este fim invoquemos muitas vezes a Divina Mãe, pela manhã, à noite, durante o dia, quando nos sobrevier alguma dor, aflição ou tentação; do mesmo modo no começo, no meio e no fim de cada ação mais ou menos importante.
Trinta e Uma Meditações sobre as Excelências do Santo Rosário, pelo Padre Luiz Bronchain, Redentorista, 1912.
Última atualização do artigo em 12 de setembro de 2026 por Arsenal Católico