Ad Gloriam Dei et Salutem Animarum
Arsenal
CAtólico

O insensato zomba do pecado (Prov. XIV, 9).

Quem quiser deveras salvar a sua alma, há de aborrecer e odiar o pecado mortal, e abster-se de cometer voluntariamente qualquer pecado venial.

Pois não é ele também uma ofensa de Deus? Não é uma ingratidão e rebelião contra ele? Haverá alguém, que, amando deveras a seu pai, se atreva indiferentemente a praticar a miúdo atos, que, apesar de serem de pouca importância, o vão agravar e ofender? Porventura, não derramou Jesus Cristo o seu Sangue para nos libertar do pecado venial? Depois do pecado mortal, haverá no mundo mal maior do que ele?

É certo que o perdão é fácil; para o apagar, bastam as boas obras, a oração, e os sacramentais, sem ser necessário recorrer à confissão; contudo à luz da fé vejo um ligar de tormentos, povoado dos prantos e gemidos das pobres almas que ali estão privadas da visão de Deus, por serem culpadas de pecados veniais.

No céu não se pode entrar com a mais leve nódoa de impureza (1); esta tem de ser consumida pelo fogo (2); só o ouro puro pode brilhar nos âmbitos do céu e refletir os raios do sol eterno.

Mas, a infidelidade que o pecado venial encerra é ainda maior; dispõe muito para o mortal.

Nem sempre é fácil distinguir a linha divisória que vai entre o pecado mortal e o venial; em todo o caso há muitas culpas veniais às quais pouco falta para se transformarem em mortais; caminhas à beira dum abismo: a queda é inevitável, se desaparecer de debaixo dos teus pés a porção de terreno sobranceira a ele; e qual é essa porção de terreno?

Assim como a enfermidade vai arrastando pouco a pouco o corpo para a morte, assim o pecado venial vai dispondo a alma para o mortal.

E de fato, todo o pecado venial diminui em nós a caridade, não enquanto á natureza, mas enquanto aos seus efeitos; vai nos tornando cada vez mais indiferentes, acostumando-nos cada vez mais ao pecado, até que ao assalto duma tentação mais violenta, acabamos finalmente por sucumbir.

O pecado venial magoa também o Espírito Santo (3), que acaba por se separar cada vez mais na alma ingrata, negando-lhe aquelas graças especiais necessárias para poder vencer as tentações violentas.

Satanás ao ver que nos divertimos com o pecado, enche-se também de ousadia; espia-nos e espreita uma ocasião em que nos colha desprevenido, para nos surpreender e ferir de morte.

Bem vês, quão graves perigos traz consigo o pecado venial.

O que despreza as coisas pequenas, vai-se pouco a pouco arruinando (4).

Que pensas agora do pecado venial, das distrações mais ou menos voluntárias na oração, daqueles sentimentos e juízos pouco caritativos para com o próximo, daquelas faltas de verdade, daqueles pensamentos de cobiça?

Aprende a acautelar-te nas coisas pequenas, para não vires a cair desastradamente nas grandes.

As feridas leves, não deixas de as curar por serem leves; as manchas do rosto não deixas de as lavar por mais insignificantes que sejam; no vestido não queres também que transpareça a mais ligeira ruga. Quanto mais deverás procurar a formosura e integridade da alma! Mais ainda do que o teu interesse, deveria o amor de Deus levar-te a fazer o propósito firme de não o ofenderes jamais, nem a troco de nada do mundo. Feliz o dia, em que se firmar em ti este bom propósito! será o princípio duma vida nova e feliz; Deus não se deixa vencer em generosidade.

A Virgem Prudente, Pensamentos e Conselhos acomodados às Jovens Cristãs, por A. De Doss, S.J. versão de A. Cardoso, 1933.

(1) Apoc. XXI, 27.
(2) I Cor. III, 15.
(3) Ef. IV, 30.
(4) Ecl. XIX, 1.

Última atualização do artigo em 12 de setembro de 2026 por Arsenal Católico

Tags: