Ad Gloriam Dei et Salutem Animarum
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Jejum e Abstinência - "Cristo no Deserto" pelo artista italiano Moretto da Brescia.
"Cristo no Deserto" pelo artista italiano Moretto da Brescia.

Quais são as obrigações do fiel católico em relação ao jejum e à abstinência?

Introdução: Necessidade e Excelência do Jejum

Entramos na Quaresma. É um tempo muito precioso. A Quaresma é uma grande graça de Deus. Como diz são Basílio, na homilia do quarto domingo da Quaresma, o jejum merece todos os elogios. Com efeito, ele alivia o peso da carne, dá à alma como que asas para mais facilmente elevar-se a Deus. Ah! lembro-me que outrora chegava a pensar no fim da Quaresma: “pena não durar para sempre”, tanto me sentia à vontade nela. É verdade, no entanto, que não teríamos forças para tanto. Se não podemos prolongar por toda a vida este tempo de penitência, aproveitemos dele quando nos é oferecido.

Pelo jejum, nos privaremos de alguma coisa. Mas é preciso saber que o jejum não consiste tão-somente na privação. Seria ruim se assim fosse: o jejum seria um fardo acabrunhante. Portanto, lembrem-se que toda virtude consiste em duas coisas: na privação e no gozo. Ora, também é assim quanto a virtude da temperança: privamos o corpo da refeição para que a alma goze de Deus. Ah! toda alma que tem amor pelo jejum compreende o que digo. Os mundanos não compreenderão nada. Leiam o prefácio da Quaresma no rito Ambrosiano, que eu reproduzi no Bulletin (fevereiro de 1896), e verão que o jejum alimenta a fé, fortifica a esperança e faz progredir a caridade.

Quanto aos jovens que estão dispensados do jejum, rezem por aqueles que jejuam. De resto, Padres e Irmãos queridos, se queremos jejuar, peçamos a Deus que nos dê força para tanto. É a Deus que devemos pedir esta graça. Sem Deus, sem sua graça, o jejum ultrapassaria nossa boa vontade, e talvez fossemos obrigados a ceder a suas reclamações.

(Padre Emmanuel OSB, Conferência da Terça-feira, 18 de fevereiro de 1896 – véspera da quarta-feira de cinzas, Mesnil St-Loup, França).

Status Quaestions

A Igreja tem o poder de estabelecer normas relativas à penitência que os seus fiéis hão de observar durante o Ano litúrgico. Dependendo as épocas, estas normas têm sofrido câmbios: quer para um maior rigor, quer para um menor rigor.

Hoje estamos frente a uma situação complexa:

– A lei vigente está inspirada por um espírito cripto-protestante que solapadamente nega a necessidade das obras, e nomeadamente da penitência, em particular o jejum e a abstinência quaresmal; Escrevia D. Marcel Lefebvre em 1982: «no Concílio, os Bispos requereram uma tal diminuição do jejum e da abstinência que estas prescrições têm practicamente desaparecido. Devemos reconhecer que o facto de tal desaparição é a consequência do espírito ecuménico e protestante que denega a necessidade da nossa participação na aplicação dos méritos de Nosso Senhor em cada um de nós, para obtermos a remissão dos nossos pecados e o restauro da nossa filiação divina» (D. Marcel Lefebvre, Carta do 14/02/1982).

– Mas, por outro lado, nós temos é de conservar o verdadeiro espírito cristão, no meio desta crise.

Para sair desta encruzilhada, é preciso distinguir entre o que é hoje obrigatório, em virtude da obrigação legal do Direito canónico. E o que é aconselhável observar voluntariamente para cultivar o verdadeiro espírito católico. Em efeito, não podemos substituir-nos à autoridade da Igreja, impondo cargas que elas já não impõem; mas devemos incitar os fiéis a suprirem por virtude o defeito da lei.

O Que é Hoje Obrigatório:

Jejum e abstinência no Novo Código de Direito Canônico de 1983.

Os dias e períodos de penitência para a Igreja universal são todas as sextas-feiras de todo o ano e o tempo da Quaresma [Cânon 1250]. A abstinência de carne ou de qualquer outro alimento determinado pela Conferência Episcopal [No caso da Conferência Episcopal Portuguesa, cfr: http://www.liturgia.pt/documentos/jejum.php] deve ser observada em todas as sextas, exceto nas solenidades. [Cânon 1251].

A abstinência e o jejum devem ser observados na Quarta-feira de Cinzas e na Sexta-feira Santa. [Cânon 1252]. A lei da abstinência vincula a todos que completaram 14 anos. A lei do jejum vincula a todos que chegaram à maioridade, até o início dos 60 anos [Cânon 1252].

Estas prácticas obrigam sub gravi (sob pena de pecado mortal). De si, são muito brandas, pelo tanto, um verdadeiro fiel católico naturalmente tenderá a procurar fazer mais do que contentar-se com apenas a observância do estrictamente obrigatório.

O Que é “Vivamente Aconselhável”

Escrevia D. Marcel Lefebvre aos padres da Fraternidade São Pio X em 1980: «Aconselhamos vivamente que se encoraje os fiéis a observar a abstinência todas as sextas-feiras e a jejuar nas sextas-feiras da quaresma e mesmo, se puderem, estender o jejum e a abstinência a toda quaresma e às quatro Têmporas».

Estas prácticas (menos a abstinência nas sextas-feiras do ano que segue vigente, salvo disposição expressa das conferências episcopais) NÃO obrigam sub gravi (não obrigam sob pena de pecado mortal), mas são muito aconselháveis.

Publicamos as prescrições gerais do código de 1917, com menção da extensão do jejum e abstinência do Sábado Santo até meia noite que foi ordenada por Pio XII, para servir de guia para os fiéis católicos desejosos de seguir a anterior disciplina.

[Notemos que o Código de Direito Canónico de 1917 já abrandava consideravelmente a disciplina anterior, especialmente referente à abstinência: antes, não se podia comer nenhum produto de origem animal, tais como leite, ovos, etc…].

Jejum e abstinência tradicionais conforme o Código de Direito Canônico de 1917.

Dias de jejum simples:

O jejum consiste numa refeição completa e duas menores, que juntas são menos que uma refeição inteira. Não é permitido comer entre as refeições, mas líquidos podem ser tomados. É permitido comer carne em dia de jejum simples. Os dias de jejum simples são: segundas, terças, quartas e quintas-feiras da Quaresma. [Cânon 1252/3]

Todos eram vinculados à lei do jejum a partir dos 21 até os 60 anos.

Dias de abstinência:

A abstinência consiste em abster-se de comer carne de animais de sangue quente, molhos ou sopa de carne nos dias de abstinência. A abstinência era em todas as sextas-feiras, a não ser que fosse um Dia de Guarda [cânon 1252/4]. A lei da abstinência vinculava a todos que tinham completado 7 anos de idade. [Cânon 1254/1].

Dias de jejum e abstinência:

O jejum e abstinência consistem numa refeição completa e duas refeições menores que juntas são menos que uma refeição inteira. Não era permitido comer carne de animais de sangue quente, molhos e sopas de carne. Não era permitido comer entre as refeições, embora bebidas pudessem ser tomadas. Esses dias eram: quarta-feira de cinzas, toda sexta e sábado da Quaresma (até meia noite no Sábado Santo), em cada uma das Quatro Têmporas, Vigília de Pentecostes, Assunção, Todos os Santos e Natal. [Cânon 1252/2]

Conclusão: O Espírito do Jejum Quaresmal

«No próximo domingo, no ofício de matinas, faremos esta bela oração: Paradisi portas aperuit nobis jejunii tempus; suscipiamus illud orantes et deprecantes, ut in die resurrectionis cum Domino gloriemur.

Esta oração, que só encontramos uma vez na liturgia latina, é quase diariamente repetida na liturgia da Quaresma dos Gregos. Ela é maravilhosamente bela e, ademais, reveste-se de grande interesse, pois assinala a razão fundamental do jejum.

A gula nos expulsou do Paraíso na pessoa do primeiro homem: o jejum nos faz entrar nele. Oh! Quão sublimes os resultados do jejum. Mas não basta somente jejuar: a oração deve acompanhá-lo: suscipiamus illud orantes. Sem a oração, o jejum não teria nenhuma virtude; sem a oração, ele seria até impossível. Oremos e jejuemos. No início da santa Quaresma, eu vos darei diversas orientações. Em primeiro lugar, recomendo a oração. Os que não rezam dizem que não conseguem jejuar. Eu acredito no que dizem facilmente. O corpo privado de alimento protesta pela fome: o estomago vazio se queixa. É impossível resistir a estes gritos se a alma não se elevou a Deus pela oração.

É também preciso que nosso jejum seja um jejum universal. Utamur ergo parcius verbis, cibis et potibus. — “Sejamos, pois, de maior parcimônia no uso da palavra, alimentos e bebidas.” Nós nos absteremos de violar o silêncio. É por isso que nossas constituições prescrevem que, após o jantar, cada um deve se retirar para sua célula ao sinal dado pelo sino. Á partir deste momento, até as 4 horas, é o grande silêncio, semelhante ao da noite. A cada um darei um livro; e, durante este recolhimento após o jantar, cada um lerá algumas páginas, para que a alma seja alimentada e fortificada pelas santas leituras.

Ainda uma palavra sobre o refeitório. Durante a Quaresma, quando chega a hora do jantar, o apetite se faz sentir com força: temos a sensação de que comeríamos a mesa junto com os pratos que nela estão! somos levados a comer com precipitação. Ora, isso de nada vale! quanto maior a fome, mais deve-se comer devagar. Se não observarmos esta regra de higiene, nos expomos a uma má digestão. Assim, saibam que, durante a Quaresma, será preciso um pouco mais de tempo para jantar que de ordinário. Assim, a Quaresma será útil aos nossos corpos bem como às nossas almas. Sanará tanto o primeiro como o segundo; de resto, é por isso que foi instituído, conforme testemunha a Igreja na bela oração da missa do primeiro sábado da Quaresma: Hoc solemne jejunium quod animabus corporibusque curandis salubriter institutum est. — “Este solene jejum, que foi salutarmente instituído para a cura de nossas almas e de nossos corpos.

O velho padre de Villadin, nosso venerável patriarca, costumava dizer quando se aproximava a Quaresma: “Eis que o médico vem”. Este santo padre fazia a sua quaresma abstendo-se inteiramente de carne. Tinha razão quanto ao efeito do jejum: se os homens jejuassem, evitariam uma série de doenças. Com estas pequenas observações, guardando no coração os cuidados que acabo de lembrar, espero que façam todas uma boa Quaresma. Assim seja!»

Padre Emmanuel OSB, Conferência do 2 de março de 1897, Mesnil St-Loup, França – Fonte: FSSPX Portugal

Última atualização do artigo em 12 de setembro de 2026 por Arsenal Católico