Ad Gloriam Dei et Salutem Animarum
Arsenal
CAtólico
Alessandro Allori, “Cristo na Casa de Maria e Marta”, 1605 (foto: Domínio Público)

A ceia de Betânia – Segunda-feira santa

Ó Senhor, antes que o Vosso Corpo seja desfigurado pela Paixão, quero prestar-Lhe, com Maria de Betânia, as minhas humildes e devotas homenagens.

1 – Eis a cena comovedora apresentada pelo Evangelho da Missa de hoje (Jo, 12, 1-9): “Seis dias antes da Páscoa Jesus foi a Betânia… e deram-Lhe lá uma ceia; e Marta servia… então tomou Maria uma libra de bálsamo feito de nardo puro de grande preço, e ungiu os pés de Jesus e enxugou-Lhe os pés com os seus cabelos”. Marta, como de costume, anda atarefada no serviço; Maria, ao contrário, ocupa-se só de Jesus e, para O obsequiar, não lhe parece demais derramar sobre a Sua Pessoa um vaso inteiro de unguento precioso… Alguns convidados murmuram: “Para que foi este desperdício de bálsamo? Não se poderia ter vendido e dado aos pobres?”; estavam irritados contra ela (cfr. Mc. 14, 4 e 5). Maria, porém, não responde nem se desculpa; toda ocupada com o seu Mestre adorado, continua o seu gesto de devoção e amor.

Maria é o símbolo da alma enamorada de Deus, que se Lhe entrega exclusivamente consumado por Ele tudo o que é, tudo o que possui; é o símbolo daquelas almas que, deixando total ou parcialmente a atividade externa, se dedicam total ou parcialmente a atividade externa, se dedicam antes ao serviço direto de Deus, para se darem a uma vida de mais íntima união com Ele. E quem não compreende, murmura, como se fosse desperdício consumir por Deus aquilo que não se julgaria desperdício se fosse consumido em obras. Se tudo o que somos e temos é dom de Deus, será realmente um desperdício usar dos Seus dons para os sacrificar unicamente em Sua honra, suprindo assim a indiferença de tantas criaturas, que não têm sequer um pensamento par Ele?

O dinheiro, o tempo, as forças e ainda a vida humana, que se imolam no serviço direto do Senhor, não são valores perdidos, mas valores empregados no que pode existir de mais grandioso. A esmola aos pobres é um dever, mas o amor para com Deus, o culto de Deus, é uma obrigação ainda mais grave. E se deveres urgentes de caridade exigem às vezes que abandonemos o serviço de Deus para nos dedicarmos ao serviço do próximo, não devemos por isso inverter os papéis: Deus deve ter sempre o primeiro lugar.

Além disso é o próprio Jesus que toma a defesa de Maria: “Deixa-a, que ela reserve este perfume para o dia da minha sepultura”. Em nome de todas as almas amantes, Maria prestou ao santíssimo Corpo de Jesus, antes que fosse desfigurado pela Paixão, a última homenagem de um amor ardente e devoto.

2 – No Evangelho de S. João diz-se expressamente que as murmurações contra o gesto de Maria foram provocadas por Judas Iscariotes. Ao lado da figura de Maria, a fidelíssima, a sinistra figura do traidor adquire um realce mais tenebroso ainda; materialmente faz parte dos doze, mas espiritualmente há muito que está separado deles. Desde o ano anterior, quando o Mestre anunciara a Eucaristia, Judas estava perdido e já então Jesus dissera referindo-Se a ele: “Não fui eu que vos escolhi a vós os doze? E contudo um de vós é um demônio” (Jo. 6, 71). Sim, Judas fora escolhido por Jesus com um amor de predileção, fora admitido entre os Seus mais íntimos e, como os outros onze, tinha recebido a grande graça do apostolado. Ao princípio devia ter sido fiel, depois o apego aos bens terrenos e a cobiça do dinheiro começou a invadi-lo, até arrefecer totalmente o seu amor para com o Mestre, a ponto de o transformar o seu amor para com o Mestre, a ponto de o transformar de apóstolo em traidor. Jesus, na Sua presciência divina, tudo tinha previsto e, não obstante, porque Judas ao princípio fora digno da Sua confiança, admitira-o igualmente no colégio apostólico; e mesmo depois, quando já começara a prevaricar, continuou a tratá-lo como aos outros, demonstrando-lhe o mesmo amor, a mesma estima.

Situação muito penosa para o Coração sensibilíssimo de Jesus; contudo, Ele não quis evitá-la a fim de nos ensinar com quanto amor, com quanta paciência e delicadeza devem ser tratados os inimigos, mesmo os mais obstinados. Quantas vezes o Mestre terá querido iluminar aquele espírito entenebrecido? Com certeza terá pensado de um modo especial em Judas quando pregava sobre o desprendimento dos bens terrenos: “Não podeis servir a Deus e á riqueza… Que aproveita ao homem ganhar todo o mundo, se vier a perder a sua alma?” (Mt. 6, 24; 16, 26); todavia estas palavras que deveriam ter para o traidor o significado de um chamamento amoroso, não conseguiram abalá-lo. Judas representa aquelas almas que receberam de Deus graças de predileção, mas que, pelas suas infidelidades, se tornaram indignas delas. Alma consagrada, ao menos tu sê fiel à tua vocação e, para isso, não permitas que o mais pequeno apego se enraíze no teu coração.

Colóquio – Eis, Senhor, dois caminhos muito opostos e contraditórios: o caminho da fidelidade e o caminho da traição; a fidelidade amorosa de Maria de Betânia, a traição horrível de Judas. Como quereria, ó Senhor, possuir para Vós um coração como o de Maria. Como quereria que em mim estivesse inteiramente morto e destruído o traidor! Mas Vós dizeis-me: “vigiai e orai para que não entreis em tentação” (Mc. 14, 38). Oh! como tenho necessidade de vigiar e orar para que o inimigo não venha semear no meu coração o gérmen venenoso da traição! Fazei, Senhor, que eu Vos seja fiel, fiel a todo o custo, fiel nas coisas grandes e pequenas, a fim de que as raposas dos pequenos apegos não possam invadir nem devastar a vinha do meu coração.

“Senhor Jesus, se quero meditar piamente na Vossa Paixão, a primeira cena que se me apresenta é a perfídia do traidor. Estava cheio de tanto veneno de engano que Vos traiu a Vós, seu Mestre e Senhor, tão inflamado pelo fogo da avareza que Vos vendeu por dinheiro, ó bom deus, entregou o Vosso Sangue preciosíssimo por vil moeda: foi tanta a sua ingratidão que perseguiu até à morte quem o tinha elevado à dignidade excelsa de Apóstolo… Ó Jesus, que excessiva foi a Vossa bondade para com o discípulo endurecido! Se bem que fosse tão grande a impiedade do traidor, impressiona-me infinitamente mais a Vossa dulcíssima mansidão, ó Cordeiro de Deus.

“Esta doçura é para nós um exemplo. Eis aqui, ó Senhor, o homem a quem admitistes a partilhar as Vossas confidências, o homem que parecia tão unido a Vós, o Vosso Apóstolo, o Vosso íntimo, o homem que saboreou o Vosso pão, o homem que na santa Ceia comeu conVosco as doces iguarias… e este homem dirigiu contra Vós, seu Mestre e seu Deus, o golpe da iniquidade. E apesar disso, mansíssimo Cordeiro, não duvidastes entregar-Vos à boca maliciosa que Vos beijou no momento da traição. Como aos outros Apóstolos, deste-lhe tudo, tudo o que teria podido abrandar a dureza de um mau coração” (cfr. S. Boaventura).

Ó Jesus, pelo atroz sofrimento causado por tão infame traição ao Vosso coração, peço-Vos que me concedais a graça de uma piedade íntegra, total, amorosa e devota.

Intimidade Divina, Meditações Sobre a Vida Interior Para Todos os Dias do Ano, P. Gabriel de Sta M. Madalena O.C.D. 1952.

Última atualização do artigo em 12 de setembro de 2026 por Arsenal Católico