Ad Gloriam Dei et Salutem Animarum
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Annibale Carracci, Cristo zombado e coroado de espinhos [Detalhe], Cerca de 1596 (Domínio Público / Wikimedia Commons)

O manso Cordeiro – Terça-feira santa

Ó Jesus, concedei-nos a graça de penetrar no abismo de dor, aberto pelo pecado no Vosso dulcíssimo Coração.

1 – Na Epístola da Missa do dia, Jeremias (11, 18-20), fala-nos simbolicamente do Salvador paciente: “Eu era como um manso cordeiro que é levado a ser vítima”. Esta frase exprime a atitude de Jesus perante as amarguras da sua Paixão, amarguras que Ele já conhecia uma a uma nos seus pormenores mais concretos, que já tinha experimentado em Seu coração e que não O tinham abandonado nem sequer um instante ao longo da Sua existência terrena. Se na sua realidade histórica e material, a Paixão do Senhor se cumpriu em menos de vinte e quatro horas, na sua realidade espiritual durou toda a Sua vida.

Jesus sabia o que O esperava e o Seu coração sofria indizíveis angústias; contudo não só aceitou, mas até desejou ardentemente aquela hora, “a Sua hora”, entregou-Se nas mãos dos Seus inimigos com a mansidão de um cordeiro que é conduzido ao sacrifício. “Deixei a minha casa – diz-nos ainda pela boca de Jeremias – … entreguei a minha alma amada nas mãos dos meus inimigos” (BR.). Judas atraiçoou-O, os Seus inimigos arrastaram-nO aos tribunais, condenaram-nO à morte, despedaçaram-Lhe o corpo de uma forma horrenda, mas Jesus, mesmo na Paixão, continua sempre Deus, o Mestre, o Senhor: “Tenho poder para dar a minha vida e para de novo a reassumir”, canta a liturgia nas Vésperas de hoje… (BR.). Jesus entregou-Se à Paixão “porque quis” (Is. 53, 7), e quis porque, como Ele próprio disse, “esse é o mandamento que recebi do meu Pai” (Jo. 10, 18).

Porém, desejando-a, experimentou toda a sua amargura: “Rodearam-me dores de morte… sofri contumélias e terrores daqueles que eram meus amigos… Ó Deus de Israel, por Vós sofro este opróbrio e a vergonha sobre o meu rosto” (Br. e MR.). Procuremos penetrar nestes sagrados textos que hoje a liturgia nos apresenta a fim de nos fazer compreender alguma coisa da Paixão dolorosíssima de Cristo.

2 – Na Missa de hoje lê-se a “Paixão” escrita por S. Marcos (14, 1-72; 15, 1-46), o discípulo de Pedro. Nenhum outro evangelista descreveu tão minuciosamente a negação de Pedro: é a humilde confissão que o chefe dos Apóstolos faz pela boca do seu discípulo. Durante a última Ceia quando Jesus predisse aos Apóstolos que naquela noite O iriam abandonar, Pedro protestou com toda a vivacidade do seu caráter ardente: “Ainda que todos se escandalizem a Teu respeito, eu não (me escandalizarei)”. Em vão o Mestre lhe predisse a sua deserção, designando os seus mais pequenos pormenores: “Nesta mesma noite, antes que o galo cante a segunda vez, me negarás três vezes”; a demasiada confiança em si mesmo tinha-o tornado cego, impedindo-o de acreditar nas palavras de jesus e também de duvidar das suas forças: “Ainda que me seja preciso morrer contigo, não Te negarei”; Pedro era sincero na sua afirmação, mas pecava por presunção; não tinha ainda feito a experiência prática da miséria e da fraqueza humanas, pelas quais nem o homem mais corajoso, sem o auxílio da graça divina, pode manter-se fiel ao dever. No Getsemani fará a sua primeira experiência quando também ele, com os outros, não for capaz de velar “uma hora” com o Mestre, e fará a segunda quando, no momento da prisão de Jesus, fugir cheio de medo. Mas estas duas experiências não bastarão para abalar a sua presunção: será necessária uma terceira, a mais dolorosa.

No pátio do palácio de Caifás – onde tinha ido, passado o primeiro susto, ver em que paravam as coisas – Pedro é reconhecido por uma criada como sendo discípulo de Jesus, mas levado pelo temor de se ver envolvido no processo, nega imediatamente, dizendo: “Eu não O conheço”. Uma vez caído não é capaz de se levantar e, novamente interrogado, nega uma segunda e uma terceira vez. “Imediatamente o galo cantou e voltando-Se o Senhor, olhou para Pedro”; aquele canto e muito mais aquele olhar cheio de amor e de dor, fazem-no cair em si, “e tendo saído para fora, chorou amargamente” (Lc. 22, 62). A venda da presunção cai-lhe dos olhos e Pedro que realmente ama a Jesus, reconhece a sua fraqueza e a sua culpa. O amor e o olhar do Mestre salvaram-no. E agora que Pedro já não se fia em si, Jesus poderá fiar-se nele e confiar-lhe o Seu rebanho. Enquanto uma alma confiar em si, não está madura para a sua santificação nem para cooperar eficazmente na santificação dos outros.

Colóquio – “Ó Deus da minha alma! Que pressa nos damos em ofender-Vos e como Vós Vo-la dais maior em perdoar-nos! Mas que dizeis, Senhor! ‘Cercaram-me as dores da morte’. Oh! que grave coisa é o pecado, pois bastou um para matar um Deus com tantas dores! E que cercado estais delas ainda hoje, meu Deus! Onde podereis ir que não Vos atormentem? De todas as partes os mortais Vos cobrem de feridas.

“Ó cristãos, tempo é de defender o Vosso Rei e de O acompanhar em tão grande soledade. Como são poucos os vassalos que Vos ficaram féis!… E o pior é que se mostram amigos e Vos vendem em segredo. E quase não encontrais em quem Vos fiar.

“Ó amigo verdadeiro, com Vos paga mal quem Vos é traidor!

“Ó cristãos verdadeiros, vinde chorar com o Vosso Deus, pois não são só por Lázaro aquelas piedosas lágrimas, mas por aqueles que não haviam de querer ressuscitar ainda que Vós os chamásseis. Então, meu Deus, tínheis presente as culpas que cometi contra Vós. Acabadas sejam lá, com as minhas sejam acabadas as de todos! Ressuscitai a estes mortos. Seja a Vossa voz, Senhor, tão poderosa que embora não Vos peçam a vida, lha deis. Não Vos pediu Lázaro que o ressuscitásseis, por uma mulher pecadora o fizestes. Eis aqui uma outra, meu Deus, e muito maior. resplandeça a Vossa misericórdia: eu, embora miserável, Vo-lo peço pelos que não querem pedir” (T.J. Ex. 10).

Intimidade Divina, Meditações Sobre a Vida Interior Para Todos os Dias do Ano, P. Gabriel de Sta M. Madalena O.C.D. 1952.

Última atualização do artigo em 12 de setembro de 2026 por Arsenal Católico