Ad Gloriam Dei et Salutem Animarum
Arsenal
CAtólico
Uma jovem na igreja [croped], Anton Thiele, antes de 1874, Public Domain - Wikimedia Commons.jpg

A profanação da juventude

Os seus ossos, repletos dos vícios da
mocidade, dormirão com ele no pó.
Jó XX, 11.

Como é triste para o homem sentir-se ainda na primavera da vida, e ver-se já semelhante à árvore sem frutos, sem flores e sem folhas, com a copa despida, o tronco desfeito, e a ramagem lugubremente inclinada para a terra!

Ó juventude viciosa! Ó inocência tão prontamente perdida! Como as paixões despertaram cedo em ti, e como os maus hábitos começaram depressa a lançar profundas raízes no teu coração!

Ó coração ardente da juventude, que para tudo corre arrebatada e às cegas, levando a sua ousadia até a ir abraçar-se com a morte e o inferno.

Pobre coração! Ó mundo cruel que tens os olhos sobretudo nas almas juvenis, por saberes de quão grande alcance é poderes afogar em gérmen a vida da alma, ou, ao menos, impedir que ela se desenvolva.

Pecados de desobediência e de infidelidade aos deveres filiais.

Pecados contra a honra de Deus: dúvidas em matéria de fé, incredulidade, esquecimento de Deus, esquecimento da oração, oração feita com tibieza e superficialidade, falta de respeito na Igreja, repugnância em ouvir a palavra de Deus, abuso dos sacramentos.

Pecados ocultos, que poluem a imaginação e profanam o corpo. Abismos profundos, obscuros e pestilentos! Ignomínias que não se podem conceber bem exprimir! Uns dias vão contando aos outros, e umas noites narrando ás outras as suas torpezas.

Pecados de vil satisfação na comida e na bebida! Pecados de intemperança e de avidez.

Pecados de preguiça: negligência no cumprimento dos deveres do próprio estado, aversão ao trabalho, tempo mal gasto, prolongamento excessivo das diversões e do descanso, afeição desmedida às leituras, falta de seriedade cristã.

Pecados de avareza: infidelidades, prodigalidades, furtos.

Pecados nascidos do apreço excessivo de nós mesmos: orgulho, vaidade, arrogância: vanglória do talento, da nobreza, da posição, da formosura corporal; amor mal entendido da liberdade, insubordinação: eis outras tantas fontes de pecados gravíssimos.

Pecados contra a caridade: violação dos direitos alheios, inveja, intolerância, dureza, discórdia, ódio, rancor.

E se morte me viesse surpreender neste momento e mostrar-me como era vã a confiança que tinha em largos anos de vida? Tão jovem, e já no inferno!…

E se não morro neste momento, se me ficam ainda mais uns dias de vida, que fiz por Deus… pelo céu… para alcançar a vida eterna?

E ainda que me restassem muitos anos, acaso não poder já grande parte da vida? Não é para recear que só dias da velhice venham a ser semelhantes aos da triste juventude? Não estarão os meus ossos repletos dos vícios dela?[1] Não me estarão esses vícios correndo até no sepulcro?!

Quão difícil é a conversão, depois de nos acostumarmos a trilhar caminhos fáceis e atraentes. Porque fui tão longe? Porque não ouvi a voz da consciência, aconselhando-me a mudar de rumo?

Pobre coração! Volta-te de novo para Deus! O vácuo que em ti existe, há de ser preenchido, não com as vaidades terrenas, nem om os prazeres sensuais que vais mendigar do mundo, nem com novos crimes, que só acabariam de completar a tua desgraça, mas com o que é imortal, espiritual, santo e divino! Senhor da minha juventude! Onde vim parar sem vós!

Apartai-me da fonte de água viva, e cavei cisternas que não podem conservar as águas[2].

Submergi-me nas correntes turvas do Egito[3], e as suas águas impuras deixaram-me mais alterado.

Oh! fonte clara da vida![4] quem me conduzirá até vós, para que a minha juventude rejubile novamente![5]

A quem, senão a vós, hei de consagrar o resto da minha mocidade, cujo sacrifício vos é tão agradável? A quem, senão a vós, que sois o Deus do meu coração, e a minha herança na eternidade![6]

A Virgem Prudente, Pensamentos e Conselhos acomodados às Jovens Cristãs, por A. De Doss, S.J. versão de A. Cardoso, 1933.

[1] Jó, XX, 11.
[2] Jer. II, 13.
[3] Jer. II, 18.
[4] Salm. XXXV, 10.
[5] Salm. XLII, 4.
[6] Salm. LXXII, 26.

Última atualização do artigo em 12 de setembro de 2026 por Arsenal Católico