Tudo convida os que amam a Deus a elevar-se a ele, e não há criatura que lhes não anuncie o louvor do seu Bem-Amado, e, como dizia s. Agostinho depois de S. Ambrósio, tudo o que está no mundo lhes fala com linguagem muda, mas muito inteligível, em favor do seu amor; todas as coisas os provocam a bons pensamentos, dos quais ao depois nascem muitos surtos e aspirações para Deus. E eis aqui alguns exemplos.
S. Gregório, bispo de Nazianza, conforme ele próprio contava ao seu povo; passeando à beira-mar considerava como as ondas, avançando na areia, deixavam conchas e pequenos búzios, talos de erva, pequenas ostras e semelhantes bugigangas que o mar rejeitava e, por assim dizer, cuspia na praia; depois, voltando por outras vagas, tornava a tomar e tragava de novo uma parte daquilo, enquanto os rochedos dos arredores permaneciam firmes e imóveis, posto que as águas viessem bater rudemente contra eles. Ora, sobre isso fez ele este belo pensamento: que os fracos, como conchas, búzios e talos de ervas, se deixam levar ora à aflição ora ao consolo, à mercê das ondas e vagas da fortuna; mas que os grandes ânimos ficam firmes e imóveis em toda sorte de tempestades; e deste pensamento fez nascerem estes transportes de Davi: Ó Senhor, salvai-me, pois as águas me penetraram até à alma! Ó Senhor, livrai-me do profundo das águas! Sou levado ao fundo do mar, e a tempestade me submergiu. Porque então S. Gregório estava em aflição pela desgraçada usurpação que Máximo empreendera sobre o Séu bispado.
S. Fulgêncio, bispo de Ruspe, achando-se numa assembléia geral da nobreza romana em que Teodorico, rei dos Godos, discursava, e vendo o esplendor de tantos senhores que estavam em fila, cada qual segundo sua qualidade, disse: Ó Deus, como deve ser bela a Jerusalém Céleste, já que neste mundo a gente vê tão pomposa a Roma terrestre! E, se neste mundo tanto esplendor é concedido aos amadores da vaidade, que glória não deve estar reservada aos contempladores da verdade!
Dizem que Santo Anselmo, arcebispo de Cantuária, cujo nascimento honrou grandemente as nossas montanhas, era admirável nessa prática dos bons pensamentos. Perseguida pelos cães, uma lebrezinha acorreu para debaixo do cavalo desse santo Prelado, que na ocasião viajava, como para um refúgio que o perigo iminente de morte lhe sugeria; e os cães, a ladrarem por toda a volta, não se atreviam a violar a imunidade a que sua presa recorrera; espetáculo, por certo, extraordinário, que fazia rir toda a comitiva, ao passo que o grande Anselmo chorava e gemia, dizerido: Ah! estais rindo, mas o pobre animal não ri; os inimigos da alma perseguida e desencaminhada por diversos desvios a toda sorte de pecados, esperam-na no estreito da morte para arrebatá-la e devorá-la; e ela, toda assustada, busca por toda parte socorro e refúgio; e, se não o acha, zombam e riem dela os inimigos. Dito o que, foi-se embora Anselmo suspirando.
Constantino Magno escreveu honrosamente a S. Antão; com o que muito se admiraram os religiosos que estavam em volta dele, e Ele lhes disse: Como admirais que um rei escreva a um homem? Admirai, antes, que Deus eterno tenha escrito a sua lei aos mortais, e até lhes haja falado boca a boca na pessoa de seu Filho.
S. Francisco, vendo uma ovellla sozinha no meio de um rebanho de bodes, disse ao companheiro: Vede como essa pobre ovelinha é mansa entre essas cabras; Nosso Senhor ia assim manso e humilde por entre os fariseus. E, de outra vez vendo um cordeirinho comido por um porco, disse chorando: Oh! cordeirinho, como representas vivamente a morte de seu Salvador!
O grande S. Basílio diz que a rosa entre os espinhos faz esta advertência aos homens: O que há de mais agradável neste mundo, ó mortais, é misturado de tristeza; neste mundo nada é puro: o pesar está sempre colado à alegria, a viuvez ao casamento, o cuidado à fertilidade, a ignomínia à glória, o gasto às honrarias, o tédio às delícias e a doença à saúde. Bela flor, diz o santo personagem, a rosa; mas me dá grande tristeza, advertindo-me do meu pecado, pelo qual a terra foi condenada a dar espinhos.
Mirando um córrego e vendo nele o céu representado com as estrelas numa noite serena, disse uma alma devota: Ó meu Deus, essas mesmas estrelas me estarão debaixo dos pés quando me houverdes alojado nos vossos santos tabernáculos; e, como as estrelas do céu são representadas na terra, assim os homens da terra são represetnados no céu na viva fonte da caridade divina. Outra, vendo um rio correr, exclamou assim: Minh’alma jamais terá descanso enquanto não for abismada no mar da Divindade, que é a sua origem. E Santa Francisca, considerando um agradável riacho, à beira do qual se ajoelhara para rezar, foi arrebatada, repetindo várias vezes estas palavras bem de mansinho: A graça de meu Deus corre assim, doce e suavemente como este pequeno regato.
Outro, vendo as árvores floridas, suspirava: Por que é que só eu sou sem flores no jardim da Igreja? Outro, vendo uns pintinhos debaixo da mãe, disse: “Ó Senhor, conservai-nos debaixo da sombra das vossas asas. Outro, vendo o girassol, disse: Quando será, meu Deus, que minh’alma seguirá os atrativos da vossa caridade? E, vendo uns amores-perfeitos de jardim, belos para a vista, mas sem odor, disse: Oh! tais são as minhas cogitações, belas de dizer, mas sem efeito nem produção (” Vida devota”).
Se via belos campos, S. Francisco de Sales dizia: Somos o campo do Senhor, devemos cultivá-lo e semear nele o grão da sua palavra. Vendo uma igreja: Somos templos vivos do Espírito Santo, devemos orná-los de virtudes. A vista de uma árvore em flores: Não são só flores, porém frutos, que Deus nos pede. Pinturas belas lhe evocavam que a alma é a imagem de Deus e deve tornar-se semelhante a ele; jardins lhe evocavam que nossa alma, se a enfeitarmos com os frutos das virtudes, será para Deus um jardim de delícias. A vista duma fonte, suspirava: Ah! quando beberemos a longos goles nas fontes do Salvador? Em vendo rios: Quando será que iremos a Deus como estas águas ao mar? Um cordeiro representava-lhe a doçura de Jesus Cristo, que se chama o Cordeiro de Deus. Nos pobres ele via os membros queridos do Salvador; nos sacerdotes, seus ministros; e assim toda a natureza lhe servia como que de degraus para se elevar a Deus e se unir Aquele que era o único amor do seu coração (Hammon, Vida de S. Francisco de Sales, 7, 6).
O Segredo da Salvação, A Lembrança da presença de Deus e as Orações jaculatórias, extraído das Obras de S. Francisco de Sales, por Fernando Millon, Missionário de S. Francisco de Sales, 1952.
Última atualização do artigo em 12 de setembro de 2026 por Arsenal Católico