Ad Gloriam Dei et Salutem Animarum
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CAtólico
A Ressurreição de Lázaro
A Ressurreição de Lázaro [Detalhe], por Caravaggio, por volta de 1609, Museu Regional, Messina, domínio público, Wikimedia Commons

O Coração de Jesus, o Apóstolo São João, Lázaro e suas irmãs

Embora todos os apóstolos, exceto o traidor, amassem ao divino Mestre e fossem igualmente correspondidos com terno carinho, contudo, um amor mais íntimo unia o coração de São João ao de Jesus. Chamado ao apostolado na flor dos anos e ainda inocente, apenas conhece a Jesus, começa a amá-lo ternamente. Por amor de Jesus, segundo o parecer de São Tomás, recusa as núpcias que lhe foram oferecidas; para seguir a Jesus deixa pai e mãe e se une a Ele com laços de amor tão íntimo que o segue, e somente ele, até o Calvário.

Mas o Coração de Jesus deixou-se acaso vencer em amor pelo jovem Apóstolo?

Certamente que não.

O Coração de Jesus recompensa a João dispensando-lhe especial carinho. Em muitas ocasiões lhe dá sobejas provas de predileção. Embora fosse mais moço, Jesus o prefere aos demais; ao dispensar-lhe favores especiais, igualá-lo a Pedro em suas confidências, o antepõe ao príncipe dos apóstolos.

Onde, porém, Jesus se mostrou afetuosíssimo amigo foi na última ceia.

São João assenta-se perto dele. Depois de breves palavras, Jesus anuncia aos apóstolos que um deles o trairá e entregará a seus cruéis inimigos. E com excessiva consideração para com o indigno discípulo, cala seu nome perante os demais.

Tal notícia contrista profundamente os onze apóstolos fieis.

Todos desejavam conhecer o ingrato, mas não ousam perguntar. Pedro, o mais decidido de todos, quer sabê-lo a todo custo. Que faz então? Ele conhece perfeitamente a confiança mútua que há entre o Mestre e João. Mas não ousando interrogar ele mesmo, faz sinal ao discípulo amado para que em segredo interrogue ao divino Mestre que está a seu lado.

João não teme: achega-se ao ouvido de Jesus e com uma confiança mais de filho amoroso que de amigo, pergunta-Lhe quem é o traidor e Jesus imediatamente o satisfaz.

E isso não é tudo.

Observai o dito apóstolo, naqueles preciosos momentos ao lado de Jesus; pousa-Lhe a cabeça sobre o peito e Ele não só lhe não impede, mas até mostra que aprecia aquele ato de confiança; fa-lo sentir as palpitações de seu Coração divino; revela-lhe os mais íntimos segredos e o deixa repousar à vontade como uma mãe carinhosa deixa dormir no seu regaço o filhinho querido (1).

Ó apóstolo feliz, exclama a Igreja cheia de maravilha, ó apóstolo feliz, que tiveste a invejável sorte de pousar a cabeça no Coração de Jesus?

Ó Coração de Jesus, exclamamos nós com toda a razão, quem poderia compreender plenamente e experimentar as doçuras de vossa amizade?

Duas vezes somente se lê no Evangelho que Jesus chorou e uma delas foi por causa da aflição de uma família a quem muito estimava.

Mais. O maior milagre que Jesus operou, o fez levado por sentimento de amizade.

Uma grande desventura ferira a casa de Betânia. Morrera Lázaro e suas irmãs Marta e Maria jaziam imersas na mais profunda dor. Embora muitas pessoas as viessem visitar e apresentar-lhes as condolências, sua dor, contudo, não diminuía; derramavam todos os dias torrentes de lágrimas. Conhecendo Jesus essa grande aflição, foi ter com elas para levar-lhes pessoalmente o consolo de que Ele somente possuía o segredo. Ao entrar no castelo Jesus anuncia sua chegada. Marta, apenas ouve o nome de Jesus, corre a seu encontro para aliviar seu coração transido de dor, lhe narra o doloroso acontecimento. Depois de algumas palavras em que Jesus, para a consolar, manifesta sua intenção de operar um prodígio, Marta entra em casa e chamando à parte a irmã lhe diz em segredo: – Jesus está aqui e te chama. Maria não espera um instante; afasta-se logo, corre para junto do Mestre.

Seu afastamento rápido e inesperado, surpreende a todos os judeus, os quais tendo vindo visitá-la, envidam todos os esforços para a consolar. Pensaram eles que num excesso momentâneo de dor corria à tumba do irmão para a regar com suas lágrimas; por isso acompanharam-na.

A piedosa Madalena, porém, não corria com tanto afã ao túmulo do querido irmão, mas ao verdadeiro consolador das almas fieis. Ela precedera os judeus e prostrando-se aos pés do Divino Mestre exclama: Se estiveras aqui, Senhor, meu irmão não teria morrido. Dizendo isso desatou em copioso pranto. Essa cena comoveu o Coração de Jesus, o qual querendo consolar aquela piedosa família e dar-lhe uma prova de verdadeira amizade, se encaminha para a sepultura de Lázaro. Em chegando junto à tumba do amigo, duas lágrimas lhe brotam dos olhos.

Et lacrimatus este Jesus.

Os judeus se admiraram dessas lágrimas, dignas também de nossa admiração, e diziam: – Vêde como Ele o amava!

Oh! Essas lágrimas de Jesus são prova evidente de que o seu é um Coração de amigo verdadeiro!

O túmulo de Lázaro, um tanto afastado da residência, era uma caverna fechada por grande pedra.

Tirai a pedra, diz Jesus. Marta, julgando que não devia esperar tão grande milagre, imagina que Jesus lhe manda abrir a tumba, afim de ver pela última vez o falecido amigo. Por isso, a essa ordem exclama: – Senhor, há quatro dias que faleceu meu irmão, seu cadáver já exala mau cheiro. – Mas o Mestre insiste. E abre-se o sepulcro. Jesus, então, levanta os olhos ao céu como pedindo ao Pai permissão para operar um estrepitoso milagre. Aproxima-se do sepulcro e brada: – Lázaro, vem para fora. À voz de Jesus, Lázaro, com grande terror e admiração dos presentes, levanta-se e com mãos e pés atados ainda pela mortalha, com o rosto coberto por um véu e o corpo envolvido por um lençol, sai da caverna, e, livre das mortalhas, une-se à multidão para conduzir Jesus a sua casa (2).

Quem poderia exprimir os sentimentos do morto ressuscitado, a alegria das irmãs e seu eterno reconhecimento? Então sim, que essa ditosa família conheceu quanto lhe valera a amizade de Jesus.

Famílias católicas, buscai, apreciai, desejai ardentemente e conservai a amizade do Coração de Jesus e tereis também vós consolações e alegria na prosperidade e nos infortúnios.

O Jardim dos Eleitos, P. João Bonetti, Salesiano, Traduzido do italiano, Edição de 1887.

(1) S. João XIII.

(2) S. João XI.

Última atualização do artigo em 12 de setembro de 2026 por Arsenal Católico