A amizade, esse amor recíproco entre pessoas virtuosas pelo qual não somente se amam, mas sentem que se amam e procuram auxiliar-se mutuamente, é uma grande virtude.
O próprio Jesus quis dar-nos exemplo dessa amizade e foi o melhor dos amigos. Durante sua vida terrena, entre tantos que tiveram a grande felicidade de o conhecer, muitos sentiram-se suavemente atraídos por ele e Lhe consagravam um amor todo particular; entre esses devemos citar particularmente os apóstolos e em seguida Lázaro, Marta e Maria Madalena.
Jesus por sua vez, sem deixar de amar a ninguém, consagrava-lhes também um afeto todo especial e tinha para com eles os mais amorosos cuidados.
O Filho Eterno de Deus, o Rei dos Anjos e Senhor do universo, diante do qual todos os homens não são mais que míseras criaturas, ama tão carinhosamente seus apóstolos que não os chama já de servos, mas de amigos: – Vós sois meus amigos. já vos não chamarei servos, porque o servo não sabe o que faz seu senhor; mas vos chamo amigos, porque não tenho convosco nenhum segredo; porque vos comuniquei tudo o que ouvi de meu Pai (1).
O Papa São Clemente, discípulo de São Pedro, refere em seus escritos que esse Apóstolo em suas conversações em Roma, se comprazia em narrar as comoventes demonstrações de bondade do Mestre em sua vida mortal. Contava com particular complacência que em suas viagens com os discípulos pelas aldeias e cidades da Palestina, depois que todos se entregavam ao repouso, Jesus ia visitá-los para ver se estavam bem cobertos, se não sentiam frio e se nada lhes faltava e quando os encontrava mal acomodados, tudo fazia para poupar-lhes qualquer sofrimento, privando-se até do repouso para que eles pudessem descansar comodamente.
Para intimamente nos convencermos dessa incomparável amizade do Coração de Jesus, bastaria considerar o que fez no termo de sua vida terrena. Na noite da funesta em que devia cair em mãos de ferozes inimigos, pareceu esquecer-se de si mesmo para somente pensar em seus apóstolos.
Não cessava de os prevenir contra os perigos daquela noite fatal; fortalecia-os com amorosas exortações e os animava com as mais consoladoras promessas. E como se isso não bastasse, Ele os recomenda a seu Pai celeste com uma comovente oração.
Ouvi-a, meus caros, e dizei depois se Jesus não é o melhor os amigos: – “Ó Pai, recomendo-te esses meu queridos discípulos, que são também teus; até aqui eu os protegi e defendi e nenhum pereceu, exceto aquele infeliz que se quis perder contra minha vontade; agora, porém, estou para me separar deles e deixá-los sós, em mil perigos e dificuldades. Tu bem sabes, ó Pai, que o mundo os odeia, porque me seguiram e abraçaram minha doutrina; conserva-os, pois, fieis a teu amor e à tua graça; livra-os do mal, afim de que unidos a nós estejam sempre cheios de alegria e suave consolação” (2).
Eis agora Jesus no horto de Getsêmani.
Um grupo de sicários com armas e bastões já o circunda para os escarnecer e atormentar. três de seus discípulos, os três que lhe eram mais caros, Pedro, Tiago e João, foram igualmente ameaçados.
Nesse transe terrível, em que pensava Jesus? Não cuida de si; suas solicitudes, sua defesa são para seus amigos: Se a mim é que buscais, diz aos algozes, deixai livres estes (3). Cumprem-se suas ordens e nenhum dos apóstolos é ultrajado.
Esse carinhoso afeto de Jesus para com seus apóstolos não diminuiu com sua morte, pois que apenas ressuscitou, nos primeiros momentos de sua glória, os chama com o doce nome de irmãos. – Ide, disse às mulheres que por primeiro o viram ressuscitado, ide e anunciai-o a meus irmãos. (4) E pensar que esses irmãos o haviam pouco antes renegado e abandonado! Que dignação! Que terna demonstração de amizade por parte de Jesus!
Ó Jesus meu, vós sois verdadeiramente um amigo incomparável!
Se encontrar um amigo sincero é encontrar um tesouro, quem vos em por amigo, possui todos os tesouros.
O Jardim dos Eleitos, P. João Bonetti, Salesiano, Traduzido do italiano, Edição de 1887.
(1) S. João XV – 14-15.
(2) S. João XVII.
(3) S. João XVIII, 8.
(4) Math. XXVIII.
Última atualização do artigo em 12 de setembro de 2026 por Arsenal Católico