Ad Gloriam Dei et Salutem Animarum
Arsenal
CAtólico
Pintura-de-James-Tissot,-Ai-de-vós,-escribas-e-fariseus-hipócritas!,-entre-1886-e-1894,-Museu-do-Brooklyn,-domínio-público,-Wikimedia-Commons

O Coração de Jesus é benigno e manso

São João batista deu a Jesus o nome de Cordeiro: – Eis o Cordeiro de Deus, Ecce Agnus Dei – disse ele, um dia ao vê-lo passar (1).

E Jesus foi verdadeiramente um Cordeiro de mansidão.

Manso é o que tolera com calma as injúrias que recebe e retribui o mal com o bem. Manso é o que, mesmo podendo, não faz mal a ninguém, não resiste aos inimigos, compadece-se deles e os perdoa a todos.

Ora, ainda que o Coração de Jesus possuísse todas as virtudes possíveis no mais elevado grau de perfeição, todavia, parece que em toda a sua vida mortal se comprazia, de um modo todo especial, em se mostrar modelo de mansidão e doçura: – Aprendei de mim, dizia aos apóstolos, que sou manso e humilde de Coração e encontrareis paz para vossa alma (2).

Prezava tanto a mansidão, que não cessava de a inculcar. Quando impunha que se perdoassem as ofensas, quando ordenava que se amassem aos inimigos, quando enfim mandava fazer o bem aos que nos fazem mal e rezar pelos que nos perseguem, tinha em vista recomendar-nos a prática dessa virtude. E afim de que seus sequazes amassem e cultivassem a virtude da mansidão, prometeu-lhes a celeste bem-aventurança dizendo: – Bem-aventurados os mansos. E às suas palavras correspondiam os fatos.

Estava certo dia no Templo instruindo os judeus com toda a caridade e provando-lhes a divindade de sua doutrina, quando aqueles ímpios ingratos o interrompem dizendo: – Tu és um endemoniado. Ante tamanha grosseria, que faz Jesus? Ele que os poderia fulminar ou responder-lhes acerbamente, não lhes diz palavras; continua a instruí-los, como se deles houvera recebido louvor (3).

Outra ocasião lhe dirigiram o mesmo insulto e o meigo Jesus se limitou a responder: – Eu não sou endemoniado; e continuou seu sermão procurando persuadir aos que o ultrajavam de que sua doutrina vinha do céu (4). Se algumas vezes parecia esquecer-se de sua natural mansidão e falava em tom severo, era somente quando os fariseus, com seu mau exemplo e escândalo, enganavam aos simples e os arrastavam para a perdição. Então sim, Ele os exprobrava severamente quer para lhes incutir um justo temor, quer para que os incautos não fossem vítimas de seus atentados. Portanto, nunca agiu com desprezo, mas sempre por amor das almas, isto é, por um santo zelo e desejo ardente de salvá-las.

Indo Ele de uma feita a Jerusalém para uma festa, ao chegar aos confins da Samaria e devendo parar aí, mandou na frente dois discípulos, Tiago e João para que lhe procurassem um albergue. Os dois irmãos entram na cidade samaritana e pedem pousada para o Mestre e seus discípulos. Seus habitantes, porém, sabendo que Jesus não demoraria aí para pregar, mas seguiria diretamente para Jerusalém, inimigos como eram desta cidade e do Templo santo, recusaram recebê-lo dentro de seus muros e dar-lhe hospitalidade.

Muito agastados ficaram os dois apóstolos com tal recusa e recordando-se talvez de que precisamente naqueles lugares o profeta Elias fizera descer fogo do céu sobre alguns soldados ímpios (5), tornando ao divino Mestre lhe disseram: – Senhor, quereis que façamos descer, um fogo do céu que os consuma a todos? A esse pedido Jesus olha-os com semblante severo e os repreende dizendo: – Não sabeis de que espírito sois. Meu espírito é de mansidão, doçura e amor. Não vim à terra pra perder as almas, mas para salvá-las (6).

Dizendo isso ordenou-lhes fossem procurar albergue em outro lugar.

No Evangelho encontramos outra prova da incompreensível mansidão de Jesus no fato seguinte.

Em dia de festa, entrou, como soía fazer, na sinagoga de Cafarnaum, cidade em que residia habitualmente. No auditório, que se compunha em parte de fariseus, vê um pobre paralítico cuja mão não tinha sensibilidade nem movimento. Levados por natural amor do próximo, todos deveriam desejar que o bom Jesus consolasse aquele infeliz, curando-lhe a mão.

Bem outros, porém, eram os sentimentos dos fariseus. Estavam espreitando para ver se Jesus o curaria afim de o acusar como transgressor da lei que proibia qualquer trabalho em das festivos.

Jesus que bem lhes conhecia o interior, ordenou ao doente que se pusesse no meio. Em seguida para melhor fazer ver a sem razão de seus inimigos, pergunta-lhes: – É permitido em dia de festa fazer bem ou mal a outrem? Com isso queria dizer: – Certamente respondereis que não é lícito fazer mal a quem quer que seja em dia algum e muito menos em dia de festa. Mas não é acaso fazer mal ao próximo, deixar que pereça quando se poderia salvá-lo? E se me respondeis que é lícito fazer o bem em dia de festa é-me lícito, portanto, restituir a este pobre a desejada saúde. Os fariseus percebem em que apuros os colocara esse dilema, por isso não ousam responder que se podia fazer mal ao próximo em dia de preceito. Mas por outra parte, não querendo conceder que fosse lícito prestar-lhe auxílio, afim de não perderem aquela ocasião de sofismar contra Jesus, julgaram melhor calar e assim fizeram. Jesus, então, acrescenta: – Já que não quisestes responder à primeira pergunta, respondei a esta: – Se em dia de festa vos cai uma ovelha num fosso, não ides imediatamente tirá-la? Ora, se em dia de preceito vos é permitido salvar uma ovelha, porque não será permitido salvar um homem?

O argumento era irrefutável e os fariseus não tinham outro recurso senão darem-se por vencidos. mas assim não se deu.

Estão humilhados e confundidos sim, mas não querem ceder.

Vendo Jesus essa terrível cegueira e dureza de coração, sentiu grande compaixão deles. E visto que as desprezíveis oposições da inveja e as vãs censuras dos maus não nos devem impedir de fazer o bem, Jesus dirigindo-se ao paralítico lhe diz: – Estende tua mão; ele estendendo-a, ficou imediatamente curado.

Considerai nesse fato a mansidão e condescendência do Salvador.

Apesar de haver demonstrado com toda a clareza que é lícito curar um doente em dia de preceito, contudo, para tirar qualquer pretexto dos inimigos, não toca no paralítico, não faz o menor gesto, mas restitui-lhe a saúde somente com a palavra, afim de que não tenham nenhum motivo para sofismar e tornarem-se piores em sua obstinação.

Nessa maravilhosa mansidão, nessa caridade e consideração de Jesus até para com seus inimigos, o evangelista São Mateus vê o cumprimento de um oráculo do profeta Isaías com relação ao Messias: – Ele, diz o profeta, não contenderá, nem clamará, não esmagará a cana quebrada nem apagará o pavio que fumega (7).

E com efeito o Coração de Jesus deu as mais eloquentes provas de mansidão. Os fariseus eram como canas quebradas que mereciam ser esmagadas e lançadas ao fogo; eram um pavio semi-apagado que em vez de luz produzia cheiro insuportável. Jesus, portanto, o teria podido calcar aos pés e extingui-lo, mas não o faz.

Compadecendo-se da malícia daqueles infelizes, queria afastá-los do pecado e fortificá-los na fé. Tentou reacender em seus corações o fogo do amor de Deus e de uma fé viva afim de os salvar.

Depois de tais exemplos Jesus tinha direito de pregar a humildade e a mansidão dizendo: – Aprendei de mim que sou manso e humilde de coração (8).

Imitemos a Jesus e viveremos em paz com Deus e com os homens.

O Jardim dos Eleitos, P. João Bonetti, Salesiano, Traduzido do italiano, Edição de 1887.

(1) São João I, 29.

(2) Math. XI, 29.

(3) S. João VVI, 29.

(4) S. João VIII, 49.

(5) IV Reg. L.

(6) Euc. IX.

(7) Math. XII.

Última atualização do artigo em 12 de setembro de 2026 por Arsenal Católico