Ad Gloriam Dei et Salutem Animarum
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Bartolomé Esteban Murillo, O retorno da Sagrada Família do Egito, Data desconhecida, Museu Nacional, Domínio Público - Wikimedia Commons

Glorioso São José

São José, esposo puríssimo de Maria Santíssima e pai nutrício de Jesus Cristo era de origem nobre, como testificam os evangelistas Matheus e Lucas. Sua genealogia remonta a David e de David aos Patriarcas do antigo Testamento. Mais importante, porém, que sua origem é a virtude que tanto enobrece a alma de S. José: a humildade. Não sabemos onde o santo. Patriarca nasceu; alguns opinam que era natural de Nazareth na Galileia, onde trabalhava na oficina de carpinteiro; outros, porém acham mais provável que Belém tenha sido a cidade natal de S. José, pois Belém foi a cidade de David. A mãe de José era Estha. Não devemos estranhar a pobreza de José. Escolhido para ser o pai putativo do Messias, convinha que compartilhasse a vida pobre deste. Nada sabemos a respeito da infância de S. José e nem tão pouco da vida que levou até o casamento com Maria Santíssima. Os santos Evangelhos não nos dizem coisa alguma a seu respeito, limitam-se, apenas, a afirmar que José era justo, o que quer dizer: José era cumpridor da lei, homem santo.

Que a virtude e santidade de S. José foram extraordinárias, vemos pela grande e importante missão que Deus lhe confiara. Segundo a doutrina de S. Thomas d’Aquino Deus confere as graças e privilégios à medida da dignidade e da elevação do estado, a que destinou o indivíduo. Pode imaginar-se dignidade maior que a de S. José, que pelos desígnios de Deus devia ser esposo de Maria Santíssima e pai nutrício de seu divino Filho?

Parece fora de dúvida que os desposórios de Maria Santíssima com S. José obedeceram a um plano extraordinário da Divina Providência. Maria Santíssima consentindo no enlace com o santo descendente de David não podia ter outra coisa em mira, senão uma garantia para o futuro, uma defesa de sua virtude e uma satisfação perante a sociedade, visto que no antigo Testamento não era conhecida e muito menos considerada a vida celibatária. Celebrando o contrato de matrimônio com seu santo parente, Maria Santíssima certamente o fez com a garantia absoluta da sua pureza virginal, que por inspiração divina votara a Deus. (Os “Irmãos” de Jesus Cristo que os Evangelhos como tais apresentam, eram filhos de Maria Alphéa, irmã da mãe de Jesus. S. Jerônimo afirma que S. José conservou em toda a vida a sua virgindade. Ninguém pode estranhar o título de “Irmão de Jesus”, visto que os livros bíblicos empregam muitas vezes a palavra “Irmão” por “parente”. Abrahão disse a Lot: “Não haja contenda entre nós, pois somos “Irmãos”. E Abrahão não era irmão, mas tio de Lot).

Realizou-se a grandiosa obra da Encarnação do Verbo Unigênito de Deus. O arcanjo S. Gabriel saudou a Maria e comunicou-lhe o grande mistério que nela se havia de realizar. Maria pronunciou o “fiat” consentindo na maternidade que se operaria nela pelo Espírito Santo e deixou a S. José em completa ignorância. Com seu consentimento dirigiu se à casa de Santa Isabel, onde se demorou três meses e, de volta para sua casa, seu estado causou no espírito de S. José as mais graves preocupações e cruéis dúvidas. A virtude e santidade de sua esposa estavam acima de qualquer suspeita, não lhe permitindo explicação menos favorável. De outro lado via-se diante duma realidade que lhe torturava a alma. Nesta perplexidade invencível resolveu abandonar a esposa. Quando já tinha providenciado tudo para sua partida, apareceu-lhe, em sonho, um anjo do Senhor e disse-lhe: “José, Filho de David, não temas admitir Maria, tua Esposa, porque o que nela se operou é obra do Espírito Santo”. Foram assim de vez dissipadas as negras nuvens do espírito de José. É mais fácil imaginar do que descrever a alegria que lhe foi na alma, sabendo do grande mistério que se operava em Maria. Com quanto respeito, com quanta atenção não teria ele tratado aquela que pela fé sabia ser o tabernáculo vivo do Messias.

A época do nascimento de Jesus coincidiu com a publicação dum decreto do imperador Augusto, exigindo que todos os súbditos romanos se alistassem na cidade de sua origem. Foi necessária esta determinação imperial para que se cumprissem as profecias do antigo Testamento, que indicavam Belém como cidade onde havia de nascer o Messias. José e Maria, sendo da família de David, em obediência ao decreto, fizeram a jornada para sua cidade. O Messias, prestes a aparecer, chegou no que era seu e os seus não o receberam. Fecharam-se lhe todas as portas e seus pobres pais outro abrigo não acharam a não ser uma estrebaria fora da cidade. Provação duríssima para um coração tão extremoso como era o de S. José. Sua tristeza foi largamente recompensada, dando lugar a uma alegria incomparável, quando, naquela noite do desterro, Maria Santíssima deu à luz o Filho de Deus. Com que transportes de alegria não teria comtemplado o divino Infante, com que satisfação não o teria tomado em seus braços e coberto de ternos beijos!

Esta alegria foi aumentada ainda pelas circunstâncias extraordinárias que acompanharam o grande acontecimento: A aparição dos anjos nos campos de Belém e seu celestial canto, que, igual, o mundo jamais ouvira desde sua existência; o comparecimento dos pobres pastores no estábulo; mais tarde a chegada dos reis Magos do Oriente. Todos estes fatos, cabia qual mais extraordinário, despertaram em São José novos motivos não só de alegria como também de grande admiração. Pela primeira vez surgiu-lhe no espírito, bem nítida, a sublime missão que Deus na sua bondade lhe tinha reservado, a missão de Pai nutrício de seu Filho Unigênito. Este conhecimento, se bem que o tenha confundido, de certo encheu sua alma de paz indescritível.

Passados quarenta dias, José em companhia do Menino Deus e Maria Santíssima se dirigiu a Jerusalém em obediência à lei que exigia a apresentação do filho no templo. Sua alma sentiu-se profundamente comovida pela recepção que tiveram do velho sacerdote Simeão. Este, sem antes ter visto a criança, conheceu nela o Filho de Deus e, no transporte de satisfação que invadiu sua alma, desejou morrer.

Pouco tempo depois S. José recebeu de Deus a ordem de fugir com sua família para o Egito, para assim salvar a vida da criança, seriamente ameaçada pelo rei Herodes. Sem demora se pôs a caminho e ficou no Egito até segunda ordem. Esta veio, quando os perseguidores de Jesus tinham morrido, e José voltou para sua terra. Por cautela, porém, não ficou em Belém, mas estabeleceu-se em Nazareth. Conforme o costume na terra dos judeus, José ia anualmente por ocasião da Páscoa a Jerusalém para oferecer a Deus no templo os sacrifícios prescritos pela lei. Quando o Menino Jesus tinha doze anos, foi pela primeira vez com seus pais a Jerusalém. No dia da partida Jesus ficou no templo, sem que os pais o soubessem. Resultou daí grande aflição para as duas santas pessoas, que, com a maior ânsia, procuraram seu filho durante três dias, ora nas casas dos parentes, ora entre os grupos dos romeiros já de volta, até que o acharam no Templo sentado no meio dos sacerdotes e escribas. Jesus desceu com seus pais a Nazareth e ficou-lhes sujeito.

É tudo quando sabemos de S. José, e o que os santos Evangelhos dele nos relatam. Sendo a Sagrada Família legalmente constituída, José era considerado pai de Jesus e Jesus filho do carpinteiro. Não devemos pôr em dúvida que José tenha trabalhado com toda dedicação para ganhar o sustento das pessoas confiadas ao seu cuidado. Da mesma forma é certo que Jesus cumpriu para com ele as obrigações de filho, prestando-lhe obediência, respeito e amor do modo mais perfeito.

Ignora-se quando S. José morreu. Há razões que fazem supor que seu desenlace se tenha dado antes da vida pública de Jesus Cristo. Certamente não se achava mais entre os vivos quando seu Filho morreu na cruz, do contrário não se explicaria porque Jesus recomendou sua Mãe a S. João Evangelista, não tendo para isto razão, estando ainda vivo S. José.

Que morte santa terá tido o Pai nutrício de Jesus! Que felicidade morrer nos braços do próprio Jesus Cristo, tendo à cabeceira a Mãe de Deus! Mortal algum teve igual ventura. A Igreja com muita razão invoca S. José como padroeiro dos moribundos e os cristãos a ele se dirige com confiança para alcançar a graça de uma boa morte.

Não existem relíquias de S. José nem tão pouco algo do lugar onde foi sepultado seu corpo. Homens ilustrados e versados nas ciências teológicas houve e há que defendem a opinião que S. José em atenção a sua alta posição e sua grande santidade já goza de corpo e alma da glória de Deus no céu, em companhia de Jesus seu Filho e Maria sua santíssima Esposa.

Grande deve ser a nossa confiança na intercessão de S. José. Sua dignidade, sua amizade íntima com Jesus e Maria, seu lugar proeminente no plano da Redenção são outros tantos títulos que garantem sua influência e poder junto ao trono de Deus. Não há pessoa, não há classe que não possa, que não deva a ele se dirigir. A grande Santa Tereza, a propagandista da devoção a S. José chegou a dizer: Não me lembro de me ter dirigido a S. José, sem que tivesse obtido tudo que pedia.

A devoção a S. José na Igreja Católica é antiquíssima. A Igreja do Oriente celebra sua festa desde o século nono no domingo depois do Natal; os Coptos a comemoram no dia 20 de Julho. Os Carmelitas o introduziram na Igreja ocidental. Os Franciscanos em 1399 já festejaram a comemoração do santo Patriarca. Xisto IV inseriu-a no breviário e no missal; Gregório XV generalizou-a em toda a Igreja. Clemente XI compôs o ofício com os hinos para o dia 19 de Março e colocou as missões da China sob a proteção de S. José. Pio IX introduziu em 1847 a festa do patrocínio de S. José e em 1871 declarou-o Padroeiro da Igreja Católica, Leão Xlll e Benedito XV recomendaram aos fiéis a devoção a S. José, de um modo particular, chegando este último Papa a inserir no missal um prefácio próprio.

REFLEXÕES

S. José é um dos grandes Santos a que a Igreja patenteia maior devoção e confiança. E com razão! O esposo de Maria Santíssima, o pai putativo de Cristo, tendo recebido de Deus as mais honrosas distinções, quão caro não deve ele ser ao Omnipotente, quanto poder não deve ele ter sobre o coração de seu Filho! Recorram, pois, àquele grande modelo da vida oculta e contemplativa os que escolheram para si a parte melhor no caminho da perfeição. Recorram a ele, ao modelo da vida ativa, aqueles que devem santificar-se no trabalho manual e na duríssima fadiga. Recorram todos a S. José, para obter a pureza do corpo, da alma e do espírito. À sua vigilância foi confiada a inocência própria, Jesus Cristo, e a Virgem das Virgens, Maria Santíssima. Recorram a S. José todos para obter uma morte santa, recompensa de uma vida pura. Ele é o advogado dos agonizantes, porque só ele entre os mortais teve uma graça de espirar nos braços de Jesus e Maria.

Na Luz Perpétua, Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus para todos dos dias do ano, apresentadas ao povo cristão por João Batista Lehmann, Sacerdote da Congregação do Verbo Divino, Volume I, 1928.

Última atualização do artigo em 12 de setembro de 2026 por Arsenal Católico