Ad Gloriam Dei et Salutem Animarum
Arsenal
CAtólico

Maria é, realmente, corredentora e medianeira de todas as graças

Medianeira

No episódio de Caná se revela teu papel de medianeira, isto é, de intermediária entre o Senhor e nós para a obtenção e a distribuição das graças.

Poderíamos pensar que teu papel de Mãe se limitaria ao que diz respeito à vida privada e escondida de Jesus. E esse papel já seria por si mesmo de grande importância. Depois de teres dado à luz o Salvador é a ti que compete educá-lo, ensinar-lhe tudo o que a mãe ensina ao filho, prepará-lo pra o futuro pela melhor das educações. Durante os anos de Nazaré, Jesus sofreu tua influência e sua alma sempre mostrará traços de afinidade coma tua. Em seu coração como em seu corpo, o Salvador conserva para sempre profunda semelhança contigo.

Tua tarefa, porém, não terminou com o início da vida pública de Jesus, devia prosseguir em toda a sua obra. Era justamente essa a questão proposta por tua oração de Caná: Cristo aprovaria tua intervenção nos negócios de sua vida pública? Ele, pelo milagre, manifestou solenemente a aprovação.

Daí em diante, começarias a grande função que exerceste um pouco na terra e continuadamente exerces no céu: interceder junto ao Senhor para que as graças se difundam pela humanidade.

O episódio da Visitação já revelara esse papel que te esta destinado. Por teu intermédio, Maria, é que Cristo viera a Isabel; por sua saudação é que a plenitude do Espírito Santo comovera tua parenta. Foste a medianeira dessa graça excepcional.

As circunstâncias em Caná salientam ainda mais certos aspectos de tua mediação. Nós te vemos ali tomar a iniciativa. Os esposos não percebem o perigo que ameaça a festa, por isso não pedem tua intervenção. Espontaneamente tomas a iniciativa e supres, por tua vigilância, o descuido dos que te cercam. Então, enquanto todos despreocupadamente participam da festa, tens o cuidado de velar por eles.

Por que essa vigilância, senão porque tens um coração de Mãe para com todos os homens? Esse coração materno se deu a conhecer em Caná. Desde então, Maria, sabemos que alguém vela por nós, ininterruptamente, e se encarrega de suprir as nossas inadvertências. Tantas vezes ameaça-nos algum perigo, sem que o percebamos. Frequentemente somos imprevidentes como os esposos de Caná; às vezes, estamos á beira do abismo, sem dele ter consciência. Certamente, há a divina Providência que nos protege com zelo admirável e onipotente. Mas essa Providência quer que tua também estejas presente, para velar por nós com solicitude materna. Se estavas presente em Caná, é que o Senhor para ali se levara a fim de que, desde aquele momento, fôsses a expressão materna da divina Providência.

Embora tomando a iniciativa, permanecias escondida. Agias tão discretamente, que nem os esposos nem os convidados tomaram conhecimento de tua conversa com Jesus. O encarregado do banquete ignorava mesmo de onde surgira o vinho melhor que estavam servindo. Com efeito, tal é a ingeniosidade de tua afeição materna que se consome e se dedica sem se fazer notar. Quantos favores recebemos em nossa vida, devidos de modo especial a tua intercessão, sem que o saibamos e nem pensemos em te agradecer! Gostas de desaparecer atrás dos benefícios que nos obténs.

Quando te tornas nossa advogada, não há impossibilidade que te faça recuar. Com razão, tens o direito de repetir ao Senhor o que te dissera o Anjo Gabriel em sua mensagem: “Nada é impossível a Deus” (1). Por isso, não temes pedir favores extraordinários e milagres. Já que obtiveste o primeiro milagre, que poderia impedir-te de obter outros?

Eis porque os cristãos gostam de te invocar quando querem obter graças excepcionais. E és conhecida, Maria, como quem distribui milagres de cura e sobretudo de conversão, milagres nos corpos e mais ainda nas almas. Aliás, nunca poderias achar por demais ousadas as súplicas que te dirigimos, já que mostraste tanta audácia em Caná, e saíste vitoriosa.

Teu êxito mostra igualmente que podemos reclamar o auxílio de tua intercessão, até mesmo quando a vontade divina parece não querer atender-nos. Em Caná, a hora ainda não chegara, conforme os planos estabelecidos pelo Pai do céu: parecia que ias de encontro a uma muralha inexpugnável. Mas o Pai do céu também previra que, se perseverasses em teu pedido, serias atendida e a hora do milagre seria antecipada. Em seus planos, Deus dispusera de tal sorte as coisas que Ele se conformaria com tua vontade, por decisão de sua soberana bondade.

Daí em diante, até mesmo a vontade do Pai, por assim dizer, não te pode resistir, Maria, porque decidiu levar em conta tuas orações e não hesita em alterar seus projetos para satisfazer teus desejos. Quando tememos alguma resistência da parte de Deus, por teu intermédio foi-nos dado um meio de obtermos que o Todo-Poderoso escute nossos pedidos. Se os apresentares ao Senhor, Ele se inclinará a tudo te conceder. Podemos, portanto, esperar tudo de tua intercessão: foi-te dado um admirável poder sobre o Coração de teu Filho e por ele sobre o do Pai do céu. Esse poder foi-te concedido para que o exerças em nosso proveito. Se és onipotente sobre o Coração de Deus, essa onipotência pertence àqueles a quem desejas socorrer.

A narração do Evangelho, sobre o que se passou em Caná, faz-nos também compreender que estás disposta a intervir mesmo que seja para nos obter os menores favores. Não hesitaste em pedir um milagre para arranjar vinho para uma festa. Poderiam ter desejado graças muito mais importantes. Se se apresentasse a ocasião, tê-las-ias pedido a teu Filho, com mais ardor. Mas o exemplo de Caná mostra que estás atenta às mínimas necessidades dos homens, porque tua afeição materna se preocupa com os mais insignificantes detalhes de nossa vida e não despreza nossas menores alegrias. Podemos recorrer a ti para alcançar qualquer graça.

Enfim, em tua atividade de medianeira, queres revelar Cristo e dá-lo ainda mais à humanidade. Quando te aproximaste de Jesus para pedir o milagre, não pensavas somente na necessidade de prover o banquete de núpcias. Querias com o mais ardente desejo que, por um benefício miraculoso, teu Filho revelasse sua identidade de Salvador. Desejavas que Ele começasse a ficar conhecido e nEle acreditassem. ti te alegraste com esse milagre, porque por ele, como conclui o evangelista, Jesus “manifestou sua glória e seus discípulos creram nele” (2).

Por tua mediação, queres mostrar-nos e dar-nos mais amplamente teu Filho, para que nos afeiçoemos mais firmemente a Ele. Tudo qo que fazer, Maria, termina em Cristo.

Corredentora

O Evangelho só nos dá uma única indicação a respeito de tua participação no sacrifício redentor de Jesus: assinala simplesmente tua presença ao pé da cruz. “Junto à cruz de Jesus, escreve São João, estava de pé sua Mãe…” (3)

Foste tu, Maria, que quiseste estar junto a teu Filho naquele momento terrível. Quando soubeste que teu Filho voltara para a Judéia e ali arriscava a vida, só tiveste um desejo: estar perto dEle no perigo. Vieste, pois, a Jerusalém para arriscar-te com Ele; querias estar inteiramente solidária com teu Filho. Assim fizeste, não somente por instinto materno, mas também para obedecer á vontade divina; compreendeste que Deus queria unir-te de modo especial à obra redentora de Jesus e julgaste que devias carregar com Ele o fardo.

Eis porque tua presença no Calvário foi voluntária. Podemos conjeturar que os conhecidos que te cercavam esforçaram-se por impedir que acompanhastes teu Filho ao lugar do suplício. Queriam poupar-te semelhante espetáculo, tão doloroso para um coração de mãe. Embora compreendendo essa atenção cheia de simpatia e piedade, não quiseste ficar afastada. Já que seguias, há tanto tempo, a subida para o sacrifício final, quiseste ir até o fim, até o próprio Calvário. Acompanhaste Jesus no percurso em que Ele carregava a cruz e depois ficaste unida a Ele durante o suplício.

Por livre vontade viste enterrarem-se os cravos em suas mãos e pés, recebeste com Ele as zombarias e insultos que lhe eram dirigidos, sofreste todas as suas dores. Que lição nos dás a todos, que somos tão apressados a nós esquivarmos quando o sofrimento chega para nós e que com frequência agimos covardemente por medo da dor! Foste ao encontro do sofrimento porque querias estar mais intimamente unida a Cristo.

Longe de emitir uma só queixa, ofereceste de todo o coração o sacrifício de teu Filho. Poderias gemer ou lamentar-te porque te arrancavam teu Filho único, poderias ter protestado, porque entregavam-no à morte, sendo Ele inocente, e porque lhe infligiam toda a espécie de tormentos, quando Ele só distribuía benefícios a seu redor. Poderias ter-te revoltado contra essa monstruosa injustiça. Mas, à semelhança de teu Filho, recebeste tudo em silêncio e reconheceste nos acontecimentos a vontade do Pai do céu, a que era preciso submeter-te.

Uniste pois tua oferenda materna à oblação que Cristo fazia de si mesmo. Desse modo te tornaste Corredentora: colaboraste com Jesus para apresentar ao Pai uma oblação que reparasse os pecados do mundo e merecesse a salvação da humanidade. Já resgatada por Jesus, graças ao privilégio da Imaculada Conceição, podias cooperar com Ele no resgate dos outros homens. Era, aliás, teu Filho que, na realidade, sustentava misteriosamente tua coragem e te dava a força dessa total generosidade. Tornava-te capaz de merecer com Ele a remissão dos pecados e a vida da graça.

Naquele momento crítico, tua fé permaneceu intacta. Tu que foste a primeira a crer em Cristo, continuaste crendo nEle, e até com mais ardor, na hora das trevas. A escuridão que envolvia a cruz não podia ofuscar a luz que brilhava em teu coração. Os discípulos ficaram descorcoados com a prisão do Mestre e a conclusão do processo. Sua fé fôra submetida a dura prova, porque não podiam imaginar o Messias crucificado como um malfeitor. Tu, porém, acreditavas em teu Filho crucificado, continuavas a considerá-lo como o Salvador da humanidade.

Ao pé da cruz, também não perdeste a esperança. Entretanto, a condenação e a execução de Jesus pareciam considerável fracasso. Dir-se-ia ter sido inútil toda a sua pregação: a multidão se revoltara contra Ele, sob a instigação dos Fariseus; os discípulos desertaram; os inimigos se gloriavam de seu triunfo. Toda a obra empreendida por Cristo parecia definitivamente comprometida. Segundo a opinião de muitos, essa obra deveria ser colocada entre os movimentos messiânicos que despertavam entusiasmo durante um certo tempo e depois se dissolviam. Perseveraste na tua esperança, Maria, contra todas essas lastimáveis aparências. Conservaste a convicção de que o drama, que se desenrolava sob teus olhos, terminaria com a vitória de teu Filho. A espada de dor que transpassava o íntimo de tua alma não poderia desenraizar a esperança que depositaras em teu Filho. Vendo-o sofrer e morrer, foste golpeada pela dor, mas continuavas cheia de esperança.

Assim, no Calvário personificaste a fé e a esperança cristãs. Acreditaste em nome dos que eram tentados a abandonar a fé; esperaste em nome dos que se inclinavam para o desespero. Creste e esperaste em nome de todos aqueles que, mais tarde, se prenderiam á cruz do Salvador com toda a força da fé e da esperança. Em ti, Maria, formaram-se a fé indefectível e a invencível esperança da Igreja.

Sustenta, pois, nossa fé e nossa esperança, na dor e na provação! É sobretudo nesses momentos que precisamos crer no Salvador e nEle esperar.

O que sustentava o entusiasmo de tua oblação era também a vontade de tudo fazer pela salvação da humanidade. Sabias que Jesus viera a esse mundo por nossa causa; sabias que haveria de morrer por nós. O suplício fazia parte da obra que Ele devia cumprir. Conhecias o imenso desejo de teu Filho de alcançar, para os homens, melhor destino, a salvação de suas almas e a felicidade de Deus. Na sede que o torturava pouco antes de expirar, adivinhaste sua sede de uma humanidade mais pura e mais santa. Unindo-te a seu sofrimento, tu te unias sobretudo à sua vontade de salvar os homens.

Mostra-nos mais claramente esse aspecto apostólico do sofrimento. Quando estamos sofrendo, somos tentados a nos fechar em nosso pequeno horizonte individual e a só pensar em nós mesmos. Facilmente nos deixamos obcecar por nossos próprios aborrecimentos e nos esquecemos do resto do mundo. Se pudéssemos, Maria, à tua semelhança, ter diante dos olhos aqueles a quem amamos e por cuja felicidade queremos sofrer, nossa oblação seria feita com mais fervor. Em vez de nos dobrarmos sobre nós mesmos experimentando a tristeza do egoísmo, alargaríamos nosso horizonte e sentiríamos a secreta alegria de sofrer por outrem, sofrer pelas almas que têm necessidade de redenção e de salvação, sofrer em união íntima com Cristo por uma humanidade melhor.

Foste Corredentora, associada de maneira única e excepcional à Paixão do Salvador, a fim de nos lembrar a grande verdade de que nós também somos chamados a cooperar na redenção. Cristo não quer carregar sozinho a cruz; ficou feliz por encontrar em ti uma perfeita companheira. Que se alegre de encontrar em nós, cristãos prontos a receber a cruz, sem queixas, com fé, esperança e vontade de contribuir para a salvação de todos!

Intenções para a recitação do Terço

Medianeira de todas as graças,

  • sê nossa advogada junto de Deus em todas as nossas necessidades.
  • apresentando nossas súplicas a teu Filho, torna-as mais dignas de serem atendidas;
  • faze cair copiosamente as graças divinas sobre aqueles que se dirigem a ti;
  • expande as discretas atenções de teu coração materno sobre os que não te conhecem;
  • ao transmitir-nos as graças divinas, dá-nos sobretudo o autor da graça, Cristo!

Mãe Dolorosa,

  • une nosso coração ao de Cristo, quando estivermos sofrendo;
  • inspira-nos a oferecer de boa vontade nossos sacrifícios pela salvação das almas;
  • faze-nos crer no valor apostólico de cada sofrimento generosamente aceito;
  • conforta os que vacilam sob o peso de seus sofrimentos;
  • confirma a esperança dos que são perseguidos por causa de teu Filho!

Invocação

Nossa Senhora, a quem Deus constituiu medianeira de todas as graças, faze que, recorrendo a tua mediação, obtenhamos largamente os benefícios divinos!

Nossa Senhora, que colaboraste de todo o coração na obra redentora, faze de nós, pelo sacrifício, fervorosos colaboradores de nosso Salvador!

Gratia Plena, Jean Galot, S.J. Professor de Teologia, Tradução das Monjas beneditinas da Abadia de Santa Maria, 1962.

(1) Luc. 1, 37.

(2) João. 2, 11.

(3) João. 19, 25

Última atualização do artigo em 12 de setembro de 2026 por Arsenal Católico